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domingo, 24 de agosto de 2008

Philipp von Schulthess

Philipp von Schulthess, neto de Claus e Nina von Stauffenberg e filho de Konstanze von Schulthess, nasceu em Zurique a 23 de Março de 1973.

Licenciou-se em Macroeconomia no Queen Mary College da University of London. Trabalhou na área do Investment Banking, antes de ingressar no curso artístico no City Literary Institute (City Lit) e na London Academy of Music and Dramatic Arts (LAMDA).

Estreou-se no cinema no filme Operação Valquíria de Bryan Singer, no papel de Fabian von Schlabrendorff, ajudante do oficial Henning von Treschkow.

No seu trabalho mais recente, desempenhou o Opera Stage Manager no novo James Bond: Quantum of Solace.

Fotografias da autoria de Pascal Molière de Margarete Redl - von Peinen

Operação Valquíria

A estreia de Operação Valquíria na Alemanha estava prevista para Julho. Foi adiada para Fevereiro de 2009, mês em que se realiza o Festival de Berlim (Berlinale) – feliz coincidência…
Os Estados Unidos antecipam-se. O público americano poderá ver o filme a partir de 26 de Dezembro deste ano, após sucessivos atrasos na estreia da película por parte da 20th Century Fox.

As filmagens que decorreram em Berlim e Bradenburgo em 2007/8 mereceram a atenção especial da comunicação social alemã. A narrativa - a preparação e o fracasso do atentado contra Hitler, na óptica de um realizador não alemão - já em si dificilmente passaria despercebida na Alemanha por motivos óbvios. Porém, a mediatização à volta do filme centrou-se quase exclusivamente no actor principal, Tom Cruise, que desempenha o papel de Claus von Stauffenberg. Vários foram os quadrantes político-sociais que contestaram a decisão a favor de Cruise. Não estiveram em causa os dotes artísticos do protagonista, mas, sim, o facto de Cruise pertencer ao movimento Scientology. No entender dos críticos, a imagem e a idoneidade de von Stauffenberg correm risco de serem denegridas por um actor que se assume como membro cientologista desde há anos.


Na minha humilde opinião, ser ou não ser cientologista em nada implicará na qualidade do filme. Independentemente da simpatia ou antipatia pessoal pelo actor, Cruise deu provas do seu talento (refira-se o seu desempenho em Magnólia de Paul Thomas Anderson, 1999). O sucesso de Operação Valquíria medir-se-á através da (in)capacidade do realizador em abordar, de forma historicamente correcta, um tema tão sensível – um desafio enorme a que nem todas as adaptações cinematográficas estiveram à altura. Excepções existem naturalmente sempre, lembro-me de A Queda de Oliver Hirschbiegel (2004) com um excelente Bruno Ganz no papel de Hitler ou Sophie Scholl – Os últimos dias de Marc Rothemund (2005) com uma extraordinária Julia Jentsch como protagonista prinicpal.

Cabe então à realização de Bryan Singer (The usual suspects, Superman returns) e à dupla Nathan Alexander e Christopher McQuarrie, responsáveis pelo argumento, demonstrar essa capacidade. O elenco é notável: Cruise é acompanhado de Kenneth Branagh (Henning von Treschkow), Tom Wilkinson (Friedrich Fromm) e de David Bamber (Adolf Hitler). Nina von Stauffenberg fica a cargo da actriz holandesa Carice van Houten.


A expectativa e a curiosidade são naturalmente grandes. No entanto, dois aspectos afiguram-se-me positivos à partida: Hollywood, já por motivos de bilheteira, terá certamente todo o interesse em mostrar Claus von Stauffenberg como herói (e não como traidor a um regime, conforme alguns mentecaptos pensaram ao longo de muitos anos).
O segundo argumento a favor desta produção chama-se Philipp von Schulthess.
Perguntarão os leitores quem está por detrás deste nome tão sonante. É muito simples: o neto de Claus e Nina von Stauffenberg que representará o ajudante do oficial Henning von Treschkow.

