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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Boa noite!

Teixeira de Pascoais

Teixeira de Pascoais, em Amarante.

Elegia de Amor

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?…
Tu levavas na mão
Um lírio enamorado;
E davas-me o teu braço
E eu, pálido, sonhava
[...]

Teixeira de Pascoais

quarta-feira, 26 de junho de 2013

" A casa", Viagem a Portugal

[A escrita leva a outra escrita como a palavra puxa palavra. Leituras à procura do Verão.]

A casa é igual a muitas que por estes lados se encontram: um pequeno solar, de corpo central e duas alas, casa às vezes nobre, outras vezes de burguês enobrecido, rurais ambos, dependentes da terra e da renda, e por isso duros no trato negocial. Não será esse o caso. Esta casa é de poeta. Viveu aqui Teixeira de Pascoaes, debaixo daquelas telhas morreu. (...) 
Há um lanço de escadas simples, vasos de flores, beirais marcados de musgo e líquenes. É óbvio que o viajante está intimidado. Bateu à porta, espera que venham abrir. «falha a viagem se não entro.» É que esta casa não é museu, não tem horas de abrir e fechar, mas sem dúvida há um deus dos viajantes bem-intencionados, é ele que diz: «Entre», e quando se apresenta não é deus nenhum, mas sim o pintor João Teixeira de Vasconcelos, sobrinho de Teixeira de Pascoaes, que abre as portas de uma casa toda ela preciosa romã e vai acompanhando o viajante até ao fundo do corredor. O viajante está no limiar da parte da casa onde Teixeira de Pascoaes passou os últimos anos de vida. Olha e mal se atreve a entrar. Casas, lugares onde vive ou viveu gente, tem visto muitas. Mas não a cava de um lobo manso. São três salas dispostas em fiada, o sítio de dormir e trabalhar, a biblioteca, chaminé ao fundo, dizer isto é o mesmo  que nada dizer. porque as palavras não podem exprimir a indefinível cor de barro que tudo cobre ou de que tudo é feito, a não ser que a origem da cor ambiente seja a luz da manhã, assim como dirão que súbita comoção é esta que enche de lágrimas os olhos do viajante.

José Saramago, Viagem a Portugal. Lisboa: Caminho, 1995, p.51.

LIV

O Universo é um cérebro infinito povoado de inúmeras imagens...
somos imagens evocadas pelo Amor e pelo Ódio! Ígneas figuras que desaparecem num rasto imenso de estrelas... Vultos de espuma, flutuando num mar de lágrimas, com olhos abertos para o sol... Perfis de aço puído, a reluzir, onde a luz grita rasgada de lado a lado...
Somos imagens de névoa e ferro, porque vivemos e existimos.
Vivemos como névoa e existimos como ferro. A vida é existência volatilizada... um vapor de metais elevados à temperatura de Delírio...
Mas a vida arrefece; a névoa que pairava no Infinito volta a condensar-se, e é peso bruto - pedra e ferro...

Teixeira de Pascoaes, "o bailado" in Obras Completas de Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Bertrand, 1973, Vol. VIII, Prosa II, p. 209.

O meu girassol  em especial para o Luís.:)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Poemas - 75


( António Teixeira Lopes, A infância de Caim, 1890, mármore, Museu Nacional Soares dos Reis, Porto )


O Crime

Quem não é filho de Caim?
Abel não deixou filhos.
Mas, em Caim, havia Abel.
E somos todos
A vítima e o carrasco
No mesmo ser...
A criatura e o criador
Na mesma fera,
O pecado e o remorso
No mesmo Deus.


- Teixeira de Pascoaes , in Últimos Versos, 1952.

domingo, 3 de março de 2013

"As Horas primordiais"

William-Adolphe Bouguerau, Flora e Zéfiro, 1875. 
Museu de Belas Artes de Mulhouse, França. 


XIII

Ao longe, vestidas de luz, passam as Horas primordiais. Passam as Ninfas e as Graças, bailando com Zéfiro.
Súbito, uma rajada negra as envolve... É um espectro de leão devorando flores, bramindo e fazendo tremer a terra, sob as patas sangrentas.
S. João vê o Monstro feroz na ilha deserta e ri - um riso todo em versículos tenebrosos, o riso do Apocalipse fundindo os templos e as estátuas, aquele riso que há-de abrasar o mundo e convertê-lo numa estrela!

Teixeira de Pascoaes, Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, VIII volume, Prosa II. O Bailado, Lisboa Livraria Bertrand, 1973, pp. 170-171.


sábado, 2 de março de 2013

"... uma espécie de Memórias"

Georges Seurat, O Eco, 1883-84
File:Seurat L'Echo.jpg

I
«Desejei falar de mim, neste livro, redigir uma espécie de Memórias. Fui escrevendo, escrevendo... Falei dos outros, afinal. Mas quem somos nós senão os outros?
Um homem é todos os homens que passaram por ele nesta vida e todas as coisas que ele viu. Nós somos o núcleo sensível e consciente de uma turba...»

Teixeira de Pascoaes, Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, VIII volume, Prosa II. O Bailado, Lisboa Livraria Bertrand, 1973, p.11.

