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domingo, 14 de agosto de 2022

Os loucos anos 20 em Lisboa


No Palácio Pimenta (Museu de Lisboa) está patente esta exposição até 11 de dezembro, das 10h00 às 18h00. Aos domingos até ás 14h00 para os residentes em Lisboa.
Vão ver que a exposição é muito boa e está muito bem montada.

Stuart Carvalhais, 1924
Perspetiva geral do Bairro Social Arco do Cego, 1919
Arq. Adães Bermudes
A primeira pedra do Bairro Social Arco do Cego foi lançada em 27 abr. 1919, mas o bairro só foi inaugurado em 10 mar. 1935.

Planta do Bairro do Restelo.
Arq. Porfírio Pardal Monteiro, 1921.


Planta geral da rede do serviço de carros elétricos.
Rádio com antena Radiola-16, 1924.

Frigorífico General Electric.
Máquinas fotográficas.

Este edifício, no início da Rua D. Pedro V, esteve previsto para ser hotel e um casino. Hoje pertence à Misericórdia.




O bailarino Francis Graça. Fotos de Manuel Alves de San Payo, ca 1925.


Roleta do casino da Ericeira, anos 1920.




Aguarelas de Stuart Carvalhais, 1927
Cartaz da autoria de Fred Kradolfer, 1928.

O fim de uma era e o início de outra que não deixou boas recordações.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Verdades que só se escrevem aos amigos

As cartas, assim como os livros e as fotografias com dedicatória manuscrita, são do mais precioso que existe para se conhecer a vida de uma pessoa. Em 99% dos casos nunca são escritas para serem lidas por terceiros. Fazem parte dos segredos que duas pessoas trocam. Hoje só existem as smm, que se apagam e desaparecem.
Nesta foto que Botto ofereceu, a um hoje desconhecido destinatário, encontra-se escrita uma mensagem verdadeira, mas que poucos admitem escrever sobre si.
O homem cede ao desejo como a nuvem cede ao vento.

Neste caso roubou a foto e os versos à 2.ª edição das suas Canções.


ANDAVA A LUA NOS CÉUS
António Botto


Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho
Ele, olhava-me cismando;

E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu ombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento
Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinho..., até cair.


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Aviso por causa da moral

Lisboa: Typ. Annuario Commercial, 1923, 1 folha

«O Aviso por causa da moral (Lisboa, 1923) - manifesto assinado por Álvaro de Campos  distribuído em folha solta pelas ruas de Lisboa - foi escrito em resposta à Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, organização de feição católica e conservadora, que, a propósito da reedicação das Canções de António Botto, emias proximamente, da Sodoma Divinizada de Raul Leal, desencadeou uma campanha "moralizadora" com apelos às autoridades para que exercessem, como efectivamente vieram a exercer, repressão sobre tal "literatura de sodoma". Significativo o modo como é datado - "Europa, 1923" - este manifesto dirigido aos "moços da vida das escolas" que "intrometem-se com os escritores que não passam opela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam".»
João Rui de Sousa
In: Fernando Pessoa: Fotobibliografia: 1902-1935. Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda: Biblioteca Nacional, 1988, p. 100

2.ª ed. muito aum. Lisboa: Olisipo, 1922
Lisboa: Olisipo, 1923
(A Olisipo era uma editora de Fernando Pessoa)