NINA SCHENK CONDESSA DE STAUFFENBERG: Conclusão


“A família Stauffenberg será extinta até ao último membro,” assim anunciava Heinrich Himmler a “erradicação” da “estirpe” dos von Stauffenberg a 3 de Agosto de 1944. A fotografia, tirada por ocasião do 90º aniversário da condessa em 2003, prova que o destino teve felizmente um rumo diferente. Na imagem, Nina é rodeada de 43 descendentes.

Os meses que se seguem ao reencontro de Nina com os filhos, são difíceis. Como o resto da população alemã, os von Stauffenberg confrontam-se com as preocupações mais básicas do dia-a-dia. A escassez de bens alimentares exige de Nina uma criatividade quotidiana para poder sustentar a sua família. No entanto, a etiqueta à mesa é um must, mesmo em circunstâncias menos faustosas, conforme recorda Konstanze.
Não obstante as dificuldades, Nina acolhe familiares e amigos necessitados no seu palácio de Lautlingen que escapou aos bombardeamentos.


Konstanze von Schulthess

Após o martírio sofrido em prisão e no campo de concentração, é tempo de reflectir sobre os acontecimentos à volta do atentado e as consequências. Nina perdeu o seu marido e parte dos seus familiares, entre eles, a própria mãe que, sem qualquer envolvimento, foram vítimas da horrenda vingança do regime. O preço pelos ideais que Claus von Stauffenberg seguiu é elevadíssimo. Demasiado elevado numa perspectiva objectiva, tendo em conta a perda da própria mãe e tendo em consideração as privações e retaliações que Nina sofreu após o dia 20 de Julho de 1944.

No entanto, a forte personalidade de Nina von Stauffenberg supera todas e quaisquer dúvidas neste contexto: profundamente convicta de que a atitude e a coragem de Claus von Stauffenberg se sobrepunham como princípios da Humanidade inquestionáveis, Nina defende a posição do seu marido ao longo de toda a sua vida. Em 1996, refere que o facto de nenhuma das viúvas do 20 de Julho ter voltado a casar, manifesta bem a forte ligação que tiveram com os seus maridos.
A condessa contrapõe com veemência a opinião de alguns historiadores que acusavam von Stauffenberg de uma alegada simpatia por Hitler e pelo regime até aos primeiros “êxitos” bélicos que as tropas alemãs alcançaram após a invasão da Polónia em 1939 e da França um ano depois.


Manter a memória viva é uma das preocupações da condessa na Alemanha do pós-guerra. A opinião pública que durante os anos 50 ignorou os acontecimentos do Terceiro Reich toma, pouco a pouco, conhecimento da existência de uma Alemanha diferente entre 1933 e 1945. Toma nota de que alguns alemães, no meio de um colectivismo absoluto, discordavam com o totalitarismo e actuavam. E toma consciência de que estes indivíduos são individualidades notáveis e admiráveis, e não condenáveis, conforme muitos quadrantes sócio-políticos opinavam durante as primeiras décadas após 1945.

Nina von Stauffenberg empenha-se ainda em aproximar os alemães de outras culturas. Sua casa em Bamberg é centro de encontros e festas regulares entre alemães e americanos.


A vida de Nina von Stauffenberg é a história do século passado. Relatá-la na íntegra, é impossível. Muitos são os pormenores ocorridos entre Julho de 1944 e Junho de 1945 que ficaram omissos ao longo dos últimos capítulos. A mini-série peca, seguramente, por uma narrativa demasiado objectiva, demasiado linear, que dificilmente transmite a dimensão horrenda das circunstâncias em que alguém como Nina se encontra.

A biografia de Konstanze von Schulthess sobre Nina equivale, em primeiro lugar, a um depoimento de afecto e de amor de uma filha para com a sua mãe.
Como mais-valia histórica, revela-nos factos inéditos, de interesse para historiadores, bem como para o leitor comum.
Como testemunho para a posteridade, apresenta uma mulher extraordinária que, no anonimato durante muito tempo, lutou pelos ideais de um marido quem amou e perdeu aos 31 anos.

