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domingo, 16 de novembro de 2014

Ainda Manoel de Barros

Nuno Júdice no Público
Manoel de Barros, Ilustração de Rogério Coelho
Retrato de Manoel BarrosENCOMENDAÇÃO

Deus é uma grande aranha, pensou
manoel de barros. E agarrou um dos
fios da sua teia para subir, com
todo o cuidado de um tecedor
de palavras, até ao infinito. «E
onde está o deus que fabricou
tudo isto?», perguntou ao chegar
à floresta que nasce no cume
dos sonhos. E um dos pavões,
de sílabas coloridas com as tintas
vermelhas e roxas do crepúsculo,
respondeu: «Deus vive na rede
dos teus versos.» E abriu a sua
cauda onde as cores da madrugada
reflectiam, como num espelho
de ouro poliédrico, o rosto de deus.

Nuno Júdice
 14-11-2014
Poema inédito cedido pela Casa da América Latina

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"...incompletude"

                                        Juan de Arellano, Coroa de Flores,  
Pássaros e  Borboletas, Museu do Louvre


Retrato do artista quando coisa 

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

[Trecho]
Manoel de Barros “Manoel de Barros — Poesia Completa Bandeira”, editora Leya