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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Projeto político 5: Alfarrabista


Aquele alfarrabista de Vigo vendia sobretudo
discos antigos de vinyl. 
Mesmo que só vendesse sobretudos,
eu arranjaria maneira de ali encontrar um livro.
Foi o caso de Ilustrísima's.
Ilustradoras galegas retratavam mulheres ilustres
como Virginia Woolf, Patti Smith ou Marie Curie.
A acompanhar cada retrato, apenas uma frase.
Recordo melhor a de Janis Joplin. Dizia assim,
no seu melhor galego:

«Sempre estou sorrindo, e non é polas drogas
ou pola felicidade, é porque son miope.»

Filipa Leal - Fósforos e metal sobre imitação de ser humano. 3.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2025, p. 61.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Leituras no Metro - 2978

Lisboa: Assírio & Alvim, 2025.

Bach Celllo Suite Prelude
(Violoncelo sobre betão, 2017)

Escrevo para não esquecer de levar o pão
à rua, de rebentar os cabelos no último 
vento da manhã, de acordar sempre mais
tarde do que devia. Escrevo para não esquecer
esse início de Bach que me desassocia do que fui,
que me faz bicho enredado ou labirinto

por não haver palavras

quando há farinha
quando há água
quando há cordas
quando há pau.

Filipa Leal


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Poemas - 98


Apocalypse Now


Minutos antes do fim do mundo, 
os poetas
retiraram as vírgulas aos textos e os
títulos aos textos
e a roupa ao corpo e os anéis aos 
dedos
porque não havia tempo
para tanta ostentação.

Porém os amantes que, à mesma
hora, entretidos
liam um ao outro poemas de amor
no barroco banco do jardim
não imaginavam
o trabalho que aquilo lhes dava.

- Filipa Leal

domingo, 15 de março de 2009

Uns girassóis...

... para o Luís, com renovados votos de Parabéns.


James Tissot (ou Jacques-Joseph Tissot)
Behold, he standeth behind our wall
Guache, 1886-1894
EUA, The Brooklyn Museum


Há um girassol
que só se vira de frente
se dissermos o teu nome.

Filipa Leal
In: Talvez os lírios compreendam. Porto: Cadernos do Campo Alegre, 2004, p. 64
(Este poema tem uma dedicatória: «Para Jorge de Sousa Braga».)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Filipa Leal

Um amigo falou-me desta poetisa com grande entusiasmo. Ando a ler Talvez os lírios compreendam (2004) e estou a adorar.

por dentro dos cafés. E são cadeiras, e são sentadas e
simples: mesmo que não nos sentemos nelas. A mim
perturba-me ainda o dia em que parti. Divago sobre a dor
como se também eu me sentasse - calmamente. Recordo o
desespero como se rezasse. Descrente. Rezando como se
recitasse no entardecer onde não estive. Talvez seja esta a
única ausência destes anos. É este o momento em que não
parto. Mas sou longe. Tenho escadarias nos sentidos,
caminhos despovoados junto aos ossos, e janelas, janelas de
espelhos na memória violenta.

Filipa Leal