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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Leituras no Metro - 227

Lisboa: Objectiva, 2012

Fragmentos: poemas, cartas e notas íntimas reúne textos, escritos entre 1943 e 1962, que estavam na posse da viúva de Lee Strasberg. 
Tabucchi escreve no prefácio que «dentro deste corpo […] vivia a alma de uma intelectual e de uma poetisa de que ninguém suspeitava.»

«Vejo-me agora ao espelho, a minha sobrancelha franzida –se me aproximar muito vou ver aquilo que não quero ver – a tensão, a tristeza, a deceção, os meus olhos sem brilho, as faces avermelhadas por pequenos vasos que parecem rios num mapa – os cabelos que caem como serpentes. É a boca que mais me entristece, a seguir aos meus olhos quase mortos. Existe uma linha escura entre os lábios como os contornos de numerosas ondas levantadas por uma violenta tempestade – que diz não me beijem não me ridicularizem, eu sou uma bailarina que não sabe dançar.» (p. 153)
Estes textos acrescentam algo à controversa personalidade de Marilyn Monroe.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Antonio Tabucchi, le fil de l'écriture

O espólio de Antonio Tabucchi, que deu entrada na BnF há pouco, constitui o fio condutor da exposição que abre amanhã nessa biblioteca francesa e que pode ser vista até 9 de novembro próximo. Tendo vivido entre Itália e Portugal, a sua escrita é um diálogo permanente com a literatura (cuja figura maior é Pessoa), a arte e o cinema. Também o seu empenhamento político é referido.



Boa noite!

domingo, 21 de julho de 2013

2013 - Os voláteis do Beato Angélico

Os voláteis do Beato Angélico é o título de um ensaio, escrito por Antonio Tabucchi, que foi escolhido, também, como título a um pequeno volume de ensaios, publicado em Lisboa, em 1989 (a versão italiana é de 1987). É, portanto, já um ensaio antigo, mas no qual eu encontrei o tema para falar destes dias que correram desde o dia 2 até ao dia 21 de Julho, no que a Portugal diz respeito.
"Frei Giovanni de Fiesole continuava interiormente a chamar a si próprio Guidolino, o nome que, pelo claustro, deixara no mundo; encontrava-se na horta a apanhar as cebolas."
 Nessa horta caíram três voláteis: um, num dia, e os outros dois, no dia seguinte. Ficaram enredados quer na pereira, quer no rosmaninho, quer nas alfaces. Salvos do enredo colocou-os sob a sua proteção. Por dias Giovanni deixou o seu trabalho de hortelão... sonhou e teve sonhos que lhe pareciam realidades do passado, do tempo que antecedera a sua entrada no claustro. Do tempo em que se chamava Guidolino. Olhou para a obra que queria deixar como marca da sua passagem pelo mosteiro, as pinturas a fresco nas diferentes celas e que ainda não tinha tido tempo para acabar, para lhe dar a marca da sua originalidade. Transformou mensagens que lhe chegaram em sonho, ou sonhos, assim como as recordações do passado e pintou os três voláteis como personagens da sua história. Tendo a certeza que o padecimento de Cristo, na crucificação, era vontade de Deus, usou esses três voláteis como seres divinos "que, quais instrumentos do destino celeste, se prestassem a reforçar os pregos nas mãos e nos pés de Cristo". Os frades que o viam a pintar apenas diziam em coro: «oh»!
Passou o tempo, pintando e esquecendo-se até de comer. Um, após outros, todos os três voláteis foram sendo pintados. O último, genuflexo, com as mãos sobre o peito numa atitude de reverência... entrava numa Anunciação... «a Virgem, desenho-a amanhã, só terás de resistir esta tarde e depois já podereis partir».
Frei Giovanni sentia-se cansado. "Sentia também a saudade que dão as coisas que terminam e depois já não há mais nada a fazer". Foi até à gaiola e os voláteis tinham desparecido... ficara apenas o seu cheiro. "Frei Giovanni julgou sentir um perfume intenso de basílico, mas na horta não havia basílico, havia era as cebolas, que tinham ficado por apanhar uma semana inteira e se calhar já se estavam a passar e dali a pouco já não estariam boas para fazer a sopa. Por isso foi apanhá-las antes que apodrecessem".
 
 
Ave fotografada por Alison Bartlett. 
Uma fotógrafa, da vida selvagem, cega.
 
Será que Cavaco ainda consegue apanhar as cebolas? Julgo que esqueceu o seu lugar, no "claustro"... e pensou no passado e nos seus outros tempos. Sonhou que tinha na mão instrumentos do destino celeste. Neste tempo que passou apenas acrescentou personagem a frescos incompletos e que incompletos ficaram. Amanhã dará mais um retoque na Anunciação. Julgo que vai tudo ficar na mesma. As cebolas é que estão quase podres e podem já não servir para fazer sopa. Quem será o volátil que ficará pintado em genuflexão?
 
 
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Livro de Tabucchi inédito em Portugal


«Sou um viajante que nunca fez viagens para escrever sobre elas, o que sempre me pareceu estúpido. Seria como se alguém quisesse apaixonar-se para escrever um livro sobre amor.»
Antonio Tabucchi

É hoje posto à venda.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Que horas eram?

Fotografia do roteiro Veneza Tesouro e Arte


Que horas eram? Pessoa não sabia. 
Seria noite? O dia já se tinha levantado? A enfermeira veio e deu-lhe uma injecção. Pessoa já não sentia dor do lado direito. Estava agora numa paz estranha, como se um nevoeiro tivesse descido sobre ele.
Os outros, pensou, agora viriam os outros. É claro que queria despedir-se de todos antes de partir. Mas havia um encontro que o angustiava, era o encontro com o Mestre Caeiro. Porque Caeiro vinha do Ribatejo e tinha uma saúde tão frágil, Como viria ele a Lisboa, talvez de caleche? É verdade que Caeiro já tinha morrido, mas estava ainda vivo, viveria eternamente naquela casinha branca de cal do Ribatejo de onde olhava com um olhar implacável a passagem das estações, a chuva invernal e a canícula do verão.

Antonio Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa, Lisboa: Quetzal, 1995, p.29.

Obrigada Cláudia!