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quinta-feira, 7 de abril de 2022

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A frase do ano

«Greta Thunberg é a Joacine Katar Moreira da Escandinávia».
Miguel Sousa Tavares



sábado, 12 de maio de 2018

Marcadores de livros - 1048

Vi que os alunos da Escola Secundária da Sertã faziam uns marcadores sobre o autor do mês. Em abril de 2010, o escolhido foi Manuel Alegre. Os autores escolhidos anteriormente foram:
Infelizmente não tenho nenhum destes marcadores.

Parabéns a Manuel Alegre que faz hoje 82 anos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Citações



(...) do pudor reverencial com que alguma esquerda ainda hesita em classificar Estaline como aquilo que ele, sobretudo, foi : um assassino sádico e irracional. De facto, a grande diferença é que Hitler foi um psicopata e um assassino de massas, mas em obediência a um programa político anunciado no Mein Kampf e que os alemães sufragaram, enquanto que Estaline foi um assassino sem causa, que se arvorou como grande líder sobre o heroísmo dos russos e aquilo a que Pasternak um dia chamou " a nossa maldita capacidade de resistência ao sofrimento " . Mas até nos pormenores reveladores ele não ficou atrás de Hitler : também perseguiu e matou judeus, ciganos e homossexuais. O grande problema moral que Estalina coloca a uma certa esquerda é que a biografia de Montefiore não revela nada que não se soubesse já há muito tempo. E, durante todo esse tempo, duas gerações de intelectuais e militantes de esquerda não quiseram ver a verdade que bradava aos céus. A jornalista francesa Dominique Desanti, ex-militante do PCF, conta essa história num livro justamente chamado " Les Staliniens " , publicado há mais de 30 anos. Já toda a gente sabia tudo, então : Sartre, Picasso, Aragon, Moravia e tantos outros. Todos sabiam e todos calaram. Aos que estão vivos, talvez lhes faça bem recordarem.

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso do passado Sábado .

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Citações


(...) Durante mais de quatro penosos anos, o Estado sugou a economia - não para pagar os custos da sua inadiável reforma, mas para poder continuar igual a sempre . Quando a crise rebentou, o Estado gastava 50 % de toda a riqueza produzida no país , hoje gasta 52 % . Como sempre aconteceu desde o século XVI, o Estado foi mais forte do que a nação . E eu, pessoalmente, não vejo nada de novo no horizonte, no ano e nos anos que aí vêm. Oxalá o petróleo continue ao preço impensável de menos de 40 euros, oxalá as taxas de juro para nos continuarmos a endividar permaneçam próximas do zero, oxalá o BCE continue a despejar dinheiro a rodos na economia . Assim, iremos sobreviver mais uns tempos . Mas, numa conjuntura económica externa tão favorável como nunca visto, não iremos, seguramente, aproveitar para arrumar a casa e começar a matar de vez os demónios de Alcácer-Quibir .

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso da semana passada .

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Citações


(...) Lendo o acordo, compreende-se por que razão o PCP o assinou : para, através dele, garantir ou readquirir a manutenção da influência da CGTP no sector público empresarial e, em especial, no crucial sector dos transportes públicos - o exército privado da CGTP e do PCP. António Costa, certamente ciente do que fazia, deu-lhes de bandeja o recuo nas privatizações, a garantia do pagamento da continuada ruína dos transportes públicos e até o regresso de indecentes privilégios que mesmo o TC tinha deixado extinguir, como a " reposição integral " do complemento de reforma nas empresas estatais, que pode chegar a 70% da pensão normal . Assim se garante a disponibilidade de uma tropa capaz de paralisar o país quando quer e assim se garante a morte à nascença de qualquer tímida tentativa de reformar a administração pública . Coisa que, aliás, nunca esteve nos planos de Costa . O seu plano é outro : chegar ao poder a qualquer preço, e o país que aguente. Quanto ao histórico PS, terá, mais tarde ou mais cedo, o que mereceu .

