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domingo, 2 de novembro de 2025

Leituras no Metro - 2973


Estou contentíssima por François Ozon ter adaptado O Estrangeiro ao cinema, mais de 80 anos depois do livro ter sido publicado. Aguardo que o filme estreie em Lisboa.
Le Nouvel Obs traz uma conversa entre o realizador do filme e Kamel Daoud, autor de Meursault, contre-enquête, uma releitura de O estrangeiro. Estou com muita vontade de ler este livro. A Bertrand, editora deste escritor argelino, poderia traduzi-lo.


François Ozon - «[...] tive de fazer um trabalho de pesquisa histórica, porque conhecemos muito mal este período da colonização nos anos 1930. Vi muitos arquivos, com os comentários colonialistas que elogiam «o sorriso d'Argel», o seu lado maravilhoso.... Fiz questão de integrar esse aspeto para que o espectador compreenda que era a visão dos franceses da Argélia francesa, o que isso representava para eles. Eu próprio tenho avós que aí viveram, que adoraram a Argélia e falavam como de um paraíso perdido, aliás como muitos pieds-noirs. O meu avô era juiz, escapou a um atentado e foi obrigado a voltar para França; era uma ferida no seio da família de que se não falava... Tentei descobrir o que tinham vivido lá. Eu queria mostrar, concretamente, como duas comunidades viviam lado a lado mas sem se misturarem.»
Kamel Daoud - «De facto, o apagamento desta época é duplo. Há esta imagem de paraíso perdido, colada á realidade,  que elimina toda a complexidade da vida e a sua dureza para nós. Mas por outro lado, na Argélia, a literatura anterior ao eclodir da guerra foi apagada. Os escritores 'nascidos' com a guerra estão no panteão, mas os que,antes, descreviam a complexidade humana não são visíveis. São os meus pais e os meus avós que me contaram como era a vida então. Mas continua a ser tabu dizer coisas como: "Na época, era muito bonito aqui, havia flores, o prédio estava limpo, o relógio tinha ponteiros que funcionavam..."». (p. 17)
Segundo Saoud, depois da independência «Camus foi apagado. Uma espécie de auto da fé extraordinário.» E o filme não vai ser visualizado nos cinemas argelinos. Aliás, o filme foi feito em Tãnger.
No ano passado, quando fui à Argélia, apenas dez dias, fiquei espantada com a aversão que os argelinos têm aos franceses. Quando lhes perguntávamos porquê, muitos respondiam: «Não há uma família argelina que não tenha um pai, um tio ou um avô que não tenha sido torturado pelos franceses.» E os mais jovens preferiam falar inglês connosco do que francês...


segunda-feira, 14 de abril de 2025

Marcadores de livros - 3361

Verso e  reverso.

Fez ontem, Dia Mundial da Imprensa, 75 anos que saiu o n.º 1 de Le Nouvel Observateur que, em 2014, passou a intitular-se L'Obs.
Veja BibliObs aqui.

Para Ph.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Edgar Morin a L'Obs

Quel est, à ce stade, le principal enseignement que l’on puisse tirer de la pandémie du coronavirus ?
Cette crise nous montre que la mondialisation est une interdépendance sans solidarité. Le mouvement de globalisation a certes produit l’unification techno-économique de la planète, mais il n’a pas fait progresser la compréhension entre les peuples. Depuis le début de la globalisation, dans les années 1990, guerres et crises financières ont sévi. Les périls planétaires – écologie, armes nucléaires, économie déréglée – ont créé une communauté de destin pour les humains, mais ceux-ci n’en ont pas pris conscience. Le virus éclaire aujourd’hui de manière immédiate et tragique cette communauté de destin. En prendrons-nous enfin conscience ? Faute de solidarité internationale et d’organismes communs pour prendre des mesures à l’échelle de la pandémie, on assiste à la fermeture égoïste des nations sur elles-mêmes.
L'Obs, Paris, 18 mar. 2020

