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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Poemas - 100





RIP Armando Silva Carvalho

Cinzas de Sísifo


Eu vi o sobressalto.
Nesse bosque de lâminas e luvas
tocaste cada coisa como
um grito.

E amaste a minha boca
como quem corta
os pulsos ao silêncio.

Se o vento te derrama
entre folhas e cinza
é sempre a mesma voz que não perdoa

a mesma lei

o mesmo labirinto.

Armando Silva Carvalho


domingo, 22 de dezembro de 2013

Citações



01.06.06

Nas despedidas há sempre um impulso de rejeição. É a denegação da dor do abandono.
É assim nas gares, nos aeroportos, nos cemitérios. Há mesmo quem nunca vá a despedidas e funerais.
Conviemos em acabar dentro de mais um mês.
As Novas Cartas Portuguesas foram nove meses. Uma gestação juvenil, a termo.
Será isto um prematuro frustre?
Mas o tempo é de estufas, gravidezes assistidas, remoção de maternidades.
Pressa e demora do que nasce em Portugal. Do  que ainda nos nasce.
En su sitio, como se diz das bandarilhas bem cravadas. Ferros para fora.
Detesto despedidas.
Cold feet, que é como os ingleses designam a parestesia do medo que vem subindo.
E ainda ( me ) falta todo o material escolar. Da literacia e da discalculia.
E dos dislates e alguns acertos no Palácio das Madres.
E do Crato, a luminescente ausência da avó materna, que tentei recuperar no Amante do Crato.

Uma certa tenebrosidade nos céus do British Quintal. Uma luz cinzenta, abafada, sem água. Torna-se penoso ter de regar tantas vezes, carregar a mangueira em braços através da casa para chegar aos canteiros da frente.
Mas vale a pena.
Pela manhã seguinte há uma ridência nas folhas e flores, uma iridescência verde que contraria o cenho de calor do céu fosco,  branco-sujo. (...)

- Maria Velho da Costa, in O Livro do Meio - romance epistolar ( escrito a quatro mãos com Armando Silva Carvalho ), Caminho, 2006.

E assim assinalo a atribuição do Prémio Vida Literária ( APE ) a Maria Velho da Costa. Uma justíssima escolha.

sábado, 7 de março de 2009

Ravel, por Jean Echenoz

Ravel, um livro maravilhoso que terminei há alguns dias e de que transcrevo uns excertos, narra os últimos dez anos da vida do compositor que faria hoje 134 anos.


«As férias acabaram. Agora está sentado ao piano, em sua casa. Com uma partitura à sua frente, cigarro nos lábios e, como sempre, impecavelmente penteado. Por baixo do roupão de bandas claras e bolso a condizer, traz uma camisa de riscas cinzentas e uma gravata em tons de bronze. Em posição de acorde, a mão esquerda está sobre as teclas do piano enquanto a direita, exibindo uma lapiseira de metal presa entre o indicador e o dedo grande, anota na partitura o que a esquerda acaba de criar. […]
«E a seguir, como acontece sempre que está só, faz a sua refeição virado para a parede, na mesa recuada. Ao devorar a carne, a dentadura faz um ruído de castanholas ou de metralhadora que se repercute na sala apertada. Come e vai reflectindo no que fez. Sempre gostou de autómatos e de máquinas, de visitar fábricas, de paisagens industriais, lembra-se do que viu na Bélgica e na Renânia quando passou por lá num iate de rio há mais de vinte anos, de cidades eriçadas de chaminés que expeliam chamas e fumos vermelhos e azulados, de castelos de fundições, de catedrais incandescentes, de sinfonias de correias, de silvos e sons de martelos, sob um céu escarlate.
«[…] É verdade que existia, por essa altura, uma fábrica que Ravel apreciava especialmente e que ficava junto à ponte de Rueil, a caminho de Vésinet, a fábrica dava-lhe ideias. É isso: está em vias de compor qualquer coisa que se inspira no trabalho em cadeia.
«Em cadeia e repetidamente, a composição é acabada em Outubro […]. Tem plena consciência do que fez, mas não existe estrutura a bem dizer, nem desenvolvimento, nem modelação, só ritmo e arranjos de orquestra. […]
«Mas apesar de ele sentir por essa obra um certo desprezo, não quer dizer que se deva encará-la de ânimo leve. E é preciso que o mundo compreenda também que não se pode divertir à custa do seu andamento. Quando Toscanini vai dirigi-la à sua maneira, duas vezes mais rápido e accelerando, Ravel vai ter com ele, bastante frio, depois do concerto. Não foi com o meu andamento que o senhor tocou o Boléro, fez-lhe ele notar. Toscanini inclina-se para Ravel, tornando ainda mais comprido o rosto e enrugando ainda mais o frontão que lhe faz a vez de testa. Quando toco com o seu andamento, diz, não consigo retirar-lhe o mínimo efeito. Pois bem, replica Ravel, deixe de tocá-lo. O senhor não conhece nada da sua música, há um frémito nos bigodes de Toscanini, foi a melhor forma de o tornar aceitável. Ao voltar a casa, sem dizer nada a ninguém, Ravel escreve a Toscanini. Não se sabe o que ele lhe disse nessa carta.»
Jean Echenoz – Ravel / trad. do francês por Armando Silva Carvalho. Lisboa: Sextante, 2007, p. 62-65
€13,00