- Miguel Sousa Tavares , no Expresso do passado Sábado .

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Citações



(...) O desemprego e a emigração dos jovens é, para mim, o problema nº 1 de Portugal, neste momento. Basta atravessar as aldeias do interior, ver os velhos à porta das casas e dos cafés e alguns, raros, jovens e crianças, para perceber que o país caminha para uma tragédia social, económica e humana de proporções inimagináveis. O nosso problema principal não são os velhos, são os novos; não é sequer o dia de hoje, é o dia de amanhã. Não acho que nos seja permitido continuar a assistir a isto de braços cruzados. Nem acho que a solução esteja ao alcance de um governo, qualquer que ele seja, ou sequer que a solução seja apenas política. Se nos resta alguma vontade de pensar no futuro, seria necessário que o país inteiro se unisse em busca de um princípio de resistência a esta fatalidade. Todos : todos os partidos políticos, sem desculpas de qualquer espécie; os sindicatos, as organizações patronais, as universidades, as autarquias, a Igreja, as Fundações, todos os que podem e devem ajudar. Enquanto é tempo.

- Miguel Sousa Tavares, Este país não é para jovens, no Expresso do passado sábado.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A minha pilha de livros - 2

Lisboa: Clube do Autor, 2013

Portugal, século XXI, a corrupção nas câmaras municipais, nas empresas e na política. Mas, no enredo, também há gente que não se deixa corromper.
Um bom romance que mistura ingredientes que não nos são estranhos. Com um dos narradores a ler Tolstoi. :)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Guerra e Paz

Portinari - Guerra e Paz, murais, 1952-1956
Nova Iorque, ONU

«Ninguém devia morrer sem ler Guerra e Paz.»
Miguel Sousa Tavares hoje numa entrevista à RTP1

sábado, 25 de maio de 2013

Humor pela manhã ...

Na sequência da queixa de Cavaco contra Miguel Sousa Tavares, os palhaços profissionalizados reagiram. Aqui está o comunicado. Isto promete...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Novidades


Chega esta semana às livrarias o novo romance de Miguel Sousa Tavares, tendo como pano de fundo uma aldeia do Alentejo interior, a caminho da desertificação mais completa, e a corrupção política. Uma edição do Clube do Autor.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Citações



(...) Mesmo com um governo italiano arrastando ainda e uma vez mais o fantoche de Berlusconi, mesmo com uma França chefiada pelo triste Hollande ou uma Espanha chefiada pelo incapaz Rajoy, mesmo com a Grécia de Samaras, a Europa do sul está finalmente a mover-se, por instinto de sobrevivência. Sem perder tempo, Lette foi direito à origem do mal : a Berlim e a Bruxelas. Ele não fará abalar Angela Merkel nas suas convicções e interesses próprios e não conseguirá também fazer com que Durão Barroso deixe de oscilar conforme o vento, até ficar tonto. Mas, se conseguir unir o sul e juntar-lhe outros povos acorrentados pelos credores e condenados à miséria, enquanto que o norte prospera sobre a ruína alheia, de duas uma: ou a Europa se reconstrói como uma livre associação de Estados livres ou implode às mãos da Alemanha. Qualquer das soluções é melhor do que esta morte lenta a que nos condenaram.
É claro que nada disto dá que pensar a Vítor Gaspar, que vem de outro planeta e para lá caminha, nem a Passos Coelho, que estremece de horror só de pensar que alguém possa desafiar a autoridade da sua padroeira alemã. Nisso também tivemos azar: calhou-nos o pior país para viver esta crise. Mas este Governo vai rebentar, tem de rebentar. Porque a resposta à pergunta feita acima é não. Não, um homem sozinho não pode dar cabo de um país com quase nove séculos de história.

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso do passado sábado.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Quase na hora de...

