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terça-feira, 22 de outubro de 2013

Leituras no Metro - 140

Lisboa: Cavalo de Ferro, 2011
€7,50

Há dias, numa livraria, deparei-me com este livro de Echenoz, escritor que aprecio mas conheço mal (acho que este é o terceiro livro que leio dele), sobre uma lenda do atletismo: Emil Zatopek.
Depois da Guerra, Zatopek vai trabalhar para a fábrica de sapatos Bata e é enquanto operário da fábrica que corre pela primeira vez num festival e chama a atenção sobre si.
Em 1946, nos campeonatos organizados pelas Forças Aliadas em Berlim, atrás do cartaz Checoslováquia, vem apenas um único atleta, magro e diminutamente vestido. Mas quando começa a corrida dos 5000 metros, Emil Zatopek em poucos minutos leva duas corridas de avanço em relação aos outros corredores. Os 80000 espectadores presentes no estádio estão siderados, todos de pé. Zatopek corria de um modo irregular e desconjuntado.
Em 1952, nos Jogos Olímpicos, em Helsínquia, contra todos os conselhos inscreve-se em três modalidades (incluindo a maratona que nunca tinha corrido) e ganha a medalha de ouro nos 5000 metros, nos 1000 metros e na maratona, tornando-se o primeiro e único atleta a consegui-lo.
Emil Zatopek era um homem extremamente curioso em relação ao mundo e ao que o rodeava, de modo que o governo checo começa a ter receio que ele, numa das suas idas ao estrangeiro, peça asilo político.
Num livro comovente, Jean Echenoz percorre 40 anos de história da Checoslováquia, descrevendo os sucessos de Zatopek e o modo como o poder comunista instrumentalizou e acabou com a sua carreira.

Casa com Dana Ingrová, atleta, que será medalha de ouro do lançamento do dardo, nos Jogos olímpicos de 1952.

Eu não sabia nada de Zatopek, para além do que toda a gente sabe, que é uma lenda do atletismo, a quem chamavam A Locomotiva Humana.

sábado, 7 de março de 2009

Ravel, por Jean Echenoz

Ravel, um livro maravilhoso que terminei há alguns dias e de que transcrevo uns excertos, narra os últimos dez anos da vida do compositor que faria hoje 134 anos.


«As férias acabaram. Agora está sentado ao piano, em sua casa. Com uma partitura à sua frente, cigarro nos lábios e, como sempre, impecavelmente penteado. Por baixo do roupão de bandas claras e bolso a condizer, traz uma camisa de riscas cinzentas e uma gravata em tons de bronze. Em posição de acorde, a mão esquerda está sobre as teclas do piano enquanto a direita, exibindo uma lapiseira de metal presa entre o indicador e o dedo grande, anota na partitura o que a esquerda acaba de criar. […]
«E a seguir, como acontece sempre que está só, faz a sua refeição virado para a parede, na mesa recuada. Ao devorar a carne, a dentadura faz um ruído de castanholas ou de metralhadora que se repercute na sala apertada. Come e vai reflectindo no que fez. Sempre gostou de autómatos e de máquinas, de visitar fábricas, de paisagens industriais, lembra-se do que viu na Bélgica e na Renânia quando passou por lá num iate de rio há mais de vinte anos, de cidades eriçadas de chaminés que expeliam chamas e fumos vermelhos e azulados, de castelos de fundições, de catedrais incandescentes, de sinfonias de correias, de silvos e sons de martelos, sob um céu escarlate.
«[…] É verdade que existia, por essa altura, uma fábrica que Ravel apreciava especialmente e que ficava junto à ponte de Rueil, a caminho de Vésinet, a fábrica dava-lhe ideias. É isso: está em vias de compor qualquer coisa que se inspira no trabalho em cadeia.
«Em cadeia e repetidamente, a composição é acabada em Outubro […]. Tem plena consciência do que fez, mas não existe estrutura a bem dizer, nem desenvolvimento, nem modelação, só ritmo e arranjos de orquestra. […]
«Mas apesar de ele sentir por essa obra um certo desprezo, não quer dizer que se deva encará-la de ânimo leve. E é preciso que o mundo compreenda também que não se pode divertir à custa do seu andamento. Quando Toscanini vai dirigi-la à sua maneira, duas vezes mais rápido e accelerando, Ravel vai ter com ele, bastante frio, depois do concerto. Não foi com o meu andamento que o senhor tocou o Boléro, fez-lhe ele notar. Toscanini inclina-se para Ravel, tornando ainda mais comprido o rosto e enrugando ainda mais o frontão que lhe faz a vez de testa. Quando toco com o seu andamento, diz, não consigo retirar-lhe o mínimo efeito. Pois bem, replica Ravel, deixe de tocá-lo. O senhor não conhece nada da sua música, há um frémito nos bigodes de Toscanini, foi a melhor forma de o tornar aceitável. Ao voltar a casa, sem dizer nada a ninguém, Ravel escreve a Toscanini. Não se sabe o que ele lhe disse nessa carta.»
Jean Echenoz – Ravel / trad. do francês por Armando Silva Carvalho. Lisboa: Sextante, 2007, p. 62-65
€13,00