E o que dizia o manifesto da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, que João Rui de Sousa refere? O seguinte, à boa maneira inquisitorial:
«Não vimos tratar de política, nem trazemos também um novo programa de partido, pronto a salvar o país.
«Simplesmente, na nossa função de trabalhadores do Espírito e de soldados da Ciência, entendemos que é chegado o momento do erguermos a nossa voz para ser escutada por todos aqueles que a possam compreender.
«A situação de Portugal é desgraçada.
«Profundamente e totalmente.
«A nós, fere-nos mais de perto, na nossa sensibilidade, a parte moral e intelectual da derrocada que nos rodeia.
«É dela que vimos falar.
«Não queremos agora aprofundar causas ou apontar responsabilidades. Basta que constatemos os factos e apontemos o caminho a seguir.
«De dia para dia o mal é mais fundo e mais avassalador. Derrubaram-se todas as fronteiras do espírito entre a inteligência e a loucura, entre a beleza e a perversão.
«Mascarados em mil hipocrisias literárias, em pseudofilosofias extravagantes, encobrindo a sua animalidade em frágeis farrapos de escolas inverosímeis, todos os baixos instintos humanos, numa liberdade desvairada, se erguem, alastram, dominam como flores de pântano no crepúsculo triste duma terra abandonada.
«É contra essa dispersão, contra essa inversão da inteligência, da moral e da sensibilidade, que nós gritamos numa revolta sagrada da nossa dignidade de homens, o protesto vibrante dos que não deixam cerrar os seus olhos à luz da Verdade.
«Já não se paira, por desgraça, no campo das atitudes snobs e literárias. Atingiu-se a última abominação, aquela que nas tradições bíblicas fazia chover o fogo do céu.
«Urge a reacção pronta e implacável. À frente dela se levanta a nossa mocidade forte e resoluta. Nas nossas mãos brandimos o ferro em brasa que cicatriza as chagas.
«A quem manda nós apontamos hoje a necessidade imperiosa de fazer justiça. É preciso que os livreiros honrados expulsem das suas casas os livros torpes. É necessário que os adeptos da infâmia caiam sob a alçada da lei, que um movimento enérgico de repressão castigue em nome do bem público.
«Que a justiça venha e implacável!»

Mas esta polémica não ficou por aqui. Teve seguimento.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!

António Botto, in 'Canções'

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Curiosidades Estéticas

No seguimento do post de Jad aqui deixo um dos poemas de António Botto que gosto.

Curiosidades Estéticas

O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

António Botto, Curiosidades Estéticas (1924) poema 24 in Canções e Outros Poemas, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2008

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

António Bôtto



Cemitério Alto de São João, Lisboa
Passaram este ano 50 anos sobre a Morte de António Bôtto. Viu a sua vida transformada por haver quem tivesse preconceitos. Morreu no Brasil a 16 de Março de 1959.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Botto no Queer


No âmbito do Queer Lisboa 13, decorre hoje uma sessão de poesia em que o actor Luís Filipe Costa lerá poemas de António Botto, seguindo-se uma conversa informal com o crítico e também poeta Eduardo Pitta a propósito da vida e da obra de António Botto, neste cinquentenário da sua morte.

- Cinema São Jorge, Avenida da Liberdade, 21h.

domingo, 22 de março de 2009

Citações - 16 : Ainda António Botto


" (...) O país muito macho e alazão ( mas muito bicha às escondidas ) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. "
- Francisco José Viegas, in A ORIGEM DAS ESPÉCIES, 19/3/ 2009.

segunda-feira, 16 de março de 2009

António Botto

Um poeta da minha adolescência...


António Botto faleceu há 50 anos.

Explica-me tu se podes
Num movimento de calma,
Por que razão
Se te beijo num desvairo de prazer
Às vezes sou todo corpo
E às vezes sou todo alma?

António Botto
In: As canções. Lisboa: Ática, 1975, p. 330

Vou explicar o título deste post: António Botto foi, com Sebastião da Gama e Jacques Prévert, um dos primeiros poetas que li por puro prazer.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Os meus poemas -32

ADOLESCENTE

12.


Dizes que vens, e afinal,
Recebo cartas.
Palavras, -
E uma pérola de cravo
Que fora vermelha e linda.
Desengana-me - sou forte.
Quero entregar-me,
Sentir
Outro corpo que pretenda
Insinuar-se,
- Vibrar! ...
Dar tudo quanto for vida
E não ser como tens sido
- Coisa fosca, diluída...


Dizer ao amor que venha
Mais tarde, amanhã, um dia,
-É matar
razão porque se vive
Dando à morte o doido avanço
Que ela
- Não conquistou, - e é morrer
Na mais triste fantasia.

António Botto
( 1897- 1959)