Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Domingues (1911-1951). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Domingues (1911-1951). Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de novembro de 2019

Leituras no Metro - 1044

Porto Salvo: Desassossego, 2018

Júlio Fogaça, oriundo de uma nobreza rural, nasceu em Alguber (Cadaval) em 1907. Aderiu ao PCP na mesma altura que Álvaro Cunhal e durante várias décadas defenderam orientações políticas opostas: o primeiro a Política de Transição Pacífica ou Solução Democrática e Pacífica; o segundo o Levantamento Nacional.
Júlio Fogaça converteu-se ao comunismo em Lisboa e chegou à direção do partido depois de ter sido  preso, torturado e por duas vezes desterrado para o Tarrafal. Foi expulso do PCP, mas as circunstâncias dessa expulsão e da derradeira prisão pela PIDE ainda hoje continuam encobertas. Quem o denunciou aquando da sua última prisão na Nazaré? Não parece ter sido o seu companheiro, um operário que nada tinha a ver com o PCP. Por que foi deixado para trás na fuga coletiva de Caxias? E por que foi expulso do PCP? Duas circunstâncias devem ter pesado: a 'rivalidade' com Cunhal e a sua homossexualidade. Ainda hoje, o PCP é um partido reacionário em questões de costumes.
Segundo Carlos Brito, depois da prisão de Cunhal, «Júlio Fogaça foi assumindo cada vez mais protagonismo, até atingir o seu ponto máximo, no V Congresso [o do Estoril]. Não era um comandante como Álvaro Cunhal, que se impunha naturalmente, mas Júlio Fogaça destacava-se claramente pelas suas qualidades intelectuais.» (p. 198)
Morreu em Lisboa em 1980 e o seu arquivo encontra-se na Academia das Ciências de Lisboa.
Gostaria de saber onde Adelino Cunha se fundamentou para afirmar que «a PIDE desmantelou organizações clandestinas e conseguiu recrutar vários rachados, entre os quais um membro do Comité Central [do PCP], Manuel Domingues, que acabou por ser assassinado depois da sua expulsão.» (p. 177)
Uma das versões para o assassinato de Manuel Domingues, e que a mulher deste sempre defendeu, é que ele queria abandonar o PCP e ir para o estrangeiro, por já viver há demasiados anos na clandestinidade. Foi convocado para um encontro, onde foi morto. Quem o matou? A seguir ao 25 de Abril, ela quis consultar o processo dele da PIDE e este tinha desaparecido...

Fogaça retratado pela irmã Beatriz?
Lisboa, Academia das Ciências
Júlio Fogaça no Chiado.
A casa da Quinta do Porto Nogueira, onde Júlio Fogaça nasceu, é hoje um turismo de habitação.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Marcadores de livros - 886



Leituras no Metro - 293

Lisboa: Parsifal, 2017

Há uns meses, vi este romance numa livraria e fiquei com vontade de o ler. É sobre o assassinato do comunista Manuel Domingues, em 1951. Lembro-me de ouvir falar muitas vezes deste assunto quando era miúda.
Manuel Domingues foi um operário vidreiro da Marinha Grande. um dos fundadores do PCP naquela vila e um dos organizadores da greve do 18 de Janeiro de 1934. Depois da greve, fugiu para Espanha, estudou na Escola Leninista de Moscovo, combateu do lado republicano na Guerra Civil de Espanha e esteve na Resistência em França. No final de 1944 voltou a Portugal e entrou na clandestinidade. Já aqui tinha estado entre 1937 e 1938, integrando a direção do PCP, encabeçada por Pavlov. A partir de 1945 fez parte do Comité Central. Em 1949 entrou em dissidência com o partido, devido à expulsão de uns militantes da Marinha Grande, o que veio a revelar-se o motor para o seu assassinato no pinhal de Belas, em maio de 1951. O PCP acusou-o de provocador e de estar feito com a PIDE.
Ao que me lembro, o seu processo da PIDE desapareceu após o 25 de Abril. Carlos Ademar baseou-se no processo da Polícia Judiciária para escrever este livro.
Este livro (cujos personagens têm nomes levemente distorcidos dos reais) não é um grande romance, mas gostei de o ler porque percebi alguns meandros desta história.

Manuel Domingues pouco antes da sua morte.
Diário de Lisboa, 5 maio 1951

«No início da tarde de 5 de maio de 1951. Num apartamento pequeno e triste localizado na […] Damaia, sentada num banco de cozinha, Mariana lia o Diário de Lisboa daquele dia. Sobre a mesa à sua frente, além de uma máquina de escrever, repousava o Diário de Notícias da véspera, que nada de relevante lhe trouxera, como, aliás, os que comprara nos dias anteriores. A mulher andava preocupada com o desaparecimento de Miguel e procurava alguma explicação nos jornais, falta de outras fontes. 
«[…] Desde 18 de abril que não sabia de Miguel, dia em que pela última vez entrou naquela casa para a visitar, bem como ao filho. 
«[…) Mariana tinha uma convicção forte: aquele desaparecimento misterioso não podia deixar de ter algum tipo de ligação ao estado de espírito deprimido em que Miguel se encontrava. […) No partido as coisas não corriam bem e era uma situação que se arrastava desde os primeiros meses de 1949.» (p. 38-39)