Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta Raúl Rêgo (1913-2002). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raúl Rêgo (1913-2002). Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de março de 2017

Leituras no Metro - 273

Se não fosse um amigo meu não teria dado pela saída deste livro. É de agradecer a Pedro Foyos, um dos jornalistas do República e do Jornal do Caso República, ter-se metido nesta empreitada de contar a ocupação do diário da tarde e as peripécias para a execução do Jornal do Caso República. Tudo bem contextualizado no Verão Quente de 75 e com algumas pequenas histórias, umas comoventes e outras grotescas. 
Quem viveu este tempo gostará de ler este livro e quem não o viveu ficará informado de como foi difícil lutar pela liberdade de expressão e pela própria liberdade.

19 de maio de 1975
9h15: «Um grupo integrando tipógrafos e um elemento adstrito à direção comercial entra na redação com o propósito de “comunicar uma coisa” a Raul Rego. No gabinete deste é-lhe apresentado um ultimato no sentido de o forçar à demissão, juntamente com o adjunto Vítor Direito e o chefe [de redação] João Gomes. Perante a enérgica recusa da direção em admitir tal exigência, o grupo pergunta se a direção e a redação estariam dispostos a elaborar o jornal desse dia, mantendo-se contudo, a exigência da demissão. Raul Rego comunica a intenção de dar conhecimento dos factos aos redatores. Os interpelantes retiram-se.» É João Gomes quem no minuto seguinte põe a redação ao corrente da situação. Os jornalistas resolvem expressar por meio de voto a sua posição face às ocorrências e por 22 votos contra dois expressam «total confiança e solidariedade» com a direção. (p. 119)
11h00: «Os jornalistas dão-se conta, entretanto, de que lhes é interdito igualmente o acesso ás instalações sanitárias […]. Para as necessidades mais prementes utilizam-se troféus em forma de taça, alguns dos quais procedentes dos históricos Centros Republicanos, que adornam o topo de uma comprida estante do gabinete do diretor.» (p. 121)

«O diretor do único jornal diário que desafiou o fascismo durante décadas e salvou a dignidade da imprensa portuguesa, esse, teve de mijar na taça ganha num campeonato de 1949, nem à latrina o deixaram ir.»
Álvaro Guerra – Café 25 de Abril (transcrito na p. 121) 

Coleção de todos os números do Jornal do Caso República, alguns dos quais chegaram a tirar 200 000 exemplares. Para o fazerem, os jornalistas arriscaram a vida e tiveram de mudar de tipografia várias vezes.

15 de julho de 1975
«Neste dia são divulgadas declarações de Otelo Saraiva de Carvalho que perduram nas antologias históricas do Verão Quente de 1975: "Eu, às vezes, chego a pensar que a nossa inexperiência revolucionária, enfim, teria sido melhor se, em 25 de Abril de 1974 encostássemos à parede ou mandássemos para o Campo Pequeno [praça de touros] umas centenas ou uns milhares de contrarrevolucionários, eliminando-os à nascença."» (p. 153)

Chegou a circular uma lista com alguns nomes desses «contrarrevolucionários» onde se encontravam jornalistas do República.
Otelo devia ter-se inspirado no que Franco fez a republicanos espanhóis quando os mandou matar na praça de touros de Badajoz, incendiando-os com petróleo ou gasolina. Portugueses da raia diziam que o cheiro a carne queimada era medonho. Ou então, em Pinochet que, em 1973, prendeu os seus opositores num campo de futebol, onde muitos foram mortos. Tudo 'boas práticas', como agora se diz.

20 de julho de 1975:
«Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou.»
Miguel Torga - Diário XII
(cit. p. 162)

A leitura continua...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

1 de Fevereiro

Numa Europa em que eu quase me não reconheço vejo - constantemente - esquecerem-se valores e certezas que se tinham ganho e reconquistado, dia a dia, após a difusão do «iluminismo». Quase todos pactuam face ao valor efémero do dinheiro. Trocam os valores que se conquistaram por migalhas...
- Sim, recordo as cenas tristes que envolveram a visita ao Espaço Europeu de figuras que ainda não foram «iluminadas» pela Razão. Tapar estátuas, mudar quadros, que são património da Humanidade, para agradar a uma personagem - que daqui a 500 ou 2000 anos ninguém saberá quem foi.
- Sim, recordo as cenas de «confisco» dos poucos valores que alguns refugiados levam consigo para poderem ter direito a um direito que deveria ser Universal - o direito da dignidade - que são duas mil calorias diárias, um local para dormir e um livro para ler - como alguém já escreveu.
- Sim, recordo a lei que tentam aprovar pela Europa em que o «sangue» é mais importante do que a dignidade, tendo os crimes valores diferentes conforme o sangue que lhes corre nas veias e não atendendo antes à qualidade do crime - cuja pena deve ser igual para todos. 
- Sim, recordo o Presidente da República Portuguesa que acha que um beijo dado a uma criança, ao adormecer, no momento em que se lhes aconchegam os lençóis, tem sexo ( ou é diferente de sexo para sexo ) quando a criança quer é sentir o carinho e a dedicação de uma pessoa que se preocupa com a vida. 
- Sim, recordo um Homem que fez da condenação disto tudo a Razão da sua vida. Recordo Raúl Rêgo (faleceu a 1 de Fevereiro de 2002).


