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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

De Hélder Moura Pereira - 2

Quieto deixarei no tempo da tua ausência
tudo no mesmo sítio, um écran passa
aos meus olhos numa velocidade calculada,
na minha estreita rua continua havendo papéis
e folhas distraindo atenções por outras
letras, pequenas palavras desbotando
do seu azul para larga mancha, verso destruído.
Traços de pó nos vidros e eu a mirá-los, nada
faz com que saia desta cadeira e queira ver
o outro sol que se esconde por trás das imagens.
A meio da alegria recusei o fácil caminho
da aceitação, ia dar a cisternas sem espelhos,
não sei como faria depois, olhar para dentro
da terra e não ver a cara do homem. Os ciclos
da vida organizam o tempo, cansado era
de objectos e cores, repito a colocação
das mãos, reaprendo mais vontades para lá
do corpo. Quieto, sem horas para nada,
aguardo o teu regresso.

- Hélder Moura Pereira, DE NOVO AS SOMBRAS E AS CALMAS- Poesia 1976/1990, Contexto, 1990.

sábado, 22 de novembro de 2008

De Hélder Moura Pereira - 1

Como dizer que este amor não morre ? Mil
vezes olhei essa porta, por ti desejei
chegar a terra, perder um grito onde ninguém
ouvisse. E quando íamos falando de tudo
só isso proibia calar o amor. Algumas vezes
não sabes as coisas que mais guardo.

- Hélder Moura Pereira, De novo as sombras e as calmas- Poesia 1976/1990, Contexto Editora, 1990, p.45