Um duo.
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sábado, 14 de dezembro de 2019
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Teixeira de Pascoais
Teixeira de Pascoais, em Amarante.
Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?…
Tu levavas na mão
Um lírio enamorado;
E davas-me o teu braço
E eu, pálido, sonhava
[...]
Teixeira de Pascoais
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
quarta-feira, 26 de junho de 2013
" A casa", Viagem a Portugal
[A escrita leva a outra escrita como a palavra puxa palavra. Leituras à procura do Verão.]
A casa é igual a muitas que por estes lados se encontram: um pequeno solar, de corpo central e duas alas, casa às vezes nobre, outras vezes de burguês enobrecido, rurais ambos, dependentes da terra e da renda, e por isso duros no trato negocial. Não será esse o caso. Esta casa é de poeta. Viveu aqui Teixeira de Pascoaes, debaixo daquelas telhas morreu. (...)
Há um lanço de escadas simples, vasos de flores, beirais marcados de musgo e líquenes. É óbvio que o viajante está intimidado. Bateu à porta, espera que venham abrir. «falha a viagem se não entro.» É que esta casa não é museu, não tem horas de abrir e fechar, mas sem dúvida há um deus dos viajantes bem-intencionados, é ele que diz: «Entre», e quando se apresenta não é deus nenhum, mas sim o pintor João Teixeira de Vasconcelos, sobrinho de Teixeira de Pascoaes, que abre as portas de uma casa toda ela preciosa romã e vai acompanhando o viajante até ao fundo do corredor. O viajante está no limiar da parte da casa onde Teixeira de Pascoaes passou os últimos anos de vida. Olha e mal se atreve a entrar. Casas, lugares onde vive ou viveu gente, tem visto muitas. Mas não a cava de um lobo manso. São três salas dispostas em fiada, o sítio de dormir e trabalhar, a biblioteca, chaminé ao fundo, dizer isto é o mesmo que nada dizer. porque as palavras não podem exprimir a indefinível cor de barro que tudo cobre ou de que tudo é feito, a não ser que a origem da cor ambiente seja a luz da manhã, assim como dirão que súbita comoção é esta que enche de lágrimas os olhos do viajante.
José Saramago, Viagem a Portugal. Lisboa: Caminho, 1995, p.51.
LIV
O Universo é um cérebro infinito povoado de inúmeras imagens...
somos imagens evocadas pelo Amor e pelo Ódio! Ígneas figuras que desaparecem num rasto imenso de estrelas... Vultos de espuma, flutuando num mar de lágrimas, com olhos abertos para o sol... Perfis de aço puído, a reluzir, onde a luz grita rasgada de lado a lado...
Somos imagens de névoa e ferro, porque vivemos e existimos.
Vivemos como névoa e existimos como ferro. A vida é existência volatilizada... um vapor de metais elevados à temperatura de Delírio...
Mas a vida arrefece; a névoa que pairava no Infinito volta a condensar-se, e é peso bruto - pedra e ferro...
Teixeira de Pascoaes, "o bailado" in Obras Completas de Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Bertrand, 1973, Vol. VIII, Prosa II, p. 209.
O meu girassol em especial para o Luís.:)
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Poemas - 75
( António Teixeira Lopes, A infância de Caim, 1890, mármore, Museu Nacional Soares dos Reis, Porto )
O Crime
Quem não é filho de Caim?
Abel não deixou filhos.
Mas, em Caim, havia Abel.
E somos todos
A vítima e o carrasco
No mesmo ser...
A criatura e o criador
Na mesma fera,
O pecado e o remorso
No mesmo Deus.
- Teixeira de Pascoaes , in Últimos Versos, 1952.
domingo, 3 de março de 2013
"As Horas primordiais"
William-Adolphe Bouguerau, Flora e Zéfiro, 1875.
Museu de Belas Artes de Mulhouse, França.
XIII
Ao longe, vestidas de luz, passam as Horas primordiais. Passam as Ninfas e as Graças, bailando com Zéfiro.
Súbito, uma rajada negra as envolve... É um espectro de leão devorando flores, bramindo e fazendo tremer a terra, sob as patas sangrentas.
S. João vê o Monstro feroz na ilha deserta e ri - um riso todo em versículos tenebrosos, o riso do Apocalipse fundindo os templos e as estátuas, aquele riso que há-de abrasar o mundo e convertê-lo numa estrela!
Teixeira de Pascoaes, Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, VIII volume, Prosa II. O Bailado, Lisboa Livraria Bertrand, 1973, pp. 170-171.
sábado, 2 de março de 2013
"... uma espécie de Memórias"
Georges Seurat, O Eco, 1883-84
I
«Desejei falar de mim, neste livro, redigir uma espécie de Memórias. Fui escrevendo, escrevendo... Falei dos outros, afinal. Mas quem somos nós senão os outros?
Um homem é todos os homens que passaram por ele nesta vida e todas as coisas que ele viu. Nós somos o núcleo sensível e consciente de uma turba...»
Teixeira de Pascoaes, Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, VIII volume, Prosa II. O Bailado, Lisboa Livraria Bertrand, 1973, p.11.
A Margarida tem a passagem assinalada a bold no seu blogue Memórias e Imagens. Sempre tive vontade de a ler no contexto da obra.
A Cláudia Ribeiro arranjou-me o livro O Bailado e pensei porque não ligá-lo ao Eco de Seurat, uma vez que são o eco das memórias de Teixeira de Pascoaes?
