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quinta-feira, 7 de abril de 2022

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Leituras no Metro - 170

A revista Sábado encomendou a seis escritores seis romances que tenham algo a ver com a Grande Guerra. 

Lisboa: Glacial, 2014

Este, de Francisco José Viegas, foi o primeiro a sair. E o inspetor Jaime Ramos está de volta.

«Ainda há bengaleiros nestes lugares?»
«No inverno é útil. Dois euros por peça. [...]»
«Dois euros.»
«Tudo tem o seu preço, chefe.»
«Inspetora Olívia, inspetora Olívia, tenho medo que te façam ministra das Finanças.» (p. 18-19)

Achei este livro o mais fraco dos policiais de F. J. V. que li. E as referências à Grande Guerra - um antepassado que andou pelas Ardenas - um pouco enfiadas a martelo no enredo.
Aguardemos os próximos volumes: o seguinte penso que é da autoria de Luísa Beltrão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Relato do agente Olívia, por Francisco José Viegas

Um capítulo de um livro inédito que revisita o inquérito que ficou conhecido como do "Estripador de Lisboa"

O quarto cadáver demorou dois dias a ser encontrado mas era previsível que aparecesse daquela forma - já a iniciar a decomposição, como um farrapo abandonado. Também era uma mulher e o inspector olhou para mim e disse-me que era melhor chamar os peritos, um nome que damos aos comparsas, que é, por seu lado, o nome que damos a uma equipa que transporta o ácido sulfúrico com que elimina os cadáveres incómodos sem deixar rasto. Eu costumo dizer isso, mas não é verdade: nós temos o dever de conservar os cadáveres, de lhes dar um destino e de explicar o seu aparecimento. Ninguém traz ácido sulfúrico, ninguém faz desaparecer cadáveres incómodos, pelo menos na nossa profissão. Na verdade, nós fazemos aparecer cadáveres. A equipa com que eu trabalho é uma espécie de fábrica de mortos; não teríamos sentido se não fossem eles; não teríamos trabalho se as pessoas não se matassem; não existiríamos se não houvesse cadáveres; finalmente, não seríamos tão odiados se não houvesse fabricantes de cadáveres. Isso é uma explicação de que toda a gente desconfia e, nestas condições, é melhor contar as coisas desde o princípio. Mas o princípio é apenas o primeiro cadáver a que se junta o segundo, depois o terceiro e, finalmente, o quarto. Há-de aparecer o quinto, um dia, mas é só uma suposição.
«O homem a quem o médico chamara inspector levantou-se e ficou uns instantes a sacudir as pernas, olhando para a paisagem como se o Sol já se tivesse escondido atrás das montanhas. Havia uma mistura de cinza e azul sobre as colinas que desciam para a estrada que se via daquele barracão onde o lixo convivia com a manhã de Lisboa. A única coisa em desacordo com a paisagem era aquele corpo. O primeiro cadáver do dia, pensei, enquanto fechava o bloco de apontamentos em que tinha escrito muito pouco - apenas a hora a que tínhamos chegado, "10h35", e a hora a que o médico legista apareceu, "10h57". A princípio custa bastante ser meticulosa, mas depois é um hábito, à medida que os cadáveres aparecem e desaparecem. Geralmente aparecem, sobretudo se há alguém que gosta de retalhar mulheres, de lhes retirar as vísceras e de imitar Jack, o Estripador. Até agora, quatro mulheres mortas e preparadas para o catálogo - vísceras arrancadas, nada de vestígios de sexo, apenas um corpo retalhado e um rosto irreconhecível. O que aprendemos antes de entrar na brigada nunca nos convence de que as coisas são mesmo assim; primeiro o espectáculo, depois o cheiro, depois o torpor, finalmente a estatística. Quatro mulheres. O homem a quem o médico chamara inspector limitou-se a olhar em frente:
"Ainda não chegámos ao fim. Vai haver outro."
"Como sabe?"
"Está escrito."
Era um homem com ar cansado e ligeiramente ensonado, baixo, com uma calvície dianteira incipiente, e estava vestido como se fosse domingo de Páscoa. O livro continuava a persegui-lo: "O Estripador de Lisboa", de Luís Campos. Uns anos depois, os cadáveres descritos no livro apareciam-lhe na vida real. Um a um. Eu entrei a meio, como uma aprendiz. Ao fim de uma semana, o inspector deixou-me uma cópia do livro e apresentou-me ao médico que acompanhava o inquérito. Olhei para ele, para o médico, que guardou a tesoura, fechou a mala e acendeu um cigarro enquanto pontapeava uma pinha velha que sobrara do Outono anterior. Ou de outro qualquer.
"Veremos como chega a próxima", disse ele. Todos sabíamos que ia chegar.

sábado, 19 de novembro de 2011

Citações - 201

(...) Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa. Apareceram romances em grande quantidade, apareceu poesia, apareceram livros de história ou memórias. Não apareceu uma única peça digna desse nome. Até o Teatro Nacional D.Maria II, na impossibilidade de se ficar eternamente no Frei Luís de Sousa, apresenta geralmente traduções. De resto, não lhe falta só dramaturgia portuguesa. Também lhe falta público. Uma noite no D.Maria é uma noite soturna. Francisco José Viegas cortou o orçamento ( um milhão de euros ) deste longo equívoco. Foi inteiramente justo. E, quando Diogo Infante resolveu recorrer à intimidação, não hesitou em o demitir. Chegou a altura de acabar com esta ridícula que em Portugal se chama " teatro ".

- Vasco Pulido Valente, Teatro à portuguesa, no PÚBLICO de ontem.

Apesar dos exageros do costume, há algo com que concordo: a escassez da dramaturgia portuguesa. Duas ou três revelações nas últimas décadas ( J.Lucas Pires, José Maria Vieira Mendes, por exemplo ), mas realmente a grande maioria do teatro que se vai fazendo é traduzido. Pensem nas últimas peças que viram.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Hoje na FNAC Chiado

Depois de uma festa de lançamento na muito in LX Factory no mês passado, realiza-se hoje uma apresentação mais singela do último romance de Francisco José Viegas, O mar em Casablanca, na Fnac-Chiado. É às 15h30.

domingo, 22 de março de 2009

Citações - 16 : Ainda António Botto


" (...) O país muito macho e alazão ( mas muito bicha às escondidas ) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. "
- Francisco José Viegas, in A ORIGEM DAS ESPÉCIES, 19/3/ 2009.

terça-feira, 17 de março de 2009

Comunicação noutros tempos ...

Este surpreendente recorte faz parte de uma série publicada por Francisco José Viegas, no blogue A ORIGEM DAS ESPÉCIES, acessível desde logo nas nossas "afinidades electivas".
Fica a curiosidade: que teria acontecido ao Rev.Joaquim Rebelo ? Espero que nada de grave.