terça-feira, 3 de março de 2020

Leituras no Metro - 1051


O último Nouvel Obs dedica um caderno de 42 páginas ao seu fundador «Notre Jean Daniel», recentemente falecido, em que colaboram, entre outros, Robert Badinter, Claude Perdriel (o outro fundador da revista), Bernard-Henri Lévy e Jacques Julliard.
«Jean Daniel s’en est allé. Il est mort comme il a vécu. Debout. Son départ est pour chacun d’entre nous un déchirement, tant notre titre est attaché à son nom. Le numéro de cette semaine retrace – par la voix de ses compagnons de route – l’itinéraire d’un homme hors du commun : à la fois journaliste, penseur et écrivain. Il restera "notre Jean Daniel", notre père en journalisme, la figure tutélaire de la rédaction, l’âme de  l’Obs ».(Do editorial de Dominique Nora, p. 5)
No corpo da revista há duas páginas em que L'Obs dá voz ao testemunho dos seus leitores. Entre eles, está José Luís Porfírio: «Na minha adolescência, lia e admirava le Nouvel Observateur, que chegava a minha casa, em Portugal, debaixo do casaco. Jean Daniel vai-me fazer muita falta, quer esteja eu em acordo ou desacordo com ele, como exemplo de liberdade de pensamento fora das modas e de fidelidade às suas origens. Uma figura exemplar e uma vida rica e bem preenchida. Que repouse em paz!» (trad. minha, p. 7)
O texto de Bernard-Henri Lévy refere as relações de Jean Daniel com Portugal e son ami Soares e o apoio que deu (com a sua plume) à consolidação da democracia em Portugal, numa época em muitos estrangeiros olhavam para o nosso país como um caso perdido, uma «nova Cuba».

Le Nouvel Observateur, 4 nov. 1974



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O que resta da criança de sete anos que fomos?

Paris: Stock, 2019

Nunca li nada de François Taillandier, mas li um texto de Jérôme Garcin sobre este romance em L'Obs que me suscitou interesse. Devemos encontrar uma parte de nós, enquanto jovens leitores, neste livro.
«Je lui dois tout, à ce François de 7 ans» - o rapaz da fotografia da capa do livro - escreve François Taillandier.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Leituras no Metro - 255

Esta foi a minha última leitura no Metro: uma boa entrevista ao Boss, a propósito da publicação  da sua autobiografia Born to run, que vai ser uma das minhas próximas leituras. E todos gostaríamos de saber a resposta a «Para onde vai a América?». O dossier Bruce Sprinsteen inclui ainda alguns depoimentos sobre ele, de pessoas como Sean Penn ou Don Winslow.
Ressalto uma entrevista a Michaël Foessel, da revista Esprit, que afirma: «Sim, a esquerda tem futuro». E lá vi a página que APS reproduziu no seu Arpose sobre a exposição de Magritte no Centro Pompidou. 


Entretanto a capa do número de L'Obs, nas bancas a partir de hoje, é dedicada às cartas de Mitterrand a Anne Pingeot, que serão postas à venda no dia 13 de outubro, com a chancela da Gallimard.


domingo, 3 de julho de 2016

A situação europeia


Num artigo em Le Monde (14 jun.), Hubert Védrine defendeu uma pausa na integração europeia. Numa entrevista a L'Obs (23 jun.), ele diz:
«Há muito tempo que não me revejo na linguagem automática sobre a Europa, "É preciso mais Europa", "É preciso um salto", "É preciso combater os egoísmos nacionais". Considero que a situação é agora gravíssima, que os povos estão, massivamente, descrentes, em especial devido à intrusão abusiva da União Europeia nas sua vidas. Somos parte de um mercado comum, que se tornou um mercado único, daí a ideia de produzir normas, o que foi feito de um modo "aytolesco", com gente em Bruxelas que se pôs a regulamentar até faltar água para o duche... tornando os cidadãos euro-alérgicos.»

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

sábado, 17 de novembro de 2012

Pensamento (s)


L'acte politique fondamental, c'est la manifestation du pouvoir de ceux qui n'ont aucun titre à exercer le pouvoir.

- Escreveu Jacques Rancière há uns meses no Le Nouvel Observateur. Afirmação controversa, mas que vem a propósito do sucedido há uns dias em frente à Assembleia da República.