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sexta-feira, 4 de setembro de 2026
domingo, 8 de março de 2015
A Mulher...
Para todas as Mulheres que nos visitam.
A Mulher Mais Bonita do Mundo
estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
(cortesia do Google)
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Números
(...) Deixo-te os números, esses são concretos : as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.
Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.
- José Luís Peixoto, na VISÃO.
Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.
- José Luís Peixoto, na VISÃO.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
O trabalho de dona de casa é um horror!
A minha tarde foi dedicada a limpar os livros mas o trabalho é lento, só consegui matar quatro estantes, ainda faltam seis. :(
Gosto tanto de livros mas de limpá-los...
O trabalho de dona de casa é um horror!
A única sensação agradável é o cheiro do Pronto.
Estive um pouco antes do jantar a ler o poema que partilho, o dia tornou-se mais leve.
mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.
José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão. Lisboa: Temas e Debates, 2002, p. 27.
Agradeço a quem me ofereceu este livro.
Boa noite a todos.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Citações - 213
(...) Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior, ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.
E os amigos, quando sabem, nâo se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.
Nós acreditávamos.
Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.
- José Luís Peixoto, in Amor burguês, na Visão, p.12.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Citações - 145

(...) O que pensariam as pessoas sobre mim se conhecessem a password do meu email? Não sei se o pudor com que considero esta pergunta se deve ao significado que dou a essa combinação de carateres ou ao próprio significado dos mesmos. Para além de mim, ninguém a conhece. Se me acontecer alguma coisa, o meu endereço eletrónico continuará a receber correspondência que ninguém lerá, caixa de correio invisível, trancada por fechadura de aço. Não importa. Assim está bem. No email, a password está antes de tudo; em mim, está no fim de tudo, é o último sinal antes do desconhecido.
O hotmail, o gmail e outros aconselham a trocar de password periodicamente. Agradeço, mas sempre o fiz sem precisar desse alerta. Reconheço a passagem dos dias e dos anos. O tempo, o tempo e nós somos outros. Sei e sempre soube, embora a minha password antiga fosse: nuncamudes1974.
- José Luís Peixoto, Atualizações, na Visão.
sábado, 10 de abril de 2010
Citações - 79

(...) Quando estiveres a ponto de te preocupar com merdas, os dilemas da poesia portuguesa contemporânea, o IRS, o código do multibanco, os carros que te roubam o estacionamento, a falta de rede no telemóvel, as reuniões de condomínio, o tampo da sanita, lembra-te dos homens que puxam riquexós nas ruas de Deli. É essa a tua obrigação. (...)
- José Luís Peixoto, na Visão, p.10.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Max Ernst, Flor Concha, 1927
x
Óleo sobre tela, 19 x 24 cm, Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid
x
x
"pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurrado pétala a pétala
letra a letra uma flor desfolhada na terra"
x
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p.61
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Ler com prazer 4.
Max Ernst, "Of This Men Shall Know Nothing", (1923),
x
The Tate Gallery, London "esse filho só de sangue que te escorre pelas pernas
sou eu. podiamos ter-lhe ensinado as palavras, mas
o seu nome é agora de sangue. podíamos ter-lhe
mostrado o céu, mas o seu olhar é agora de sangue.
podiamos ter fechado a sua mão pequena dentro da
nossa, mas a sua mão é agora de sangue. esse filho
só de sangue que te escorre pelas pernas e morre
sou eu, o meu sangue e a minha memória."
x
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p. 76
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Poemas à "Mãe" II, José Luís Peixoto.
mãe queremos ainda passear
mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
perdeu-se o olhar que nos guiava
e explicava os caminhos
perdeu-se a mão dobrada pela
lâmina de tanto trabalhar que
nos amparava se as curvas
da estrada anoiteciam
mãe já não temos a camioneta
azul onde construímos casas
e vivemos tanta vida
mãe já não temos a carrinha
branca onde voltaste ao
que conhecias para conhecer
de novo onde ouvimos música
de piqueniques e risos de netas
mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
esperamos uma madrugada
que nos apresse a entrar na
camioneta azul na carrinha branca
um conforto que chegue e nos leve
um conforto que não chega
que não chega nunca mãe
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p.24
mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
perdeu-se o olhar que nos guiava
e explicava os caminhos
perdeu-se a mão dobrada pela
lâmina de tanto trabalhar que
nos amparava se as curvas
da estrada anoiteciam
mãe já não temos a camioneta
azul onde construímos casas
e vivemos tanta vida
mãe já não temos a carrinha
branca onde voltaste ao
que conhecias para conhecer
de novo onde ouvimos música
de piqueniques e risos de netas
mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
esperamos uma madrugada
que nos apresse a entrar na
camioneta azul na carrinha branca
um conforto que chegue e nos leve
um conforto que não chega
que não chega nunca mãe
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p.24
quarta-feira, 29 de abril de 2009
quando nasci, José Luís Peixoto.
quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p.37
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p.37
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Poesia e Amor 4: José Luís Peixoto.
Fotografia de Henri Cartier-Bresson
Jad tinha colocado um texto deste livro: A Criança em Ruínas, como gostei muito tentei arranjá-lo. Aqui está para falar do que é ou não o amor.
3.
fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor, o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p. 57.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Um dia...
“Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela, e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão os pássaros no parapeito da nossa janela.
Haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade”.
José Luís Peixoto, A criança em Ruinas
1ª edição - Quasi, Set. 2001; 3ª edição - Quasi, Jan. 2002, p. 6
Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão os pássaros no parapeito da nossa janela.
Haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade”.
José Luís Peixoto, A criança em Ruinas
1ª edição - Quasi, Set. 2001; 3ª edição - Quasi, Jan. 2002, p. 6
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