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sexta-feira, 22 de março de 2013

Sylvia Beach

Paris: Perrin, 2011

Aqui há mais de um ano comprei este livro - de que já aqui falei - sobre uma americana que abriu uma livraria em Paris nos anos 20 do século XX: Shakespeare and Company. A atualmente existente com o mesmo nome numa das margens do Sena só tem desta o nome. 
A biografia, sobre uma mulher que amava acima de tudo a literatura, é bastante interessante. 
Este ano, nos poucos dias que estive em Paris, resolvi ir à procura dos locais referidos no livro. Quando leio uma biografia ou algum romance que fale de locais concretos, gosto sempre de ter uma referência visual, o que na maioria das vezes não é possível, ficando-me pela idealizada.

Maison des Amis des Livres, a livraria que Adrienne Monnier abriu em nov. 1915 ficava no 7, rue de l'Odéon. E ela vivia no 18 da mesma rua, para onde Sylvia Beach se mudou.
Sylvia Beach conheceu Adrienne Monnier quando veio a Paris, pela primeira vez, em 1916.

http://www.pbase.com/beatchick/image/57237736
8, rue Dupuytren

Nesta loja, Sylvia Beach abriu a Shakespeare and Company, em 17 nov. 1919.
A livraria funcionava como um espécie de biblioteca pública, só que, em vez de emprestar os livros, alugava-os a preços módicos. Também em Lisboa houve livrarias que funcionaram neste esquema, chamadas «Gabinetes de leitura».

James Joyce, Sylvia Beach e Adrienne Monnier na Shakespeare and Company, 1920.

Em 21 jul. 1921 mudou a livraria para o 12, rue de l'Odéon, onde ficou até dez. 1941. Foi nesta livraria que foi publicado, pela primeira, o Ulisses de James Joyce, como a placa assinala.
http://thedrunkenodyssey.com/category/james-joyce/
Capa e folha de rosto da 1.ª ed. de Ulysses.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Leituras no Metro - 72

Um dia, Hemingway foi passear para o Jardim do Luxemburgo para espantar a fome, tendo de seguida passado pela rue de l'Odéon - uma rua sem restaurantes -, onde se encontrava a livraria de Sylvia Beach. E o que o esperava na Shakespeare & Company? Uma carta com o pagamento de um conto.
Saiu dali e resolveu ir à cervejaria Lipp:

«Dali ao Lipp era um bocado e todos os sítios que o meu estômago reconhecia, tão velozmente como os olhos e o nariz mos revelavam, aumentavam o prazer daquele passeio. Havia poucos clientes na brasserie e, quando me sentei no banco encostado à parede, com o espelho por detrás e uma mesa à minha frente e o criado me perguntou se eu queria cerveja, pedi um distingué, que é uma grande caneca de litro, e uma salada de batata.
«A cerveja estava muito fresca. Soube-me maravilhosamente. As pommes à l'huile estavam rijas e bem temperadas e o azeite era delicioso. Moí pimenta negra por cima das batatas e molhei o pão no azeite. Depois do primeiro e largo trago de cerveja, comecei a comer e a beber com todo o vagar. Acabadas as pommes à l'huile, pedi mais uma dose e um cervelas, prato que consiste numa salsicha semelhante a uma fatia grossa e larga de frankfurter cortada ao meio e coberta de um molho de mostarda especial.
«Ensopei o pão no azeite e no molho e bebi lentamente a cerveja até que esta aqueceu; depois, acabei com ela e mandei vir um demi a cuja tiragem assisti. pareceu-me mais fresco que o distingué e bebi logo metade dele.»
In: Paris é uma festa. Lisboa: Livros do Brasil, [1966], p. 91-92

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Leituras no Metro - 70

Continuo com Paris é uma festa, agora sobre a convivência de Hemingway com Gertrude Stein, no estúdio que esta habitava no 27, rue Fleurus:
Placa colocada no prédio. 
Alice Toklas e  Gertrude Stein na sua casa. 
Aspecto do atelier da rue de Fleurus, em 1933.
Ao fundo, na parede, vê-se o retrato de Gertrude Stein por Picasso.