Se a Claus von Stauffenberg e a todos os membros activos da resistência, a Humanidade deve o respeito pela coragem inimaginável, a Nina e a todas as famílias a Humanidade deve a admiração pelo apoio incondicional com que a resistência pôde contar. Se em Claus von Stauffenberg vemos um marido, um pai e um herói, em Nina von Stauffenberg vemos uma esposa, uma mãe e uma das mais fascinantes personalidades femininas da História Contemporânea.

Nina Schenk Condessa de Stauffenberg morreu em Kirchlauter/Bamberg a 2 de Abril de 2006 aos 92 anos.

- Fim -

Nota: as imagens desta mini-série que não são do domínio público foram extraídas do livro "Nina Schenk Gräfin von Stauffenberg - Ein Porträt" de Konstanze von Schulthess, Pendo Verlag GmbH, Zurique e Munique, 2008

domingo, 17 de agosto de 2008

NINA SCHENK CONDESSA DE STAUFFENBERG: deportação e libertação


Em Dezembro de 1938, Himmler ordena a construção do campo de concentração de Ravensbrück em Bradenburgo que é concluída por presos do campo de concentração de Sachsenhausen dentro de poucas semanas.
A partir de Maio de 1939, chegam os transportes com milhares de mulheres: judias, ciganas, prostitutas, membros da resistência, religiosas, testemunhas de Jeová – a ideologia nazi “encarrega-se” de justificar as detenções. Ravensbrück viria a ser o maior campo de concentração para mulheres durante o Terceiro Reich.
Muitos são os transportes provenientes de França. Juliette Gréco ou Elisabeth Pelletier de Chambre, esposa de Philippe de Rothschild (membro da resistência francesa), são deportadas para este recinto.
Em 1944, é decidido o extermínio sistemático nas câmaras de gás. Ravensbrück - um lugar sem retorno.

Nina von Stauffenberg é detida por motivos políticos durante cinco meses em prisão solitária. Continua a desconhecer o paradeiro dos seus filhos. Devido à sua gravidez, “tem direito” a uma alimentação ligeiramente melhor. Testemunhas de Jeová que Nina recorda como “muito amáveis” dão-lhe as refeições. Através de uma pequena janela na sua cela, assiste às cenas horrendas de massacres e de humilhações das detidas.

Entre os transportes de mulheres mais recentes encontra-se Anna von Lerchenfeld. A terrível notícia de que a própria mãe é presa em Ravensbrück atinge Nina profundamente. A poucos metros de distância, mãe e filha nunca viriam a cruzar-se: a Direcção do campo impede deliberadamente um encontro entre as duas.


A sua fé ajuda Nina a suportar melhor esta angústia bem como o afastamento dos filhos: “Entregamo-nos na mão de Deus, e isso já em si é uma grande ajuda” refere Nina.
A condessa conta com outro apoio precioso na pessoa da sua cunhada, Melitta von Stauffenberg. A mulher de Alexander von Stauffenberg, detida logo após o atentado, é libertada pelo facto de ser aviadora, o que é de interesse estratégico para o regime. A troca de correspondência com Melitta representa o único contacto que Nina tem com o mundo exterior.
Finalmente, através de Melitta, Nina vem a saber que os seus quatros filhos se encontram bem de saúde, num lar infantil em Bad Sachsa.

Em Janeiro de 1945, Nina recebe ordens de preparar os seus poucos pertences. Acompanhada da Gestapo, sai do campo sem conhecer o destino. São-lhe oferecidos alguns acessórios para bebés e um cobertor. No meio de todo o desespero, nasce a esperança de poder vir a dar à luz.
De comboio, parte primeiro para a pequena localidade de Seeläsgen (hoje Przełazy, Polónia). Segue para Frankfurt an der Oder, onde, após uma breve passagem por um campo de refugiados, é internada numa clínica. É-lhe atribuído um quarto individual, algo com que Nina não sonhava, tendo em conta as condições vividas em Ravensbrück poucos dias antes. A vigilância permanente pela SS torna-se suportável nestas circunstâncias.
A 27 de Janeiro de 1945, nasce a filha mais nova, Konstanze.



