John Singleton Copley (1738-1815), Richard Heber, 1782, óleo sobre tela, Yale Center for British Art.(...) Mas como é que se chega a esses milhares de volumes que acabam por colocar tantos problemas ao seu proprietário? As explicações são diversas- e não mutuamente exclusivas-consoante a categoria particular de bibliómano em causa. Porque a bibliomania, enquanto termo genérico, cobre realidades bastante diferentes. Realidades que podemos definir em dois tipos principais: a dos coleccionadores e a dos leitores inveterados.
Os coleccionadores dividem-se. por sua vez, em especialistas e "acumuladores".
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Os "acumuladores" dão a sensação de terem perdido todo e qualquer limite quantitativo e de terem renunciado à leitura das obras acumuladas. Galantaris cita o caso de Sir Richard Heber(1774-1833), que possuía 300.000 volumes repartidos por cinco bibliotecas, em Inglaterra e no continente, sendo que cada uma delas invadiu cinco residências ( "os livros eram omnipresentes e formavam verdadeiras florestas, com alamedas, avenidas, pequenos bosques, caminhos em que havia o risco de chocar com as pilhas e montes que transbordavam das prateleiras, ocupavam as mesas, os móveis, o soalho..."). Quanto a Antoine-Marie-Henri Boulard (1754-1825), antigo notário e autarca do oitavo bairro de Paris sob Napoleão. começou por salvar os livros que tinham ido parar ao mercado, depois de confiscados ou desviados durante a Revolução, e acabou por encher nove ou dez prédios adquiridos para neles instalar os seus 600.000 volumes. Consta que a respectiva venda, organizada pelos filhos entre 1828 e 1832, provocou uma tal saturação nas livrarias e alfarrabistas que os preços dos livros em segunda mão vieram por aí abaixo durante vários anos.
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A outra grande categoria de bibliómanos é a dos leitores inveterados. Não quer isto dizer que os "acumuladores" não leiam; acontece que o seu interesse principal é outro. E também não quer dizer que o leitor inveterado não acabe por acumular muitos livros, mas no seu caso trata-se mais da consequência da sua obsessão do que de um desejo original. De início, há na casa do leitor inveterado uma fome de leitura e uma curiosidade abrangente, o que não implica necessariamente uma acumulação de livros, pois estes podem ser consultados na biblioteca, pedidos de empréstimo ou revendidos, se por acaso forem comprados. Mas o bibliómano leitor quer guardar o objecto, mantê-lo à sua disposição.
- Jacques Bonnet, bibliotecas cheias de fantasmas, Quetzal, 2010, p.28,33-34.
E fiquei a saber também nesta parte deste livro fascinante que o Karl Lagerfeld é também um grande acumulador: 300.000 livros, espalhados pelas suas cinco casas. Se considerarmos que a Biblioteca Nacional de Portugal tem um milhão de volumes, ficamos com uma ideia da desmesura destas bibliotecas particulares.
Ainda assim, estes números empalidecem face aos da maior biblioteca do mundo: a do Congresso dos Estados Unidos: 32 milhões de livros, 61 milhões de manuscritos, 14 milhões de fotografias etc etc.