A Margarida tem a passagem assinalada a bold no seu blogue Memórias e Imagens. Sempre tive vontade de a ler no contexto da obra. 
A Cláudia Ribeiro arranjou-me o livro O Bailado e pensei porque não ligá-lo ao Eco de Seurat, uma vez que são o eco das memórias de Teixeira de Pascoaes?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A palavra abysmo

António Carneiro - Retrato de Teixeira de Pascoais
Desenho, 1921
Amarante, Casa de Pascoaes

«Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.»
Teixeira de Pascoais

Retirada da epígrafe da nova editora abysmo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

PENSAMENTO(S) - 136

- Estátua do poeta, em Amarante.

O Homem é o espaço e o tempo ( os outros animais são apenas espaço ).

Teixeira de Pascoaes, Aforismos.

sábado, 7 de novembro de 2009

Ésquilo desceu das nuvens, nas asas de um relâmpago!


"Está hoje um dia de chuva tristíssima. Sou irmão destes dias pluviosos e cinzentos! O Henrique não imagina a intensidade da minha tristeza, em certos dias infernais! A minha sensibilidade nunca se adaptou a este mundo. Nem se adapta! Para que nascem as criaturas que não são deste mundo? Para fugirem dele violentamente? Vivemos num pesadelo! E não há modo de acordar! sinto-me bruto e desolado, querido Henrique! Paz aos brutos e aos mortos! Eu creio que nem os mortos dormem em paz! Os vivos não os deixam dormir! A tragédia cá de baixo continua-se lá acima! Ésquilo desceu das nuvens, nas asas de um relâmpago! "

(...) Joaquim [Teixeira de Pascoaes]
14 de Outubro de 1924

Uma Amizade, Cartas de Pascoaes a Anrique Paço D'Arcos, Lisboa: Vega, 1993, (1ª edição), (Selecção e pref. Maria do Carmo Paço D’Arcos), p. 30

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Pensamento Teixeiriano...

Peço desculpa por andar tão Teixeiriana mas estou a adorar este regresso a Pascoaes.
Pablo Picasso, Françoise. 1946.
Musée Picasso, Paris, France.
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"Graças a Deus, a infância não me deixa (…) Fui sempre uma criança que faz versos, e é capaz de estar um dia inteiro a ouvir um passarinho ou a contemplar duma janela os altos cerros do Marão! Fui sempre uma criança que faz versos – uma criança intimamente deslumbrada e desgostosa! Fui e sou ainda! E já lá vão quarenta e dois anos da minha vida!”.
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Pascoaes, In “Prólogo”, capítulo I,xObras Completas de Teixeira de Pascoaes, Lisboa: Bertrand, volume I, ,1973 (organização de Jacinto do Prado Coelho)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Uma Amizade - Cartas! 2.

Teixeira de Pascoaes em Amarante, não consegui saber o nome do escultor se alguém souber agradeço, desde já, a informação.

"Amarante
4 de Junho de 1924

Querido Poeta:

Não tem nada que me agradecer. Eu é qe lhe agradeço as suas palavras que vêm povoar a minha solidão. Trazem-me qualquer cousa da sua presença. Bem haja!
Se soubesse que já possuía o sempre, tinha-lhe enviado outro livro meu: As sombras, o Verbo Escuro, etc… Mas quando vier a esta sua casa (é pena ser tão tarde e por tão pouco tempo) levará consigo mais alguns livros meus. Se assim o desejar. Carinho que lhes dedica é a minha maior satisfação. (...)
Escrevo-lhe, cá fora, numa mesa de pedra a ouvir cantar a minha fonte. Uma tarde lindíssima doirando a imensa verdura da paisagem! Que pena não poder estar aqui! Sinto a falta da sua companhia. Sinto a falta de alguém que me saiba falar e a quem eu saiba falar - alguém que seja uma realidade ao pé de mim. As pessoas de família não as distingo do meu ser, não destroem, portanto a solidão em que vivo. Os poetas nasceram para os poetas. (...)
Abraço-o com a maior amizade"
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Uma Amizade, Cartas de Pascoaes a Anrique Paço D’Arcos, Lisboa: Vega, 1993, (1ª edição), (Selecção e pref. Maria do Carmo Paço D’Arcos), p. 16-17.

domingo, 1 de novembro de 2009

Uma Amizade - Cartas! 1.

Numa incursão à Feira do Livro encontrei este livro que narra a amizade entre dois poetas, dois pensadores, duas almas do sentir português. A viagem através dele leva-nos ao período que medeia entre as duas Guerras e à vida social portuguesa entre Amarante e Lisboa. O livro é delicioso. Invejo, no bom sentido, a amizade cultivada e a vivência que ele expressa. Apesar de ser mulher e de ter orgulho nisso, às vezes gostava de ser homem porque julgo que sabem viver melhor a amizade.



Uma Amizade, Cartas de Pascoaes a Anrique Paço D’Arcos, Lisboa: Vega, 1993, (1ª edição), (Selecção e pref. Maria do Carmo Paço D’Arcos), p. 7

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Auto-retrato(s) - 9

Gosto de Teixeira de Pascoaes e descobri este auto-retrato. Não sei se foi publicado na Revista A Águia. Alguém sabe?

Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Auto-Retrato

“há a sombra indefinida, o espectro mudo”, in Senhora da Noite, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Poeta, Teixeira de Pascoaes.

Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.

In Poesia de Teixeira de Pascoaes, Org. de Silvina Rodrigues Lopes, Lisboa: Editorial Comunicação, 1987.