A partir de Fevereiro desse ano, a situação na Alemanha é caótica. A guerra está perdida, os Aliados entram em território alemão. A população alemã tenta fugir às tropas estrangeiras, em particular aos tanques do Exército Vermelho que se aproximam de Leste. Nina e sua filha, sob constante vigilância, são submetidas a uma verdadeira odisseia. Percorrem várias cidades até chegar a Potsdam. São internadas num hospital, quer a mãe quer a filha encontram-se em estado de saúde frágil. A 12 de Abril de 1945, Konstanze é baptizada - pela terceira vez, pois nem a mãe nem o sacerdote que assiste ao baptizado sabem que Konstanze tinha sido baptizada anteriormente, “à cautela”, por uma freira e um padre.

Também neste hospital, recebe Nina a triste notícia do falecimento da sua mãe: Anna von Lerchenfeld tinha sido deportada de Ravensbrück em direcção a Leste. Vítima de tifo, morreu no campo de concentração de Stutthof a 6 de Fevereiro de 1945.

A odisseia continua: com a capitulação da Alemanha à vista, Nina é entregue à guarda da SS ou Gestapo à revelia. Existe algum plano para ela e a filha? Quem dava as instruções? Quem decidiria sobre o seu destino?



Nina percorre novamente várias cidades em direcção à Baviera e Baden-Württemberg. A 8 de Maio de 1945, a Alemanha declara a sua capitulação. O agente da SS que acompanha Nina e Konstanze terá receio das represálias e retaliações que as tropas americanas poderão vir a exercer sobre ele, pois apenas assim é explicável a atitude de deixar Nina e a filha fugir.


Fim da Segunda Guerra Mundial, pelo menos na Europa. O Terceiro Reich e o regime nazi são derrotados. Os quatro exércitos aliados repartem entre si o território alemão.
È neste contexto, já de liberdade, que Nina procura seus quatro filhos com a ajuda de familiares e amigos.
Em Junho de 1945, Nina encontra finalmente os seus filhos sãos e salvos em Lautlingen. Decorrido quase um ano após o atentado, o martírio de Nina termina.


To be continued




Imagens: Juliette Gréco; Melitta von Stauffenberg; libertação do campo de concentração de Ravensbrück em Abril de 1945; célebre foto que mostra um soldado soviético a içar a bandeira soviética em Berlim; Nina e os seus cinco filhos em Lautlingen, Verão de 1947

domingo, 10 de agosto de 2008

NINA SCHENK CONDESSA DE STAUFFENBERG: o atentado e as suas consequências

Claus von Stauffenberg é executado às 0.15h do dia 21 de Julho de 1944, poucas horas após o fracasso do atentado. Hitler sobrevive com ferimentos ligeiros e recebe Mussolini ainda no dia do golpe, para manifestar ao povo alemão que está em plena capacidade de continuar à frente do Terceiro Reich (ver imagem).

Cabe à mãe de Claus, Karoline von Stauffenberg, transmitir a horrenda notícia da morte do filho à sua nora Nina. Em Lautlingen (Sul da Alemanha), onde os von Stauffenberg passam o Verão num palácio, pertença antiga da família, Nina é confrontada com os acontecimentos de forma inesperada. À dor pela perda do marido juntam-se a angústia e o medo das consequências para os filhos.

Na perspectiva de hoje, talvez duas alternativas se afigurem a Nina: ou se decide pela fuga imediata, antes de a Gestapo a encontrar, ou aceita a situação e permanece em Lautlingen. Opta por ficar e enfrentar o seu destino.

Aos filhos mais velhos, Berthold e Heimeran, dá a triste notícia da morte do pai. Antevendo os interrogatórios pela Gestapo, Nina acrescenta o seguinte: “O vosso pai errou, por isso foi fuzilado”. O luto pelo falecimento do pai mistura-se com a tremenda dificuldade de entender o porquê de Claus von Stauffenberg, herói aos olhos dos filhos, ter cometido um erro tão grave.
Tal afirmação deveria proteger os filhos: ao admitir à Gestapo que o pai fora executado por culpa própria, talvez os quatro escapassem às piores represálias. Nina “ensina” outra frase aos filhos que, muito rapidamente após o atentado, corre a Alemanha: “A Providência salvou o nosso querido Führer”.
À volta de todo o desespero, há, contudo, uma boa nova: Berthold e Heimeran terão em breve um irmão (ou irmã). Vida e morte parecem fiéis companheiros nestes dias.