... almoço, e assim aqui fica o mais recente livro de Miguel Sousa Tavares: um livro de cozinha. Não costumo comprar tal literatura, até porque faço pouco uso, por incompetência, dos vários que tenho, mas vou dar uma espreitadela a este e logo decidirei.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Citações - 188


O golfe de Palmares, em Lagos, só é viável com um projecto de urbanização que contempla hotéis e vivendas em cima da Ria de Alvor e que, para já, exigiu a apropriação de uma estrada nacional e de um pedaço de praia, que se julgava público. O Belenenses só é viável com outro projecto de urbanização em cima do Estádio do Restelo - oferecido pela Câmara ao clube para actividades desportivas. E a Marina de Cascais, que era essencial para o turismo local, afinal só é viável também com um projecto de urbanização que, entre outras ideias de génio, prevê uma torre de 90 metros de altura. Já vimos este filme tantas vezes que até custa perceber como é que ainda nos tomam por parvos. A si, preocupa-o a sobrevivência do golfe de Palmares, do Belenenses ou da marina de Cascais?

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso.

Realmente já não há paciência para estes projectos/investimentos que só depois de estarem concretizados no terreno, alguns há anos, se verifica que só são "viáveis" com sacrifício de bens públicos, no caso os bens ambientais.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Citações - 176


(...) O que se pode fazer? É simples: que a política tome, outra vez, conta da economia. É assim que deve ser e não o inverso. Quando vejo um qualquer vice-presidente da Moody's, um paquistanês formado em Harvard, cristão-novo do capitalismo, a dissertar sobre a ruína da Grécia, no tom displicente de quem fala sobre um cliente mal-comportado, fico a pensar na lógica e na ética desta sacrossanta economia de mercado em que a economia real é roubada todos os dias pela especulação financeira e pela ditadura dos seus sagrados mercados. Pois, que se lixem os  mercados, os seus tão sensíveis clientes e os abutres que velam tão desveladamente pelos seus interesses! Ou a Europa consegue ser mais do que isso ou é cada um por si e os demónios novamente à solta.

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso.

terça-feira, 22 de março de 2011

Citações - 156 : A crise política

(...) Mas o que agora ocupa a nossa imprensa é o drama insubstituível que o país vive de saber se Sócrates e Passos Coelho passam do clímax do "agarrem-me se não mato-o" para a solução e clarificação dos problemas do país: crise, eleições e os que nos terão de emprestar dinheiro para continuarmos a respirar satisfeitos e acalmados por anteciparem três meses garantidos de paralisia aqui, sem governo, mas com muita animação, bifanas e sardinhas, discursos empolgantes de feiras e multidões de deolindos jurando por sua honra exterminar de vez toda a classe política. Enfim, um Portugal sem governo, tal como desejado por tantos e tão necessário agora,
Dentro de cinco anos, dez no máximo, o Japão estará reconstruído de toda esta devastação que o destino lhe reservou. Mas nós estaremos na mesma ou pior. Tudo o resto não interessa à história.

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso do passado sábado.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Citações - 123


Tomem nota da data: 29 de Setembro de 2010. O dia em que foi declarada a falência oficiosa do Estado Português, tal como nos habituámos a vê-lo.


Miguel Sousa Tavares
, a propósito do Plano de Austeridade anunciado por Sócrates no passado dia 29, in Certidão de óbito, no Expresso.

sábado, 22 de maio de 2010

Citações - 89 : Topete

(...) Topete é também ver o Dr.João Rendeiro ( que levou o BPP à falência e depois veio dizer que não tinha nada a ver com aquilo, pois que era "apenas" presidente do seu Conselho de Administração ) participar num fórum sobre "economia e competitividade" e perorar contra as medidas do Governo. Ah, país de brandíssimos costumes!

