(...) Os emigrantes dos anos 60 eram muitíssimo mais pobres do que os actuais, saíam de um Portugal atrasado que não se compara ao Portugal de hoje, começavam a vida francesa em bairros de lata, mas tinham esperança, viam uma luz ao fundo do túnel, sabiam que podiam cavalgar uma epopeia de ascensão social - os filhos teriam uma vida melhor e até seriam franceses. Apesar de não conhecerem nem um décimo da miséria de 1960 nem um décimo da dureza do salto a pé, os emigrantes de hoje não têm qualquer réstia de esperança, não se sentem numa epopeia e até sabem que a vida dos filhos será pior do que a deles .
Os antigos emigravam para viver, os novos emigram para sobreviver . Repare-se que este não é apenas um retrato da emigração portuguesa. É, acima de tudo, mais um dos milhares de sinais do mal-estar que assombra esta Europa velha, decadente e sem perspectivas de futuro .
- Henrique Raposo , no
Expresso .
Muitas vezes discordo das análises do Henrique Raposo, mas neste caso sinto-me inclinado a concordar com ele apesar do enorme contraste de formação entre os emigrantes de hoje e os dos anos 50 e 60 .