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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Parabéns, João Luís Barreto Guimarães!


Prémio Pessoa 2022

AS EMPREGADAS FABRIS

Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às
empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de operária
tocam umas nas outras como
inda fossem meninas mas a
delas que vai noivar já
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde
que nem esta chuva afaga
o
gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e 
as tomam pela cintura. Um
foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
há nelas a incerteza de
não saberem se são 
incompletamente infelizes. 

João Luís Barreto Guimarães
in Rés-do-chão

O último livro que li deste autor foi a tradução de Afetuosamente de Margaret Atwood. Muito boa! Pelo menos eu gostei.

sábado, 9 de novembro de 2019

Um quarto de hotel em Madrid



Não se chega a pertencer nunca a um
quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não
é nosso por inteiro) se é
certo que amanhã outro dono estará
emoldurado
ao espelho. Não se chega a confiar nele
(não se lhe lega segredos) sequer a
palavra impudica expurgada
da pele
pela toalha de banho. Não chega a
ser nossa a cama (não se molda
a nosso jeito) melhor que
nem te despeças dessa alcova pela manhã
quando sabes como é lesta a
entregar-se ao próximo viandante
por dinheiro.

João Luís Barreto Guimarães
In: O tempo avança por sílabas. Lisboa: Quetzal, 2019

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Poemas - 97

Entre etéreo e terreno

Deus sive Natura 

Espinosa


Na
manhã do temporal saímos a medir
estragos

( repor pedras nos muros
colher gravetos do chão ). A
fúria
da natureza volveu a ordem anterior
como marca de um excesso quando
no dia seguinte olhas melhor e
percebes o
equívoco da
noite anterior. Da força da
tempestade só sóbrou
dor e silêncio ( aos pés 
de um pinheiro manso céu e terra
derrotados :

um rato e um 
pardal são a memória visível da cega
devastação ) como se
um recomeço apenas fosse possível
caso 
entre etéreo e terreno ambos
ousassem perder. Um
deus ajusta o equilíbrio destruindo o
que criou-
alguém tem de morrer cedo para que
outrem possa sobreviver.


- João Luís Barreto Guimarães, Mediterrâneo, Quetzal .

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Poemas


Verdadeiros Inimigos

Estou em idade de ter verdadeiros inimigos.
É quase inevitável. Parece-me mesmo normal. Já erro
pela cidade há demasiado tempo. Estranho
era que ninguém tivesse reparado em mim. É esta a idade de ter
verdadeiros inimigos
é sabido que possuo predicados invulgares
( sou visita de casa da angústia e
do tumulto
há muito que trato por tu a dúvida e a inquietação )
é fácil que sobrevenha quem sinta invídia
de mim ( prometo 
alimentá-los com novos conseguimentos:)
apenas reclamo para mim um
direito natural.

- João Luís Barreto Guimarães, Verdadeiros Inimigos , in Você está aqui.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Gatos depois do Jantar!

Louis Eugène Lambert(1825-1900), Gatos depois do Jantar

«Um cão, eu sempre disse, é prosa; Um gato é um poema.»

Jean Burden in, Assinar a Pele, antologia de poesia contemporânea sobre gatos, (organização de João Luís Barreto Guimarães), Lisboa: Assírio & Alvim,2001. Capa do livro Mário Le Chat, pintura de Vieira da Silva oferecida a Mário Cesariny, retirado daqui.

sábado, 11 de julho de 2009

Um poema para o entardecer: O Gato!

O GATO 

Na minha casa desejo ter 
Uma mulher que imponha a sua razão 
Um gato passeando entre os livros 
E porque sem eles não posso viver 
Amigos seja qual for a estação. 

Guillaume Appolinaire, Assinar a Pele - antologia de poesia contemporânea sobre gatos, Organização de João Luís Barreto Guimarães, in Poemário da Assírio & Alvim, 2009.