Batista Bastos deixou-nos um testemunho que é uma lição de vida: um homem entra no Parlamento, sentado numa cadeira de rodas e puxado pela imposição da coragem e pela firmeza das certezas. O homem chama-se Raul Rego, e ali está para atribuir o seu voto à proposta de despenalização do aborto. E há qualquer coisa de grandioso nesta situação tão invulgar como dramaticamente comovente. Um homem visivelmente diminuído, porém indestrutível nas suas mais sólidas e profundas convicções. Um homem que recusa a perda do sentido das coisas e que combate, até ao fim, a transitória vitória das múltiplas infalibilidades.
Foto de Rui Ochôa.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Raúl Rêgo (15 de Abril de 1913 - 1 de Fevereiro de 2002)


 
O BIBLIÓFILO….

Raúl Rêgo assinou, nos diferentes jornais em que colaborou, crónicas ensaísticas realizadas com o conhecimento profundo e sábio de um homem culto, que lia, estudava e amava os livros que lhe chegavam às mãos: os “Meus Livros” – nome retirado de uma das sessões semanais de um jornal. Para além delas, apresentou, prefaciou, divulgou ou estudou tantos outros livros, não esquecendo os Catálogos de livraria ou de leilões que também eram enriquecidos com palavras de abertura, em que contava algumas histórias sobre as histórias dos livros ou de seus antigos proprietários. É certo que Raúl Rêgo colecionava livros. Era um dos grandes bibliófilos portugueses. Mas colecionar livros é diferente de ser bibliófilo; ser bibliófilo também é diferente de ser um estudioso e um expert no assunto: um livro cerrado não traz cultura! O bibliófilo não gosta apenas do livro pelo conhecimento (ou divertimento) que o mesmo lhe pode proporcionar... gosta do livro pelo cheiro, pelo formato, pela época em que foi feito, pelo autor que o escreveu, pela tipografia que o imprimiu e, também, pelo seu conteúdo. Enfim, gosta do livro pelo livro. Raúl Rêgo era esse expert, esse bibliófilo, que se passeava de livraria em livraria na busca de saciar o seu prazer infinito. Depois de ter caçada a presa, anotava-a, estudava-a e, na maioria das vezes, escrevia sobre ela. Divulgava e, com isso, fazia chegar a todos nós, seus leitores, o seu amor e a sua cultura. Estudava o passado e criticava os costumes do presente. Quando escrevia, numa crónica publicada no Diário Popular, em 30 de agosto de 1979, sobre os Censores de ontem não dissertava apenas sobre o século XVI... olhava também o presente: Difícil é de destrinçar, através de toda esta viagem pelos índices censórios impressos portugueses, o que se proíbe e o que se autoriza. A regra geral poderíamos dizer que é proibir tudo quanto seja contra a fé, os bons costumes, o consenso geral admitido pelos fiéis, ou simplesmente aquilo que não convenha que chegue ao conhecimento das almas simples, que é como quem diz ao Zé Povinho; autoriza-se quanto não produza qualquer choque ou dúvida moral ou espiritual nos fiéis. [...] No mínimo que escrevia colocava o máximo que podia, para desbaste da pedra bruta: numa luta contra a ignorância, o preconceito e o fanatismo.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Um fim de dia proveitoso

António Arnaut, Reis Torgal e Natália Santos, Casa Cultura, Coimbra

«Há homens que fazem parte dos destinos da nação. Raúl Rêgo foi um desses homens». (A.A)
Hoje assisti a uma aula de História dada pelo Doutor António Arnaut ao apresentar um livro sobre Raúl Rêgo de Natália Neves dos Santos.
A atmosfera da sala depressa aqueceu, os olhos tornaram-se vivos tal era a energia e vivacidade do excelente orador que apresentava um amigo, um homem de luta pela liberdade e pela democracia.
Guardei palavras e sentimentos que não conseguirei descrever: valores de bem, de ética e cidadania  que respiraram do palestrante.
Olhando para a capa do livro - António Arnaut - disse: este retrato é magnífico é a alma do Raúl, é ele mesmo, é fantástico com a sua boina basca como quase sempre se apresentava. 
As mãos falavam, a comunicação era perfeita. Traçou o percurso de Raúl Rêgo desde a terra em que nasceu à ida para o seminário e à irreverência que sempre teve na defesa das suas ideias. Deixou de lado uma carreira eclesiástica (que não abraçou) tornou-se jornalista e um homem político, defensor da liberdade. Em traços gerais, António Arnaut desenhou o perfil que está espelhado no livro. Mas foi mais além, focou o que viveu, o que partilhou, as conversas trocadas, os momentos de ditadura, a perseguição da PIDE.
[O homem não é apenas animal político, mas é também um animal cultural e religioso].

Escrevo no «Jornal do Comércio» a abertura do «Dia a Dia», sobre Bispos Africanos. Pois a ominosa Censura corta-me, nesse pequeno eco, as palavras do Papa Paulo VI, no Uganda, sobre o racismo. Aliás, eu transcrevera-as, tal qual, dum jornal da tarde.
Se o Papa fosse jornalista em Portugal muito teria que aprender. Ele que não venha para cá a lembrar Evangelhos ou fraternidade humana que nós temos melhor, muito melhor, e as instruções censórias não poupam nem sequer o Papa.

Raúl Rêgo, Diário Político, p.61 citado por Natália Neves dos Santos, Raúl Rêgo, o Jornalista e o Político. (Prefácio de Luís Torgal). Macedo de Cavaleiros: Editora Poética, 2014, p. 113.

Observando a realidade actual, entrelaçando os acontecimentos e estados de espírito possíveis, como a questão da tolerância, o orador referiu que Raúl Rêgo teria gostado de conhecer as exortações do Papa Francisco.