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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Crónicas de Clarice - 14

ANUNCIAÇÃO

Tenho em casa uma pintura do italiano Savelli-depois compreendi muito bem quando soube que ele fora convidado para fazer vitrais no Vaticano.

Por mais que olhe o quadro não me canso dele. Pelo contrário, ele me renova.

Nele, Maria está sentada perto de uma janela e vê-se pelo volume do seu ventre que está grávida. O arcanjo, de pé ao seu lado, olha-a. E ela, como se mal suportasse o que lhe fora anunciado como destino seu e destino para a humanidade futura através dela, Maria aperta a garganta com a mão, em surpresa e angústia.

O anjo, que veio pela janela, é quase humano: só suas longas asas é que lembram que ele pode se transladar sem ser pelos pés. As asas são muito humanas: carnudas, e seu rosto é o rosto de um homem.

É a mais bela e cruciante verdade do mundo.

Cada ser humano recebe a anunciação: e, grávido de alma, leva a mão à garganta em susto e angústia. Como se houvesse para cada um, em algum momento da vida, a anunciação de que há uma missão a cumprir.

A missão não é leve: cada homem é responsável pelo mundo inteiro.

(21 de Dezembro de 1968)

- Clarice Lispector, in A DESCOBERTA DO MUNDO,2ªed, Rio de Janeiro, Nova Fronteira,1984.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Crónicas de Clarice - 13

MINHA PRÓXIMA E EXCITANTE VIAGEM PELO MUNDO

Amanhã vou partir para a Europa. De onde mandarei meus textos para este Jornal. Minha sede será Londres. E de lá planejarei minhas viagens. Por exemplo, vou a Paris ver de novo a Mona Lisa pois estou com saudade. E comprar perfumes. E sobretudo reclamar com a Maison Carven por eles não fabricarem mais o meu perfume, e que mais combina comigo, Vert et Blanc. Irei ao teatro também. E à Rive Gauche.

Voltarei então para Londres onde permanecerei uma, duas semanas. E seguirei para a minha amada Itália. Roma antes. Depois Florença. É em Roma que, por intermédio de conhecidos mútuos, conhecerei Onassis e há possibilidades de combinar um cruzeiro pelo Mediterrâneo.

Irei à Grécia que só conheço de rápida passagem. Preciso realmente ver de novo a Acropóle. E preciso voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge me intrigou: quero defrontá-la de novo, face a face, em jogo aberto e limpo. Vou ver quem devora quem. Talvez nada aconteça. Porque o ser humano é uma esfinge também e a Esfinge não sabe decifrá-lo. Nem decifrar a si mesma. No que nós nos decifrássemos, teríamos a chave da vida.

Quero tomar banhos de mar em Biarritz-porque lá eu vi as ondas mais altas, o mar mais compacto e mais verde e turbulento. E majestoso. San Sebastian não quero rever. Mas quero voltar a Toledo e a Córdoba. Em Toledo reverei os El Greco.

Pegarei na Europa a primavera, o que já em si é motivo para uma viagem para lá. Irei a Israel, essa comunidade antiga e a mais nova: quero ver como é que se vive sob padrões diferentes.

E Portugal? Tenho que voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa procurarei minha amiga e grande poeta Natércia Freire. E dar-lhe-ei um texto meu, atendendo a seu pedido de colaboração para o Suplemento de Letras e Artes ( Diário de Notícias de Lisboa ) suplemente esse que ela dirige. Irei ao Chiado. E de novo pensarei em Eça de Queirós. Preciso relê-lo. Sei que vou gostar de novo-como se fora a primeira leitura- do suculento estilo de Eça. Voltarei a Londres, onde passarei em descanso e teatros e pubs duas semanas.

De lá darei um pulo na Libéria, em Monróvia. Estive na Libéria, mas não cheguei a ir à capital. Se alguém pensa que fui vencedora na Loteria Esportiva, está enganado. O melhor da história é que viajarei sem gastar um centavo. Só gastarei o que despender nas compras. Depois ensinarei como é que se consegue tal formidável barganha: não é impossível, tanto que eu consegui e sem maiores esforços. Não, não foi por charme que eu tenha feito: quando faço charme é sem sentir e sem querer, simplesmente acontece. O charme, quero dizer.