- Miguel Sousa Tavares, no Expresso de hoje, pág.09.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MST regressa às grandes reportagens

Enquanto decorrem as conversações acerca do regresso às bancas da revista Grande Reportagem (previsto para o primeiro trimestre de 2010), Miguel Sousa Tavares, antigo director da GR, vai a partir do próximo dia 12 apresentar a primeira grande reportagem saida da secção com o mesmo nome no jornal "i". A secção é coordenada pelo profissional que escolhe os temas, os jornalistas e os fotógrafos a quem irá entregar a realização das peças. Em média os trabalhos terão entre 4 a 6 páginas, sendo o tema esplanado durante três edições seguidas do jornal (sexta-feira, sábado e segunda-feira). Esta semana arranca a campanha de comunicação da nova secção do "i", presente em meios externos, como a Visão. Se eu já gostava dos conteúdos do jornal, a partir de agora vai ser ainda melhor.
A propósito, para os apreciadores de comida indiana (como é o meu caso), a edição online de hoje do "i" informa onde se pode provar a melhor chamuça de Lisboa: no restaurante India Gate, na Rua dos Sapateiros, bem no coração da baixa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Verdades inconvenientes







Miguel Sousa Tavaresem discurso directo e sobre algumas verdades inconvenientes:







Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a
Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de
manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa.
Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em
contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre
Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto
esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país
onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o
que vê:

- É sempre assim, esta auto-estrada?

- Assim, como? Deserta, magnífica, sem trânsito?

- É, é sempre assim.

- Todos os dias? Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.

- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram? Porque havia dinheiro
para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento
era isto.

- E têm mais auto-estradas destas? Várias e ainda temos outras em
construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S.
Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns
quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos
ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança
de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.

- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada
nacional está cheia de camiões? Porque assim não pagam portagem.

- E porque são quase todos espanhóis? Vêm trazer-nos comida.

- Mas vocês não têm agricultura? Não: a Europa paga-nos para não ter.
E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.

- Mas para os espanhóis é? Pelos vistos...

Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:

- Mas porque não investem antes no comboio? Investimos, mas não resultou.

- Não resultou, como? Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a
modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas
não resultou.

- Mas porquê? Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não
'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de
telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto
e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em
qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro
e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os
anos.

- E gastaram nisso uma fortuna? Gastámos. E a única coisa que se
conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a
viagem há cinquenta anos...

- Estás a brincar comigo!

- Não, estou a falar a sério!

- E o que fizeram a esses incompetentes? Nada. Ou melhor, agora vão
dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV:
Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de
fazerem outro no Algarve e outro no Centro.

- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo? Do ponto mais a
norte ao ponto mais a sul, 561 km.

Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.

- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto? Não, pára em
várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára
em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles
para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital
Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada
Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de
Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o
futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.

- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois
volta para trás e entra em Lisboa?

- Isso mesmo.

- E como entra em Lisboa? Por uma nova ponte que vão fazer.

- Uma ponte ferroviária? E rodoviária também: vai trazer mais uns
vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.

- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!

- Pois é.

- E, então? Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.

Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.

- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a
auto-estrada está deserta...

- Não, não vai ter. Não vai? Então, vai ser uma ruína!

- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e
para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A
exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo -
porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros
que cheguem para o justificar.

- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!

- E vocês não despedem o Governo? Talvez, mas não serve de muito:
quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando
era governo...

- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem
um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?

- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.

- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?

- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV. Como?
Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de
ter?

- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.

Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que
ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:

- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?

- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a
uns 50 quilómetros de Lisboa.

- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro
da cidade, e fazer um novo?

- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.

- Não me pareceu nada...

- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai
cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das
low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.

- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é
deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as
low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum
disponível?

- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai
ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do
Sul para a Europa: um sucesso garantido.

- E tu acreditas nisso?

- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes
o que é aquilo?

- Um lago enorme! Extraordinário!

- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.

- Ena! Deve produzir energia para meio país!

- Praticamente zero.

- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!

- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.

- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para
beber, serve para regar - ou nem isso?

- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o
perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a
agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora,
porque há água a mais.

- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?

- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que
é o que nós fazemos mais e melhor.

Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e
virou-se para me olhar bem de frente:

- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?

- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse
mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a
fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a
ser pobres e enlouqueceremos de vez.

Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no
assento. E suspirou:

- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para
viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!