A situação em que Nina se encontra deve ser inimaginável: pensa e repensa sobre qual a melhor estratégia a seguir no inevitável confronto com a Gestapo. A incerteza sobre o futuro dos filhos apavora-a. Nina conhece o procedimento “habitual” do regime em relação aos filhos de adversários políticos: ou são deportados para um campo de concentração ou entregues para adopção. Nina está consciente de que o aparato nazi fará todas as diligências para exterminar a “estirpe” dos von Stauffenberg. A ideologia nazi impõe a chamada Sippenhaft, ou seja, a extinção de toda uma família de que provém o opositor ao regime. De facto, a 3 de Agosto de 1944, Heinrich Himmler, o Reichsführer da SS, viria a anunciar que “a família Stauffenberg será extinta até ao último membro.”

As horas intermináveis são abruptamente interrompidas quando, na madrugada de 23 de Julho, a Gestapo bate à porta. Nina despede-se dos seus filhos, sem saber se alguma vez voltará a vê-los.

A condessa permanece, durante oito dias, numa prisão em Rottweil, a trinta quilómetros de Lautlingen. Segue depois para Berlim, onde é detida numa prisão próxima de Alexanderplatz. As condições são “indescritíveis”, recorda Nina que, detida por motivos políticos, permanece em prisão solitária durante algumas semanas. As poucas condescendências com que pode contar devem-se à sua gravidez. Nina sai da prisão apenas para se submeter a vários interrogatórios na central da Gestapo na Prinz-Albrecht-Strasse.

A Gestapo tenta obter informações sobre outros conspiradores ou planos subversivos. Nina desempenha, de forma convincente, o papel de mulher doméstica, nunca envolvida em questões políticas. Afirma nunca ter tido conhecimento das intenções do seu marido.

Ao fim de três semanas, conclui a Gestapo que Nina em nada está relacionada com o atentado.

Mas o martírio continuaria. Sem saber o paradeiro dos seus filhos, da sua mãe e da sua sogra, Nina von Stauffenberg é deportada para o campo de concentração de Ravensbrück em finais de Agosto de 1944.

To be continued



Nota: ao referir a deportação da condessa, não tenciono de todo criar algum “suspense”, como se de um romance policial se tratasse. As circunstâncias em que a condessa se encontrava são naturalmente demasiado sérias para tal propósito. Em meu entender, seria excessivamente extenso o relato do martírio de Nina num único post.

domingo, 3 de agosto de 2008

NINA SCHENK CONDESSA DE STAUFFENBERG: uma família durante o Terceiro Reich

Nascem os filhos Berthold (1934), Heimeran (1936), Franz Ludwig (1938) e Valerie (1940). A filha mais nova, Konstanze, autora da biografia sobre Nina, viria a nascer em Janeiro de 1945, já após a morte do pai.

“O meu pai era doido por crianças”, assim recorda Konstanze o depoimento dos seus irmãos sobre Claus von Stauffenberg. Carinhoso e ternurento são os atributos com que Konstanze descreve o pai. Vive-se um ambiente idílico em casa dos von Stauffenberg.

E Nina? “É difícil avaliar, numa perspectiva tão distante, qual o significado verdadeiro do matrimónio para o meu pai. Que amava a minha mãe, não há dúvida. No entanto, não podemos esquecer que ele era um filho da sua época, e que conceitos, tais como o de igualdade ou emancipação, estavam longe de qualquer imaginação”.

Para a minha mãe, “amor significava também renúncia”, afirma Konstanze. Nina aceita as longas ausências do seu marido que a vida de um alto militar implica. Em contrapartida, os poucos momentos em comum são partilhados no seio da família de forma intensa e bem-vivida. Outros sacrifícios que Nina suporta são as frequentes mudanças de casa e de cidade, no seguimento de vários destacamentos de Claus. Entre 1934 e 1938, mudam-se por três vezes (Hannover, Berlim e Wuppertal).