Estará na hora de não poder mais morrer de saudades do Brasil. Voltarei via Nova Iorque, onde ficarei duas semanas, me perdendo na multidão. A multidão de Nova Iorque é o meio mais fácil da pessoa ficar solitária. Se eu ficar sozinha demais procurarei o nosso Consulado. Para rever brasileiros e poder usar de novo a nossa difícil língua. Difícil mas fascinante. Sobretudo para se escrever. Asseguro-vos que não é fácil escrever em português: é uma língua pouco trabalhada pelo pensamento e o resultado é pouca maleabilidade para exprimir os delicados estados do ser humano.

E- enfim- voltarei ao Rio. Antes darei um pulo a Belém do Pará, para rever os meus amigos Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes ( qual é o endereço deles? Por favor me escrevam) e tantos outros importantes para mim. Eles, vai ver, já me esqueceram. Eu não esqueci deles. Em Belém já passei seis meses, muito felizes. Sou grata a esta cidade.Uma vez no Rio, e depois de abraçar todos os amigos, irei para Cabo Frio por uma semana, na casa de Pedro e Míriam Bloch. Voltarei depois ao Rio e recomeçarei, toda renovada, a minha luta diária e inglória e enigmática.

Sim. Tudo isto. Mas só se fosse de verdade... O fato é que hoje é 1º de Abril e desde criança não engano ninguém nesse dia. Infelizmente não vejo meio de fazer essa viagem sem dinheiro. O Onassis entrou no 1º de Abril de puro penetra que ele é. Na verdade não tenho muito interesse em conhecê-lo. Desculpem a brincadeira. Mas é que não resisti.

( 1 de Abril de 1972 )

Clarice Lispector, in A DESCOBERTA DO MUNDO, 2ªed, N0va Fronteira, 1984.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Crónicas de Clarice - 12

- Um presépio de Mestre Expedito ( Expedito António dos Santos, 1932- , Rio Grande do Sul, Brasil ).

HOJE NASCE UM MENINO

(publicada no Jornal do Brasil no dia 24 de Dezembro de 1971 )

Na manjedoura estava calmo e bom.
Era de tardinha e ainda não se via a estrela-guia. Por enquanto a alegria serena de um nascimento- que sempre renova o mundo e fá-lo começar pela primeira vez- por enquanto a alegria suave pertencia apenas a uma pequena família judia. Alguns outros sentiam que algo acontecia na terra mas ver ninguém via ou ao certo sabia.
Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro, refulgia o menino, tenro como o nosso filho.
Bem de perto a cara de um boi e outra de jumento olhavam. E esquentavam o ar com o hálito do corpo.
Era depois do parto, e tudo úmido repousava, tudo úmido e morno respirava.
Maria descansava o corpo cansado- sua tarefa no mundo e diante dos povos e de Deus seria a de cumprir o seu destino, e ela agora repousava e olhava a criança doce.
José, de longas barbas ali sentado, meditava, apoiado no seu cajado: seu destino, que era o de entender, se realizara.
O destino da criança era o de nascer.
Ouvia-se, como se fosse no meio da noite calada, aquela música de ar que cada um de nós já ouviu e que é feito o silêncio. Era extremamente doce e sem melodia mas feita de sons que poderiam se organizar em melodia. Flutuante, ininterrupta. Os sons como 15 mil estrelas. A pequena família captava a mais primária vibração do ar- como se o silêncio falasse.
O silêncio do Deus grande falava. Era de um agudo suave, constante, sem arestas, todo atravessado por sons horizontais e oblíquos. Milhares de ressonâncias tinham a mesma altura e a mesma intensidade, a mesma ausência de pressa, noite feliz, noite sagrada.
E o destino dos bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A doçura dos brutos compreendia a inocência dos meninos. E antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.
Este menino, que renasce em cada criança nascida, iria querer que fôssemos fraternos diante da nossa condição e diante do Deus. O menino iria se tornar homem e falaria.
Hoje em muitas casas do mundo nasce um Menino.

- Clarice Lispector, A DESCOBERTA DO MUNDO, 2ª edição, Nova Fronteira, 1984.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Crónicas de Clarice - 11

DECLARAÇÃO DE AMOR ( 11 de Maio de 1968 )

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gostava de manejá-la - como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

- Clarice Lispector, A DESCOBERTA DO MUNDO, Nova Fronteira, 1984.