«[...] Dickens. Foi o autor que [a minha mãe] me deu a ler nessa época e eu tomei-me por ele de uma paixão sem igual. Ela tinha começado por Oliver Twist e Nicolas Nickleby; o segundo, sobretudo, tratando dos costumes escolares na Inglaterra de então, agradava-me de tal modo que não me queria separar dele. Quando chegava ao final, recomeçava e relia tudo da primeira à última linha. Devorei-o assim três ou quatro vezes, talvez mais. "Mas, então, tu já o conheces, dizia ela. Não queres ler outro?" Mas quanto mais o conhecia, mais me apetecia mergulhar nele. [...] Por fim, ela decidiu dar-me David Copperfield, o livro de Dickens que ela preferia e que ela considerava como a sua obra mais bem sucedida.»
Elias Canetti - Histoire d'une jeunesse (1905-1922). Paris: Albin Michel, cop. 1980, p. 232-233