Com efeito, Nina revela um perfil e uma autonomia muito pouco vulgares à luz dos padrões da sua geração. Frequenta concertos, lê e dedica-se à pintura. Em nada corresponde ao ideal da mulher alemã segundo a doutrina do regime. “A mulher alemã não fuma e não se pinta” – apenas um dos muitos slogans, característicos do ideal feminino dos anos 30. Nina destaca-se por uma atitude precisamente oposta: “Despreocupada..., fumava por vezes três maços de cigarro por dia, ..., e nunca saía sem bâton.”

Nina é esposa, mãe e parceira. A componente de parceira é-lhe importante: com ela, Claus comenta temas políticos da actualidade, como a estratégia de guerra de Hitler; a ela, confidencia as suas reservas em relação à política racial do regime e o seu cepticismo contra o estado nazi.

Estas reservas aumentam à medida que Claus se apercebe da dimensão da maquinaria totalitária. Os graves ferimentos que sofre no Norte de África em 1943 reforçam certamente a sua convicção de que apenas a eliminação do Führer poderá salvar a Alemanha.
Com a ajuda de outros oficiais, Claus von Stauffenberg prepara o atentado de 20 de Julho de 1944.

To be continued


domingo, 27 de julho de 2008

NINA SCHENK CONDESSA DE STAUFFENBERG: infância e juventude

Nina Magdalena Elisabeth Lydia Herta Freiin von Lerchenfeld nasce a 27 de Agosto de 1913 em Kowno (Lituânia). Seu irmão Ludwig morre aos cinco anos, vítima de pneumonia e meningite.
Seu pai, Gustav Freiherr von Lerchenfeld, é diplomata, sua mãe Anna provém da família báltica dos Freiherren von Stackelberg.

A família encontra-se na Rússia, quando tem início a Primeira Guerra Mundial. Enquanto representante da Alemanha, considerada a agressora principal do conflito, Gustav von Lerchenfeld é detido em São Petersburgo sem acusação formal. Apenas ano e meio depois, é libertado por intervenção de diplomatas da Embaixada de Espanha a quem Anna, parente da rainha Victoria Eugénie, recorre ao fim de uma odisseia por várias representações europeias. Os três regressam à Alemanha.

Após uma breve estada em Bayreuth, mudam-se para a cidade de Bamberg (Baviera) onde Nina passa grande parte da sua infância. Apesar da rigidez e da disciplina, próprias de uma educação da época, vive-se um ambiente de afecto e carinho. Nas suas memórias, Nina guarda recordações de uma juventude muito feliz. O temperamento da mãe contribui, seguramente, para a boa disposição em casa. Fala-se em três idiomas, alemão, russo e francês. O estilo de vida, característico da alta aristocracia, é cosmopolita, o verão é passado na Riviera, Suiça, Baden-Baden ou Paris.

Nina segue os seus estudos num colégio interno em Heidelberg. Ao contrário das suas amigas, empenhadas na aprendizagem de tarefas tradicionais, Nina interessa-se por livros de aventura. Seus grandes ídolos são Winnetou e os três Mosqueteiros.

Aos 16 anos, Nina regressa a casa. Passa semanas de férias descontraídas, na companhia de primos e amigos. Os planos dos pais são ambiciosos, pois deverá a filha prosseguir com os estudos em Lausanne.

A 1 de Janeiro de 1930, um militar de 23 anos, de nome Claus Philipp Maria Schenk von Stauffenberg, é destacado para Bamberg para continuar a sua jovem carreira militar. Esbelto e com um futuro promissor, é naturalmente "objecto" de muita atenção por parte do universo feminino local. Os seus interesses provam uma cultura extraordinária, para além de dominar o violoncello, alimenta a sua grande paixão pela literatura, instruída por sua mãe, Karoline von Stauffenberg, que se correspondia com Rainer Maria Rilke. Escreve poesia nos seus tempos livres.