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
A palavra abysmo
António Carneiro - Retrato de Teixeira de Pascoais
Desenho, 1921
Amarante, Casa de Pascoaes
«Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.»
Teixeira de Pascoais
Retirada da epígrafe da nova editora abysmo.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
PENSAMENTO(S) - 136
sábado, 7 de novembro de 2009
Ésquilo desceu das nuvens, nas asas de um relâmpago!
"Está hoje um dia de chuva tristíssima. Sou irmão destes dias pluviosos e cinzentos! O Henrique não imagina a intensidade da minha tristeza, em certos dias infernais! A minha sensibilidade nunca se adaptou a este mundo. Nem se adapta! Para que nascem as criaturas que não são deste mundo? Para fugirem dele violentamente? Vivemos num pesadelo! E não há modo de acordar! sinto-me bruto e desolado, querido Henrique! Paz aos brutos e aos mortos! Eu creio que nem os mortos dormem em paz! Os vivos não os deixam dormir! A tragédia cá de baixo continua-se lá acima! Ésquilo desceu das nuvens, nas asas de um relâmpago! "
(...) Joaquim [Teixeira de Pascoaes]
14 de Outubro de 1924
Uma Amizade, Cartas de Pascoaes a Anrique Paço D'Arcos, Lisboa: Vega, 1993, (1ª edição), (Selecção e pref. Maria do Carmo Paço D’Arcos), p. 30
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Pensamento Teixeiriano...
Peço desculpa por andar tão Teixeiriana mas estou a adorar este regresso a Pascoaes.
Pablo Picasso, Françoise. 1946.
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"Graças a Deus, a infância não me deixa (…) Fui sempre uma criança que faz versos, e é capaz de estar um dia inteiro a ouvir um passarinho ou a contemplar duma janela os altos cerros do Marão! Fui sempre uma criança que faz versos – uma criança intimamente deslumbrada e desgostosa! Fui e sou ainda! E já lá vão quarenta e dois anos da minha vida!”.
x
Pascoaes, In “Prólogo”, capítulo I,xObras Completas de Teixeira de Pascoaes, Lisboa: Bertrand, volume I, ,1973 (organização de Jacinto do Prado Coelho)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Uma Amizade - Cartas! 2.
Teixeira de Pascoaes em Amarante, não consegui saber o nome do escultor se alguém souber agradeço, desde já, a informação.
"Amarante
4 de Junho de 1924
Querido Poeta:
Não tem nada que me agradecer. Eu é qe lhe agradeço as suas palavras que vêm povoar a minha solidão. Trazem-me qualquer cousa da sua presença. Bem haja!
Se soubesse que já possuía o sempre, tinha-lhe enviado outro livro meu: As sombras, o Verbo Escuro, etc… Mas quando vier a esta sua casa (é pena ser tão tarde e por tão pouco tempo) levará consigo mais alguns livros meus. Se assim o desejar. Carinho que lhes dedica é a minha maior satisfação. (...)
4 de Junho de 1924
Querido Poeta:
Não tem nada que me agradecer. Eu é qe lhe agradeço as suas palavras que vêm povoar a minha solidão. Trazem-me qualquer cousa da sua presença. Bem haja!
Se soubesse que já possuía o sempre, tinha-lhe enviado outro livro meu: As sombras, o Verbo Escuro, etc… Mas quando vier a esta sua casa (é pena ser tão tarde e por tão pouco tempo) levará consigo mais alguns livros meus. Se assim o desejar. Carinho que lhes dedica é a minha maior satisfação. (...)
Escrevo-lhe, cá fora, numa mesa de pedra a ouvir cantar a minha fonte. Uma tarde lindíssima doirando a imensa verdura da paisagem! Que pena não poder estar aqui! Sinto a falta da sua companhia. Sinto a falta de alguém que me saiba falar e a quem eu saiba falar - alguém que seja uma realidade ao pé de mim. As pessoas de família não as distingo do meu ser, não destroem, portanto a solidão em que vivo. Os poetas nasceram para os poetas. (...)
Abraço-o com a maior amizade"
Abraço-o com a maior amizade"
x
Uma Amizade, Cartas de Pascoaes a Anrique Paço D’Arcos, Lisboa: Vega, 1993, (1ª edição), (Selecção e pref. Maria do Carmo Paço D’Arcos), p. 16-17.
Uma Amizade, Cartas de Pascoaes a Anrique Paço D’Arcos, Lisboa: Vega, 1993, (1ª edição), (Selecção e pref. Maria do Carmo Paço D’Arcos), p. 16-17.
domingo, 1 de novembro de 2009
Uma Amizade - Cartas! 1.
Numa incursão à Feira do Livro encontrei este livro que narra a amizade entre dois poetas, dois pensadores, duas almas do sentir português. A viagem através dele leva-nos ao período que medeia entre as duas Guerras e à vida social portuguesa entre Amarante e Lisboa. O livro é delicioso. Invejo, no bom sentido, a amizade cultivada e a vivência que ele expressa. Apesar de ser mulher e de ter orgulho nisso, às vezes gostava de ser homem porque julgo que sabem viver melhor a amizade.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Auto-retrato(s) - 9
Gosto de Teixeira de Pascoaes e descobri este auto-retrato. Não sei se foi publicado na Revista A Águia. Alguém sabe?
Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Auto-Retrato
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Poeta, Teixeira de Pascoaes.
PoetaQuando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.
Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.
Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.
Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.
In Poesia de Teixeira de Pascoaes, Org. de Silvina Rodrigues Lopes, Lisboa: Editorial Comunicação, 1987.
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