Mem Martins: Europa-América, 1992
Este foi o último livro de Jorge Amado que li. E trago-o hoje porque este ano celebra-se o centenário do seu nascimento, dedicando-lhe a Biblioteca Nacional de Portugal, a Casa Ferreira de Castro e o Museu do Neorrealismo exposições.
Um livro de histórias, de estórias, entre o riso e a tragédia. O homem e o escritor estão aqui: os seus anos como comunista, as suas prisões, as suas viagens, as suas paixões, a família e os amigos. E a sua terra: Salvador da Bahia.
Dele transcrevo uma memória porque há por aqui umas apreciadoras de Alçada Baptista:
Lisboa, 1989 - a tia
A cada encontro no restaurante de Mimi, no Parque Mayer - sem o Restaurante Amadora, o Parque já não é o mesmo -, António Alçada Baptista apresenta-me à mais bela de ofícios diferentes: a mais bela advogada de Portugal, a mais bela redatora, a mais bela dançarina e por aí vai, são muitas. A mais bela? Maneira de louvar do sedutor: bonitas todas, umas mais, outras menos, charmosas, elegantes, sobretudo apaixonadas. António as pastoreia, ar de frade em férias, pecaminoso.
«Ensaísta consagrado, polémico, António estreou na ficção com romance que fez época, entusiasmo da crítica, prémios, best-seller, O nó e os laços: o começo do livro é um achado. [...]
«Outro romancinho, Tia Suzana, meu amor [...], descreve as intimidades de pensamento, religião e cama do narrador, um rapazola - o autor fazendo-se de personagem? Só o próprio António poderia responder - e uma sua tia, balzaquiana. Na cama coçam-se mutuamente as costas, catam-se cafunés, trocam beijinhos [...] e nada mais acontece, acredite quem quiser. Dela decerto, dessa tia meio freira meio iaba, herdou António o ar de frade em férias, prevaricador.
«- Tu queres me convencer, António, que jamais tu e tua tia chegaram às vias de facto?
«- Primeiro não somos eu e minha tia, são o personagem e a Suzana, tia dele. Mas, ainda que fôssemos eu e a tia, posso te garantir que tudo não passou de ternura, nada além das cosquinhas.
«- As cosquinhas, os cafunés, os toques, os beijinhos, o fornicoques, tudo platónico?
«- Tudo. Mais pura e inocente que tia Suzana nunca houve.
«António Alçada Baptista fala sério, o ar de frade imaculado. Acredite quem quiser, eu hein! não sou daqui, não conheço os costumes locais, os hábitos de cama, na Bahia tia Suzana não escapava.» (p. 41-42)