Na Primavera desse ano, Claus conhece Nina. Terá sido amor à primeira vista. "Quando vi Nina, soube imediatamente: eis a mãe dos meus filhos", assim expressa Claus o seu fascínio. Em Novembro de 1930, é anunciado o noivado. Durante três anos, Claus e Nina, bem como as suas famílias intensificam o seu relacionamento. A 26 de Setembro de 1933, casam-se em Bamberg.

A viagem de lua-de-mel leva-os até Verona, Florença e Roma. Neste percurso, torna-se evidente o contexto político em que a Europa se afunda: Itália está sob o domínio de Mussolini, a Espanha sob o regime de Franco. E poucos meses antes, a Alemanha tinha sido apoderada por um homem e um partido que viriam a determinar radicalmente o futuro do jovem casal Claus e Nina.

To be continued






domingo, 20 de julho de 2008

NINA SCHENK CONDESSA DE STAUFFENBERG: introdução



A 20 de Julho de 1944, um grupo de oficiais à volta de Claus Schenk Conde de Stauffenberg e de Henning von Treschkow levaria a cabo a “Operação Valquíria”, tentando pôr fim à vida de Hitler e derrubar o regime. O fracasso do atentado marcou o fim trágico da resistência contra o Führer . Às 0.15 h de 21 de Julho, von Stauffenberg e mais três dos conjurados foram executados por fuzilamento. À excepção de poucos oficiais envolvidos na operação, todos os outros militares, e muitos dos seus familiares, viriam a ser condenados à morte nos dias seguintes. 110 pessoas terão perdido a vida.

A Alemanha iniciou o confronto crítico com o capítulo mais negro da sua história na segunda metade da década de 60. O período entre 1933 e 1945 permaneceu um tabu quase absoluto durante os anos 50 em que o país concentrava todos os seus esforços na recuperação económica. O Wirtschaftswunder (milagre económico) servia de pretexto para abafar uma discussão aberta sobre a agressão alemã durante a Segunda Guerra Mundial e o extermínio de seis milhões de judeus, entre outros fenómenos horrendos do Terceiro Reich.

A geração de Maio de 68 quebrou esse tabu e exigiu explicações aos seus pais e avós. As vítimas da resistência tornaram-se, pouco a pouco, conhecidas da consciência pública, entre elas, evidentemente, von Stauffenberg. Contudo, a discussão estava longe de ser unânime: von Stauffenberg e seus ajudantes, heróis para uns, eram traidores para outros. A título de exemplo, refira-se que a opinião pública alemã estava profundamente dividida em 1969 quanto à “idoneidade” de Willy Brandt: teria um adversário do regime nazi, eventualmente “estigmatizado” como “traidor à pátria”, legitimidade suficiente para o cargo de um chanceler?

Hoje em dia, os movimentos de resistência são abordagem obrigatória nas aulas de história. A enorme oferta de literatura, de filmes ou documentários televisivos dos últimos 30 anos sensibilizou a Alemanha para a importância de prestar o tributo devido às vítimas e a reconhecer a coragem inimaginável com que estas personalidades seguiram os seus ideais e princípios.

Quase desconhecida continua, no entanto, a vida dos familiares desses heróis, tais como o percurso de Nina Schenk Condessa de Stauffenberg, esposa do oficial.
Konstanze von Schulthess, filha mais nova de Nina e Claus, publicou há poucos meses uma biografia sobre a sua mãe. Konstanze, nascida a 27 de Janeiro de 1945 em prisão, recorreu às longas conversas havidas com sua mãe, a documentos secretos e outras fontes do fórum familiar. De forma impressionante e comovente, narra os dias e os meses após o atentado, a angústia de uma mãe que, separada dos seus quatro filhos, é retida provisoriamente numa prisão e depois deportada para o campo de concentração de Ravensbrück.
Ficou, assim, um testemunho histórico notável para a posteridade.

Alguns excertos desse livro, intercalados com a biografia de Nina, serão tema de uma "mini-série", dedicada a esta senhora extraordinária e fascinante. Ao longo dos próximos domingos, a vida de Nina Schenk Condessa de Stauffenberg será partilhada com os caros leitores.