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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Marcadores de livros - 3004

Verso e  everso.

Verso e reverso.

Revolução

Como casa limpa 
Como chão varrido 
Como porta aberta 

Como puro início 
Como tempo novo 
Sem mancha nem vício 

Como a voz do mar 
Interior de um povo 

Como página em branco 
Onde o poema emerge 

Como arquitetura 
Do homem que ergue 
Sua habitação 

Sophia de Mello Breyner Andresen
27 de abril de 1974

Verso e reverso.

Versos e reversos.

Verso e reverso.

Verso e reverso.

Reverso e verso.

Verso e reverso.

Verso e reverso.

Reverso e verso.

Reverso e verso.


Verso e reverso.





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Um dia feliz para todos!

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Esperar

Sō Shiseki (1715-1786) - Dois pássaros

Que me resta senão esperar
em aves sentadas no paraíso?

João Rui de Sousa

domingo, 19 de junho de 2022

In memoriam João Rui de Sousa



INTERROGAR

Se saudosos corpos de alegria aqui cantassem,
quem seria eu?

Qual seria a sanha e mesmo o grito 
saído em arco meu?

João Rui de Sousa

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ao rigor em que se vai


os percursos, as estações, um livro de João Rui de Sousa, numa edição muito bonita com desenhos de Justino Alves.
Obrigada, MR



ao rigor em que se vai 

A rosa murcha
ao contacto da régua.

O poente perde-se
visto por um espelho.

Só as mãos e os olhos
são medida exacta

para os encontrar
- filtro verdadeiro!

João Rui de Sousa, os percursos, as estações. Lisboa: Edição ara-galeria de arte/publicações Dom Quixote, p. 27.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Um poeta escreve sobre outro poeta

Leiria: Ed. Diferença, 1998

Um livro que reúne textos críticos que João Rui de Sousa dedicou à obra de Ramos Rosa, desde Viagem através duma nebulosa (1960) até Figuras solares (1996). Muito útil - se assim posso dizer - para melhor entender a poesia de António Ramos Rosa.

terça-feira, 20 de março de 2012

Do último livro de João Rui de Sousa

Lisboa: Dom Quixote, 2008

Ossos do ofício

É nestes dias de sol (de sul)
que eu trabalho.

Mesmo quando as noites ferem
e são geladas lanças apontadas
ao ouro melhor do coração;
mesmo quando as manhãs nos dividem
e se tornam pétalas de mágoa acumulada
em torno do pescoço;
mesmo quando o amor se desmorona
e é um bloco de sono, coagulado.

É nesses dias de sol (de sul)
que eu trabalho.

Mesmo quando a escuridão se torna
um passatempo quase inútil
ou apenas um resto de luz mais esbatida;
mesmo quando as mais enegrecidas lavas
se colam ao peito como agrestes dunas;
mesmo quando o silêncio se transforma
em maremoto súbito ou nos faz acordar
novos rasgões na alma. 

Repeti: é nestes dias de sol (de sul)
que eu trabalho.

Mesmo quando apenas sombras
crescem. E a dor é já um sal
irrecusável.


A utilidade dos poetas

Os poetas são pontes
para numerosos recados.

Ora eles (construindo-se) constroem
com o eclodir das suas imagens e metáforas,
oásis e palácios reinventados; ora eles,
alimentando-se com a rudeza da pedra,
ou mesmo com caliça e enxofre,
abrem espaço para recintos calamitosos,
para o zimbro do sofrimento.

Algumas vezes, tropeçando num qualquer acaso
de coloridas giestas, chegam a brincar
com o pico dos cardos ou com o ardor das urtigas,
transformando-se em ramos ou colares
de confiança e euforia; noutras alturas, marcando
encontros ocasionais com a proximidade da morte,
propõem-se participar, com a intrepidez
de um acrobata, no circo dos seus
mais arriscados limites.

Ora eles serão soldados que, numa demanda
de sul para norte dos poentes, vão encontrar
as grutas onde o desespero é um cão que realmente
morde; ora então, com o eventual
esplendor das suas frases, ferram as marcas
de um orgulhoso comboio a riscar as relvas
e as paisagens com o triçho implacável
do seu rodado.

