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domingo, 13 de julho de 2008

Elegias em Mitilene - 2

À NAU

Belo navio que aqui me conduziste, bordejando a
Jónia, às ondas brilhantes eu te abandono e de pé ligeiro
para a praia salto.

Tu vais voltar a esse país onde a virgem é a amiga
das ninfas. Que não te esqueça agradeceres as invisíveis
conselheiras, e como oferenda leva-lhes estes ramos que
minhas mãos colheram.

Pinheiro foste, e sobre as montanhas o vasto Notos
inflamado teus ramos espinhosos agitava, teus esquilos
e pássaros sacudia.

Guie-te agora o Bóreas, brandamente te impelindo
para o porto, negra nave que delfins ao sabor do mar
benevolente escoltam.

- Pierre Louys, AS CANÇÕES DE BILITIS , trad.port. Júlio Henriques, Fora do Texto, 1990

terça-feira, 8 de julho de 2008

Elegias em Mitilene - 1

O PASSADO RETIDO


O leito deixarei como o deixou, desfeito e alterado,
revoltos os lençóis, para que a forma do seu corpo fique
ainda gravada junto ao meu.

Até amanhã não irei banhar-me, não me hei-de
vestir nem no cabelo hei-de tocar com medo que se
sumam as carícias.

Hoje de manhã não comerei, nem esta noite, e
sobre meus lábios não porei carmim nem pó, para que
seu beijo em mim possa perdurar.

Deixarei fechados os postigos e não abrirei a porta
a ninguém, com medo que a lembrança que ficou se não
desvaneça com a brisa.


- Pierre Louys, AS CANÇÕES DE BILITIS , trad.port. Júlio Henriques, Fora do Texto, 1990,76