«Eu e minha mulher havíamos visitado Miss Stein e tanto ela como a amiga com quem vivia [Alice Toklas] se haviam mostrado extremamente cordiais e afectuosas. Apreciáramos devidamente o grande estúdio povoado de grandes quadros. Aquilo era como estar numa das melhores salas de um dos mais belos museus com a seguinte diferença porém: é que ali, além de desfrutarmos de uma vasta lareira que irradiava calor, proporcionando conforto, ofereciam-nos boas coisas de comer, chá e licores de destilação natural, feitos de ameixas escuras, de ameixas amarelas e de amoras silvestres. [...]
«Miss Stein era vasta mas não alta e possuía a construção pesada das camponesas. Senhora de belos olhos, tinha um rosto forte de judia alemã, o qual podia igualmente pertencer a uma mulher de Friulano. [...]
«A sua companheira, dona de uma voz muito agradável, era baixa, muito morena e usava o cabelo cortado à maneira de Joana d'Arc, segundo as ilustrações de Boutet de Monvel, e tinha um nariz fortemente arqueado. Quando a conhecemos andava a trabalhar num bordado, e o facto de ir trabalhando não a impedia de fazer as honras da casa e de conversar com a minha mulher. Conquanto fosse mantendo a sua conversa pessoal, ia ouvindo também a outra, que a cada passo tratava de interromper. Mais tarde, explicou-me que era ela quem se encarregava de conversar com as esposas. Eu e a minha mulher sentíamos que as esposas eram simplesmente toleradas. [...]
Poltronas para crianças, estilo Luís XV, com estofado bordado em petit point por Alice Toklas, segundo desenhos de Picasso, ca 1930.

«Foi-me fácil, mercê do calor, dos bons quadros e da conversação, contrair o hábito de, ao fim da tarde, passar pelo n.º 27 da rue de Fleurus. Muitas vezes, Miss Stein não esperava ninguém e mostrava-se sempre muito cordial. Durante algum tempo, mostrou-se mesmo afectuosa. [...]
«Para afastar do cérebro a tentação de escrever depois de ter largado o trabalho, costumava ler os escritores de então, tais como Aldous Huxley, D. H. Lawrence e quaisquer outros, com livros publicados, que eu pudesse trazer do gabinete de leitura de Sylvia Beach ou encontrar em exposição ao longo do cais.
«- Huxley é um morto - disse um dia Miss Stein. - para que deseja ler um homem que está morto? Não vê que ele não passa de um morto?
«Nessa altura, eu não conseguia compreender que ele fosse um homem morto e respondi que os livros dele me divertiam e impediam de pensar.
«- Você só devia ler o que é verdadeiramente bom ou então o que é francamente mau. [...]
«- Se não quer ler obras más e deseja ler alguma coisa que o mantenha interessado e que é maravilhosa no seu género, leia Marie Belloc Lowndes.
«Eu nunca tinha ouvido falar em tal autora. Miss Stei emprestou-me O Inquilino, essa maravilhosa história de Jack, o Estripador, e outro livro a respeito de um crime numa terra afastada de Pais, a qual só podia ser Enghien les Bains. Ambos esses livros eram esplêndidos para se lerem após o trabalho diário: os heróis, verosímeis, e as reacções e os terrores nada possuíam de falso.»

Matosinhos: Quidnovi, 2008
€7,00

Hemingway leu então todos os livros que encontrou de Marie Belloc, afirmando: «Mas nunca mais encontrei nenhum tão bom como os dois primeiros que li nem nenhum outro autor tão precioso para as horas vagas dia e da noite até os livros de Simenon aparecerem no mercado.»
In: Paris é uma festa. Lisboa: Livros do Brasil, [1966], p. 24-40

Sylvia Beach e a sua Shakespeare and Company ficam para outra altura. Tenho uma biografia sobre ela, interrompida no monte.
Quanto a Marie Belloc Lowndes era avó de Susan Lowndes Marques, de que aqui trouxe, há dias, um livro de cozinha.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Comecei a ler...

Paris: Perrin, 2011
€27,00

Comprei este livro há três dias na FNAC e comecei a lê-lo ante-ontem à noite. Já marcharam cerca de 100 páginas e não foram mais porque tem sido semana de trabalho.
Sylvia Beach (1887-1962), uma americana que se estabeleceu em 1916 em Paris, acabando por abrir a livraria Shakespeare and Company, em 1919, na rue de l'Odéon. Foi a primeira editora do Ulisses de James Joyce, tendo também promovido, dez anos mais tarde, a tradução desta obra para francês.
A sua livraria tornou-se ponto de encontro de escritores franceses - como André Gide, Paul Claudel, Valéry Larbaud e Paul Valéry - e de americanos e ingleses de passagem por Paris, como Hemingway, Gertrude Stein e Eliot.
O livro há-de aqui voltar, não nas «Leituras no Metro», porque é um grande calhamaço.