Em certos momentos eles poderão crescer
bem por dentro das suas próprias prateleiras
e armários, no porão mais obscuro de um navio
muito íntimo; noutros instantes, todavia,
eles podem, com palavras de alvor
e de resistência, ajudar a erguer as traves
de uma cidade aberta, de uma pátria livre.

Sim, os poetas serão sempre prestantes
nesses e noutros variados timbres.

João Rui de Sousa
(p. 130-131, 135-136)

Porque ontem foi atribuído um prémio a João Rui de Sousa e porque amanhã é o Dia Mundial da Poesia.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Poeta João Rui de Sousa distinguido com prémio Vida Literária 2012


Depois de amanhã a Primavera!

À Isabel e ao António


A dadivosa mãe que em tudo existe
para além do só remédio só palavra
um cobertor de esperanças para o medo
três girassóis lindíssimos desdobráveis

A boca na boca e as lágrimas
mais azuis de brinquedos e de imensos
lençóis de inventar os dias límpidos
A dadivosa mãe as tardes quentes

Florescer a noite de agasalhos
de corações em pé no destemor
alimentar as órbitas fraternas
de iluminar raízes dança pura

Ó música sem tédio dos cabelos
do teu olhar do cheiro dos reflexos
desta razão solar! Em caule e rama
- ó dadivosa mãe – tudo desperta!

João Rui de Sousa
(In: Corpo terrestre)


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Aviso por causa da moral

Lisboa: Typ. Annuario Commercial, 1923, 1 folha

«O Aviso por causa da moral (Lisboa, 1923) - manifesto assinado por Álvaro de Campos  distribuído em folha solta pelas ruas de Lisboa - foi escrito em resposta à Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, organização de feição católica e conservadora, que, a propósito da reedicação das Canções de António Botto, emias proximamente, da Sodoma Divinizada de Raul Leal, desencadeou uma campanha "moralizadora" com apelos às autoridades para que exercessem, como efectivamente vieram a exercer, repressão sobre tal "literatura de sodoma". Significativo o modo como é datado - "Europa, 1923" - este manifesto dirigido aos "moços da vida das escolas" que "intrometem-se com os escritores que não passam opela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam".»
João Rui de Sousa
In: Fernando Pessoa: Fotobibliografia: 1902-1935. Lisboa: Imp. Nac.-Casa da Moeda: Biblioteca Nacional, 1988, p. 100

2.ª ed. muito aum. Lisboa: Olisipo, 1922
Lisboa: Olisipo, 1923
(A Olisipo era uma editora de Fernando Pessoa)

E o que dizia o manifesto da Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, que João Rui de Sousa refere? O seguinte, à boa maneira inquisitorial:
«Não vimos tratar de política, nem trazemos também um novo programa de partido, pronto a salvar o país.
«Simplesmente, na nossa função de trabalhadores do Espírito e de soldados da Ciência, entendemos que é chegado o momento do erguermos a nossa voz para ser escutada por todos aqueles que a possam compreender.
«A situação de Portugal é desgraçada.
«Profundamente e totalmente.
«A nós, fere-nos mais de perto, na nossa sensibilidade, a parte moral e intelectual da derrocada que nos rodeia.
«É dela que vimos falar.
«Não queremos agora aprofundar causas ou apontar responsabilidades. Basta que constatemos os factos e apontemos o caminho a seguir.
«De dia para dia o mal é mais fundo e mais avassalador. Derrubaram-se todas as fronteiras do espírito entre a inteligência e a loucura, entre a beleza e a perversão.
«Mascarados em mil hipocrisias literárias, em pseudofilosofias extravagantes, encobrindo a sua animalidade em frágeis farrapos de escolas inverosímeis, todos os baixos instintos humanos, numa liberdade desvairada, se erguem, alastram, dominam como flores de pântano no crepúsculo triste duma terra abandonada.
«É contra essa dispersão, contra essa inversão da inteligência, da moral e da sensibilidade, que nós gritamos numa revolta sagrada da nossa dignidade de homens, o protesto vibrante dos que não deixam cerrar os seus olhos à luz da Verdade.
«Já não se paira, por desgraça, no campo das atitudes snobs e literárias. Atingiu-se a última abominação, aquela que nas tradições bíblicas fazia chover o fogo do céu.
«Urge a reacção pronta e implacável. À frente dela se levanta a nossa mocidade forte e resoluta. Nas nossas mãos brandimos o ferro em brasa que cicatriza as chagas.
«A quem manda nós apontamos hoje a necessidade imperiosa de fazer justiça. É preciso que os livreiros honrados expulsem das suas casas os livros torpes. É necessário que os adeptos da infâmia caiam sob a alçada da lei, que um movimento enérgico de repressão castigue em nome do bem público.
«Que a justiça venha e implacável!»

