Prosimetron

Prosimetron
Mostrar mensagens com a etiqueta António Guerreiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Guerreiro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de março de 2021

Citações


 

(...) Há muita coisa que não vai, pura e simplesmente, ser retomada. E entre essas coisas sujeitas à descontinuidade está a lógica que governava as cidades turísticas.

Evidentemente, não é de esperar que Veneza ou Roma continuem, como agora, vazias. Mas alguns factores de esvaziamento vão manter-se mesmo quando acabar a pandemia, por razões psicológicas, mas também por questões logísticas ( por exemplo : como é que as companhias aéreas de low cost vão retomar a sua actividade, depois de um desastre desta dimensão ? ).


- António Guerreiro, A pandemia urbanística, no PÚBLICO de Sexta-feira.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Citações



(...) Vejam-se as constantes campanhas filantrópicas a favor da leitura e dos livros, como se estes fossem impermeáveis a odiosas astúcias ( ou, pelo menos, espertezas saloias, como acontece com a edição póstuma do romance inacabado de José Saramago ). Ora, esta fala ruidosa em torno dos livros tornou-se tão poderosa que faz calar toda a crítica. O problema, hoje, não é uma censura que impeça as pessoas de falar, mas a lógica que obriga a falar e institui o ruído. Não é o silêncio que é uma ameaça, mas o ser forçado a falar, sem escolha, sem silêncio. Nada é interdito, mas há aquilo que é difundido para além do visível e do audível. Transpondo isto para a situação da indústria do livro, podemos dizer que são hoje bem visíveis os efeitos nefastos, devastadores, da concentração editorial e, muito especialmente, do controlo que os grandes grupos editoriais detêm sobre todo o circuito de produção, comercialização e difusão dos livros. Não há sector tão " desregulado " como este. E, para corrigir este estado de coisas, nem sequer era necessário instituir, por exemplo, uma autoridade com o poder de decretar que a maneira como foi editado o romance inacabado de José Saramago é inaceitável, na medida em que oculta ao leitor algumas informações que seriam necessárias para ele decidir se deve ou não comprar o livro e que protocolos de leitura é que lhe são exigidos.

- António Guerreiro, no Público de Sexta-feira, 10 de Outubro.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Pensamento ( s )



(...) Hoje, a verdadeira arte política dos governos democráticos, do poder cibernético-governamental, é a estatística. Daí, a orgia de números no discurso público que somos obrigados a atravessar, todos os dias, em todo o lado. Os centros de decisão do poder político são centros de cálculo e de tradução estatística. E o nosso horizonte está preenchido pela aritmética política, por um governo planetário dos números. A avaliação, ferramenta primeira da actual técnica gestionária, pode ser definida como um poder regulador e uma polícia científica ( a Polizeiwissenschaft era uma disciplina ensinada nas universidades alemãs desde o século XVIII ). Ela é uma racionalidade estatal. E, como mostrou Foucault nos seus seminários sobre " Segurança, Território, População ", a história da estatística entrelaça-se com a história da política : a estatística é o instrumento fundamental da organização da polícia. Ora, um estado racional - um Estado dotado dos instrumentos capazes de qualificar, medir, hierarquizar, indiciar, codificar, verificar, apreciar - requer uma ciência da polícia.

- António Guerreiro, no Público de Sexta-feira passada.

domingo, 23 de maio de 2010

Parabéns, Eduardo Lourenço!

Ainda ontem falei sobre o aniversário de Eduardo Lourenço, mas esqueci-me de o lembrar aqui. Só hoje ao abrir o Arpose é que...
Para celebrar o aniversário deste nosso pensador, nada melhor do que lê-lo. Deixo, pois, aqui uma sugestão de leitura - esta colectânea de artigos publicados ao longo de vários anos, que tenho vindo a saborear, aos poucos, desde Setembro:

Lisboa: Gradiva, 2009

«Trata-se do exercício teórico mais sólido e de maior alcance, em Portugal, para pensar a Esquerda, na época do declínio das suas representações políticas e da sua “mitologia cultural”. [... Eduardo Lourenço] moveu-se sempre com extrema lucidez entre os encantos da dialéctica e a suspeita em relação a ela. Esta posição dá-lhe uma agilidade enorme para pensar a Esquerda na época do triunfo do neoliberalismo (para pensar o futuro da Esquerda, hoje) e das sucessivas derrocadas políticas e culturais da referência marxista e, mesmo, da ideia de Socialismo.»
António Guerreiro (Expresso)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os livros em Portugal - 1

" (...) A sobreprodução editorial, sem fim à vista, dá ao espectáculo um aspecto exasperado, onde se consuma sem pudor a lei da economia que tem sido transposta para outros campos: a má moeda expulsa a boa moeda.
Vítimas graves da regra da expulsão são os livros de ciências humanas e sociais. Neste campo, a pobreza é de tal ordem que podemos falar de uma operação de extermínio silencioso. E as colecções de poesia, que tinham um peso com algum relevo no fluxo editorial, entraram nítidamente numa fase de abrandamento. A homogeneização é total e tudo se conforma aos padrões de um público maioritário. Dir-se-ia que esta é uma corrida suicida, mas enquanto houver muitos livros na livraria poucos se apercebem do que se passa neste campo devastado.(...) "

- António Guerreiro, in EXPRESSO, de 27 de Dezembro.