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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Uma fruta paradisíaca acompanhada de Eugénio de Andrade.

Ofereceram-me dióspiros que, para além de parecer um fruto paradísiaco, é uma das minhas frutas outonais de eleição. Lembrei-me de Eugénio de Andrade e é desta forma que ofereço virtualmente um dióspiro...


No fim do verão

No fim do verão as crianças voltam,
correm no molhe, correm no vento.
Tive medo que não voltassem.
Porque as crianças às vezes não
regressam. Não se sabe porquê
mas também elas
morrem.
Elas, frutos solares:
laranjas romãs
dióspiros. Sumarentas
no outono. A que vive dentro de mim
também voltou; continua a correr
nos meus dias. Sinto os seus olhos
rirem; seus olhos
pequenos brilhar como pregos
cromados. Sinto os seus dedos
cantar como a chuva.
A criança voltou. Corre no vento.

Eugénio de Andrade, Sal da Língua Porto, Fundação Eugénio de Andrade, 1995

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Frutas de Outono e...

...dois poemas de Daniel Maia-Pinto Rodrigues


DIÓSPIRO

depois do almoço,
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna, entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho

é nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça



Outubro
mês dos figos maduros
da perfeita tranquilidade
mês
em que das eiras
perdigueiros correm para os currais
e dos currais se ouvem burros e éguas
outubro
mês dos patos nos ribeiros
mês das serras, das perdizes
dos ferreiros, das cegonhas
das paisagens, das feiras com queijo
do sr. sebastião e dos alpendres
outubro
mês dos meus avós vivos
levando-me a ver os moinhos de água

In: O valete do sétimo naipe. Porto: Felício & Cabral, D.L. 1994, p. 76, 64

Fotos:
http://dias-com-arvores.blogspot.com/2004/11/os-nomes-das-rvores-dispiro.html
http://panelada.files.wordpress.com/2008/04/figos.jpg