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domingo, 8 de março de 2015

A Mulher...

Para todas as Mulheres que nos visitam.

A Mulher Mais Bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 

entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 


os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
(cortesia do Google)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Números

(...) Deixo-te os números, esses são concretos : as oitenta e cinco pessoas mais ricas do mundo possuem tantos recursos como a metade mais pobre de toda a população do planeta.
Li num jornal da semana passada. Ainda não se desatualizou. É deste tempo, deste mundo. Está a acontecer com tanta realidade como aqui, aí, como aquilo que iremos encontrar no momento em que deixarmos estas palavras e olharmos em volta.

- José Luís Peixoto, na VISÃO.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O trabalho de dona de casa é um horror!


A minha tarde foi dedicada a limpar os livros mas o trabalho é lento, só consegui matar quatro estantes, ainda faltam seis. :(
Gosto tanto de livros mas de limpá-los...
O trabalho de dona de casa é um horror!
A única sensação agradável é o cheiro do Pronto

Estive um pouco antes do jantar a ler o poema que partilho, o dia tornou-se mais leve.





mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são 
todas as estrelas que existem.

José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão. Lisboa: Temas e Debates, 2002, p. 27.

Agradeço a quem me ofereceu este livro.
Boa noite a todos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Citações - 213


(...) Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior, ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.
E os amigos, quando sabem, nâo se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.
Nós acreditávamos.
Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.

- José Luís Peixoto, in Amor burguês, na Visão, p.12.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Citações - 145


(...) O que pensariam as pessoas sobre mim se conhecessem a password do meu email? Não sei se o pudor com que considero esta pergunta se deve ao significado que dou a essa combinação de carateres ou ao próprio significado dos mesmos. Para além de mim, ninguém a conhece. Se me acontecer alguma coisa, o meu endereço eletrónico continuará a receber correspondência que ninguém lerá, caixa de correio invisível, trancada por fechadura de aço. Não importa. Assim está bem. No email, a password está antes de tudo; em mim, está no fim de tudo, é o último sinal antes do desconhecido.
O hotmail, o gmail e outros aconselham a trocar de password periodicamente. Agradeço, mas sempre o fiz sem precisar desse alerta. Reconheço a passagem dos dias e dos anos. O tempo, o tempo e nós somos outros. Sei e sempre soube, embora a minha password antiga fosse: nuncamudes1974.


- José Luís Peixoto
, Atualizações, na Visão.

sábado, 10 de abril de 2010

Citações - 79


(...) Quando estiveres a ponto de te preocupar com merdas, os dilemas da poesia portuguesa contemporânea, o IRS, o código do multibanco, os carros que te roubam o estacionamento, a falta de rede no telemóvel, as reuniões de condomínio, o tampo da sanita, lembra-te dos homens que puxam riquexós nas ruas de Deli. É essa a tua obrigação. (...)


- José Luís Peixoto,
na Visão, p.10.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Max Ernst, Flor Concha, 1927
x
Óleo sobre tela, 19 x 24 cm, Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid
x
"pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurrado pétala a pétala
letra a letra uma flor desfolhada na terra"
x
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p.61

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ler com prazer 4.

Max Ernst, "Of This Men Shall Know Nothing", (1923),
x
The Tate Gallery, London

"esse filho só de sangue que te escorre pelas pernas
sou eu. podiamos ter-lhe ensinado as palavras, mas
o seu nome é agora de sangue. podíamos ter-lhe
mostrado o céu, mas o seu olhar é agora de sangue.
podiamos ter fechado a sua mão pequena dentro da
nossa, mas a sua mão é agora de sangue. esse filho
só de sangue que te escorre pelas pernas e morre
sou eu, o meu sangue e a minha memória."
x
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p. 76

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Poemas à "Mãe" II, José Luís Peixoto.

mãe queremos ainda passear

mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
perdeu-se o olhar que nos guiava
e explicava os caminhos
perdeu-se a mão dobrada pela
lâmina de tanto trabalhar que
nos amparava se as curvas
da estrada anoiteciam
mãe já não temos a camioneta
azul onde construímos casas
e vivemos tanta vida
mãe já não temos a carrinha
branca onde voltaste ao
que conhecias para conhecer
de novo onde ouvimos música
de piqueniques e risos de netas
mãe queremos ainda passear
e já não temos quem nos leve
esperamos uma madrugada
que nos apresse a entrar na
camioneta azul na carrinha branca
um conforto que chegue e nos leve
um conforto que não chega
que não chega nunca mãe

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p.24

quarta-feira, 29 de abril de 2009

quando nasci, José Luís Peixoto.

quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p.37

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Poesia e Amor 4: José Luís Peixoto.

Fotografia de Henri Cartier-Bresson
Jad tinha colocado um texto deste livro: A Criança em Ruínas, como gostei muito tentei arranjá-lo. Aqui está para falar do que é ou não o amor.

3.

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor, o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007, p. 57.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Um dia...

“Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços, a tua pele será talvez demasiado bela, e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
Um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo e cantarão os pássaros no parapeito da nossa janela.
Haverá flores, mas nada disso será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi nem uma palavra, para não estragar a perfeição da felicidade”.

José Luís Peixoto, A criança em Ruinas
1ª edição - Quasi, Set. 2001; 3ª edição - Quasi, Jan. 2002, p. 6