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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

No meu sofá a ler... - 14

Lisboa: Imprensa Nacional, 2025.

Um excelente «brevíssimo resumo de uma vida cheia e, desde a adolescência, dedicada à causa pública Uma vida de ação, de luta política, como tantas vezes a caracterizou, e também de pensamento e cultura. São os três lados de um triângulo.» (p. 9)
«Quem é, portanto n-ao quem foi, mas quem é para nós, hoje -, Mário Soares?
«É o construtor e portador de escolhas estratégicas claríssimas, de que nunca duvidou e que nunca abandonou: a liberdade, a democracia pluralista, o socialismo democrático, o europeísmo. Soares é o estrénuo defensor do primado da política: do primado da política sobre a economia, sobre os poderes separados, sobre a ideologia e sobre o falso moralismo da virtude. Soares é o que vive a política com paixão, porque nunca deixou de viver a vida por causa da política: é o anti asceta, o paladino da política como obrigação mas também jogo, divertimento e prazer. Soares é um dos maiores patriotas que Portugal conheceu, exatamente porque foi implacável com toda a sorte de pequenez que diminuía o seu país e procurou sempre engrandecê-lo, não o prendendo numa história mitificada, mas abrindo-o ao futuro, modernizando-o, dirigindo-o para novos desafios e descobertas; porque afirmou sem hesitações o patriotismo, que é mar o seu país, como o exato contrário do nacionalismo, que é hostilizar o dos outros, porque, justamente, a condição de portiguês, por ser português, é ser cidadão da Europa e do mundo [...].
«E, por último, mas não menos importante: soares - o Soares que defendeu os presos políticos da ditadura e o Soares que ensinou em Vincennes, o Soares que discursou na Fonte Luminosa e o Soares que escolheu "os poemas da sua vida", o Soares que negociou com Bruxelas e o Soares que se fez retratar por Júlio Pomar - é um dos políticos portugueses que mais longe levaram a fecundação recíproca entre política e cultura. Não só com a sua curiosidade infantigável e juvenil alegria de viver, mas também na determinação com que porfiou em abrir os horizontes da liberdade aos seus compatriotas, ele teria, sem dúvida merecido a perspicaz observação de Fernando Pessoa [...]: "O interesse pela cultura geral [...] é que de facto distingue os políticos que deveras o são".» (p. 88-89)

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Leituras no Metro - 2976

Lisboa: Tinta da China, 2025.

«A revolução é [...] algo mais que o derrube pela força de um governo e a alteração abrupta do quadro institucional: é aquilo que, queiramos ou não, e onde quer que estejamos, vem ter connosco, instaura o novo e o desconhecido, obriga-nos a pensar, a sentir, a falar. E fazendo-o, a questioná-la.
«Nós conhecemos o curso dos acontecimentos posteriores ao 25 de Abril e sabemos caracterizá-lo como uma situação revolucionária em que várias fontes e legitimidades de poder conflituam entre si - e um processo revolucionário - em que o tempo acelera e o desfecho é incerto. [...]
«Numa perpetiva mais política, pode dizer-se que o processo revolucionário termina a 25 de novembro de 1975, com o triunfo da aliança constituída pelos militares moderados (ligados ao chamado Grupo dos Nove) e pelos partidos democráticos (liderados por Mário Soares e o Partido Socialista), com a arbitragem e o envolvimento parcial do então Presidente da República e chefe militar máximo, Francisco da Costa Gomes [...]. » (p. 15-16)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Leituras no Metro - 219

Lisboa: Matéria Prima, 2015

Augusto Santos Silva foi 'despedido' por email e o programa acabou no final de julho. Mas antes disso, a edição do livro já estava na calha. Vi o programa poucas vezes, e acho que Augusto Santos Silva, apesar do seu tom, por vezes, caceteiro, pensa bem. 
Não estava no meu horizonte ler este livro, mas alguém que me é próximo quis lê-lo. Ainda bem porque valeu a pena. 
A revisão do livro (se é que a teve) é péssima.

«Ninguém está aqui a denegrir os portugueses; de resto, durante o Estado Novo a doutrina oficial era precisamente a contrária. Talvez que a tendência que refere surja hoje em dia como reação a essa doutrina.
Por acaso, penso exatamente o oposto: que a tendência para apontar as realizações dos portugueses vem em linha mais ou menos direta da imagem salazarista de um povo que precisava de chefes transcendentes, porque sem eles era pobre criança sem propósito nem rumo.

Essa mania é geral, habita a sociedade, ou é de alguns articulistas em particular?
Caracteriza mais tipicamente uma parte da opinião publicada, que aliás faz desse chicotear constante dos portugueses a sua razão de ser e as bases da sua notoriedade. A atitude vem, aliás, de mais longe, porque se inscreve numa tendência há muito influente na inteligência nacional, de que a Geração de 1870 foi uma realização maior. É a tendência para fazer sustentar o poder cultural na crítica impiedosa e no apoucamento sarcástico das instituições sociais e políticas. Mas nem toda a gente tem, hoje, a graça de um Eça de Queirós ou de um ramalho Ortigão. E à medida que se perde a verve, aumenta o cabotinismo...» (p. 19)