
Fui ontem ver o filme "CHERI", já aqui anunciado pelo Luís Barata.
O filme reúne alguns dos principais artífices do excelente "
Dangerous Liaisons" / "As Ligações Perigosas", de 1988 - Stephen Frears na realização, Christopher Hampton no argumento adaptado e Michelle Pfeiffer como protagonista. Infelizmente, o marketing do estúdio capitalizou demais esta "ligação", apregoando-a no cartaz, ligando os filmes sob a égide de
period pieces (apesar de um decorrer no
Ancient Régime e outro na
Belle Epoque) e criando o "
tag": "
Indulge in a wicked game of seduction", reminiscente do mote do anterior sucesso. Naturalmente, a expectativa fica criada para ver o "
Dangerous Liaisons II". E essa expectativa é defraudada, sendo que em seu lugar surge um outro excelente filme, arrastando a necessidade de comparação constante com o filme anterior.
"CHERI", baseado na obra de Colette (que não li), descreve um mundo de cortesãs da alta sociedade na Paris da Belle Epoque, já retiradas e "
of a certain age"; Chéri é a alcunha do filho de uma dessas cortesãs, Charlotte, um jovem adulto mimado, sem sentido de responsabilidade e aborrecido pelo seu hedonismo. Léa é uma antiga rival e agora "amiga" da Mãe (como ela própria diz, nunca gostou particularmente dela, mas é impossível fazer amizades fora do ... meio), decidida a retirar-se e viver dos rendimentos. Numa nota de indiferença, de quase "
oh, why not...?", começam uma relação sexual, com vivência conjunta de dias que se sucedem sem grande planeamento ou interesse de perpetuidade.
Um dia o Sol nasce, e nesta vivência passaram seis anos de convivência -- nesse dia, Léa toma conhecimento das intenções matrimoniais de Charlotte para o filho: casá-lo com a abastada herdeira de outra colega de
métier. Há um estremecimento; o que nunca fora deliberado ou resultado de amor ou paixão, mas apenas cómodo, passa a ser algo que, desaparecendo, deixa um vazio. Seguindo as regras de etiqueta cortesã, ambos seguem caminhos que se voltam a entrelaçar até à voz
off final do filme.
A reacção ao filme foi fraca -- em geral, considerou-se que as cenas amorosas tinham pouca chama e que o argumento era medíocre (
vide o
site de crítica de cinema "
Rotten Tomatoes"). Pela minha parte, as cenas com pouca chama eram as que tinham que ter pouca chama -- as iniciais, as dos seis anos em que a relação se estabelece por hábito e por não haver nada mais interessante para fazer. É nessa indiferença (apenas aparente) que reside o desequilíbrio para os envolvidos em continuarem as suas vidas de forma independente. Até à frase final, que oferece os contornos da frieza do argumento e das interpretações.
Para mim, mereceram destaque a beleza e elegância dos cenários e dos guarda-roupas, as interpretações de Michelle Pfeiffer (que exigiu ao director de fotografia que a capturasse com todas as marcas dos seus cinquenta anos), superlativa ao comportar-se como se comportaria uma cortesã habituada a não baixar a guarda, e Kathy Bates, que cria uma Charlotte inteligente, hábil, mesquinha e com pouco em que se ocupar. Menos feliz, a meu ver, esteve a interpretação de Rupert Friend (que estivera muito bem num dos filmes de "
Harry Potter").
Apreciei particularmente as piscadelas de olho aos adeptos de "As Ligações Perigosas" (por exemplo, a fotografia inicial de Léa era uma das fotografias promocionais do filme, ambos os filmes terminam com um grande plano da protagonista ao espelho, vendo o seu declínio).
Breves notas curriculares:
- Stephen Frears realizou também os excelentes "
My Beautiful Laundrette" / "A Minha Bela Lavandaria" (1985), com Daniel Day-Lewis, "
The Grifters" / "A Anatomia do Golpe" (1990), com Anjelica Huston, John Cusack e Annette Bening e, mais recentemente, "
The Queen" / "A Rainha" (2006), com Helen Mirren; teve também a realização de filmes menos bem conseguidos como "
Hero" / "Herói Acidental" (1992), com Dustin Hoffman, Geena Davis e Andy Garcia, e "Mary Reilly" (1994), com John Malkovich e Julia Roberts;
- Christopher Hampton escreveu e realizou "Carrington" (1995), com Emma Thompson e Jonathan Pryce, e escreveu os argumentos de "Mary Reilly", "
The Quiet American" (2002) e "
Atonement" (2007), bem como a letra para o musical de Andrew Lloyd Webber, "
Sunset Blvd", baseado no filme homónimo de Billy Wilder (com Don Black);
- Michelle Pfeiffer faz com esta obra o terceiro vértice de um triangulo de amor restringido por códigos auto-impostos -- juntamente com as "As Ligações Perigosas" e "
The Age of Innocence" / "A Idade da Inocência" (1993).
Este triunvirato acresce a um palmarés que conta com uma vastíssimo leque de atributos, desde "Grease 2" (1982) e "Scarface" (1983), a "
Ladyhawke" (1985), "
The Witches of Eastwick" (1987), "
Married to the Mob" (1988), "Os Fabulosos Irmãos Baker" (1989), "
Love Field" e "
Batman Returns" (ambos de 1992) ou, mais recentemente e depois de longo interregno, "
Hairspray" e "
Stardust" (ambos de 2007).