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quarta-feira, 18 de setembro de 2024

«September Song»

Uma releitura. Gosto imenso deste poeta.

Guimarães: Opera Omnia, 2009

Ouve, pelo começo de Setembro,
o clamor e a melancolia
deste mar atravessando a tua vida,
as páginas de um livro por abrir.

Ouve como quem vê,
sobre as falésias deste mês abrupto,
alguém te celebra
muito depois das palavras.

É tão difícil escrever um poema
que não fale da morte.

Manuel de Freitas

Marcador.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Prémio PEN 2013 - ex aequo


Estão as praças,
Como ágoras de outrora, estonteadas
Pela concentração dos organismos, 
Pelo uso da palavra, a fervilhante
Palavra própria da democracia,
Essa que dá a volta e ilumina
O que, por um instante, a empunhou

Hélia Correia



INVENTÁRIO PLEBEU
para o José Miguel Silva

A verdade, digam lá o que disserem,
é que tivemos muito pouca sorte
com os poetas (?) nossos contemporâneos.

Um nasceu em Galveias e tatua-se
ou alfineta-se para disfarçar um vazio evidente;
outro gosta de andar nu em Braga,
muito depois - e aquém - de qualquer Pacheco.
(Ignoram, ambos, que a única pila maior
do que o mundo era a do João César Monteiro.)

Um terceiro, cujo nome nunca escreverei,
é a mulher moderna da edição
às cegas e da sacanice quotidiana. O quarto
e o quinto (gabo quem os logra distinguir)
arrotam melancolia e não admitem
o mínimo desvio à sacrossanta transfiguração da lírica.

O sexto - não, não me apetece falar aqui do sexto.

Consola-nos, isso sim, saber que uns se tornaram
entretanto romancistas (pilim,pilim), e que os restantes
hão-de ser, muito em breve, ministros
ou somente pulhas (é, no fundo, a mesma coisa).

Enquanto, de esgoto em esgoto,
Portugal progride a olhos vistos
e é bem capaz de levar, um dia destes,
com outro Nobel nas trombas.

Manuel de Freitas

terça-feira, 24 de novembro de 2009

1999, PORTISHEAD

xxxxxxx«Las rosas de papel son, en verdad,
xxxxxxxdemasiado encendiadas para el pecho.»
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxJaime Gil de Biedma


It could be sweet - mas a verdade
é que nunca mais foi tão contundente
a bruma dos eléctricos no Loreto,
enquanto, pela primeira vez,
os meus braços já não queriam desistir.

Dançava até ao fim da noite nos últimos bares
e escrevia poemas obre ti, invariavelmente:
rosas mal acesas neste peito de papel,
gestos que só o excesso e o desejo perdoavam.

Desconhecia ainda que vida, amor
ou morte são palavras insonoras,
coisas que não se dizem
mas inquinariam, tanto tempo depois,
os passos todos que não demos,
as manhãs que nos encontraram juntos.

Manuel de Freitas
In: Jukeboz 1 & 2. Vila Real: TVR, 2009, p. 31

O Natal chegou mais cedo, com este presente.