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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Jogar - 3

Jean Siméon Chardin - Menino jogando ao pião, 1741
(Retrato de Auguste Gabriel Godefroy)
São Paulo, Museu ed arte de São Paulo
O jogo do pião. Litografia de J. Brodtmann a partir de desenho de  Joh. Siebert, ca 1830

O jogo do pião, Valado de Frades, anos 1940

O jogo do pião, Lisboa. Fotografia de Ferreira da Cunha

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião 
que rodopia e rouba o chão à folha solta 

Joga tudo no gesto ríspido de vida 
Reergue o braço a prumo arrisca nessa roda
riscada entre parede e tronco a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés 
o adro a pedra o frio os plátanos… Quem és? 
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada 

Mas do breve pião levanta ao céu a enxada 
e que esta vida extensa para sempre seja
– será? – tão bem coberta que nem Deus a veja 

Ruy Belo

sábado, 8 de agosto de 2020

A BERINGELA


É ela
Um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins

Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho

Abensara de Santarém
Trad. de Ruy Belo
In: Rui Belo – Obra poética. 2.ª ed. Lisboa: Presença, 1984, vol. 1, p. 100

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A laranjeira



De novo a laranjeira – olhai! – traz ante nós os frutos,
quais lágrimas vertidas
nos tormentos do amor
e de vermelho coloridas

Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir

E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas aprecem faces de donzela ou perfumados pomos

Abensara de Santarém 
Trad. de Ruy Belo
In: Rui Belo – Obra poética. 2.ª ed. Lisboa: Presença, 1984, vol. 1, p. 100

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Vila do Conde: «O lugar onde o coração se esconde»

George Vivian - Vila do Conde
Rep. de litografia de 1839


O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja para casar

O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio

O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino

O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu

O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida para o liceu

Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?

O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

Ruy Belo

E pode ouvir o poema dito por João Ricardo Pateiro, aqui:
http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=2371680

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SEGUNDO POEMA DO OUTONO

Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode o homem vê-las
cair e conseguir viver
(E cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver

Rui Belo

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Outono está a começar...

PRIMEIRO POEMA DO OUTONO

Mais uma vez é preciso
reaprender o outono –
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua não se cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração

E sabe deus a minha humana mão

Rui Belo

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ah a música

Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva
no meu dia de chuva?
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse.
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva

Ruy Belo, Todos os poemas, Poemário, Lisboa: Assírio & Alvim

quinta-feira, 21 de maio de 2009

AH, A MÚSICA, Ruy Belo!

AH, A MÚSICA

Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva
no meu dia de chuva?
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva

Ruy Belo, Todos os Poemas, Lisboa:Assírio & Alvim, Poemário 2009

E do poema para a música. Quem ainda se lembra dos Supertramp?
Supertramp - It's Raining Again

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A CHEGADA DOS DIAS GRANDES

Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
E o dia é já maior do que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que nem sequer quis
e reconheço a minha condição

Rui Belo
In: Obra poética. Lisboa: Presença, 1984, vol. 1, p. 172