Mas esta polémica não ficou por aqui. Teve seguimento.

sábado, 30 de abril de 2011

A nossa vinheta

Assinalando o almoço do 3.º aniversário do Prosimetron, hoje, lá para as bandas do Cais do Sodré.



Ca 1910.


CAIS DO SODRÉ

É entre um marinheiro e uma taça,
é entre uma cerveja e um navio
que fica o veio mais fundo que te enlaça
ao vulto da cidade e ao seu desvio
por estúrdias e volteios, por tangos e seus braços
com esplenderosas curvas de meneio,
até à cama infinda, ao pleno enleio
de converter em sono o que era cio,
até ao céu de astros e guindastes
com vozes em surdina, de cansaço,
até ao marulhar do Tejo rio.

É entre uma sirene e uma guitarra,
é entre uma gaivota e uma falua
que está bem preso o teu cabo de amarra
de transformar laranja numa lua,
de transformar em sal o sul da lava,
de semear de limo as tuas ruas.

João Rui de Sousa


Quem sabe se com uma passagem pelo British Bar...


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgBPigqfZhzY0UBbv401_c6jq7M6z6B5iMjQ4nUyLyBKmvYrSstXIYn54z6ujJiNESqFipqKFrMUGZqh-ZxjIpOzFnL0u3drtzuVWpUStZFbwwd4ljx5cdzi4aZhC381W8_h-HOln89SaUv/s1600/TroiaAg-10+011.jpg

«No British Bar os anos passam, as gerações mudam, vêm literatos, vêm contrabandistas, vêm estivadores à mistura com meninas de civilização, mas o espírito e a cor local mantêm-se inconfundíveis.»
José Cardoso Pires - Lisboa, livro de bordo

sábado, 9 de janeiro de 2010

«Os Jogadores de Cartas», de Cézanne

s
Paul Cézanne - Os Jogadores de Cartas
Óleo sobre tela, 1890-1892
Paris, Musée d'Orsay


Quem ama o que apenas vê talvez já saiba
muito da natureza das coisas.
Sobretudo se ao vê-las nunca esquecer
o seu mais íntimo recorte, o minucioso
da sua textura, o pulsar milimétrico
da sua eventual grandeza.

Quem ama o que apenas vê também por certo
há-de amar os gestos de quem, em refluir
de cor e gentileza, nos enlaça à esperança
e à vida, à fixação daqueles mais nítidos instantes
em que é preciso dizer algo, atentar
nos traços (e nos relevos) da paisagem
ou descobrir o que há de mais feérico
na humanidade parca em suas vestes,
num cenário já raso feito de escombros
e de pobres caprichos - ou só da decisão,
tão grave e meditada, sobre qual a carta
que importa a seguir lançar...

(Bem defronte um do outro
- e na aparência calmos, absortos -
os jogadores preparam a cartada,
na certeza de que ela será
apenas um outro e vulgar passo
da aragem que haverá no lance
seguinte: naquela mesa talvez
rouquejante, naquela garrafa talvez
despejada, naquele tom heráldico,
vagamente altivo, de quem, sereno,
aguarda as horas e o desfilar
das suas cores, das suas
incontáveis fardas...)

João Rui de Sousa
In: Foro das Letras. Coimbra, Jul. 2009, p. 10

sábado, 2 de janeiro de 2010

«Os Britadores», de Courbet


Gustave Courbet - Os britadores
Óleo sobre tela, 1849

À cadência de quem segue no mundo
bem sabendo que a morte é inevitável
e que a existência é um rio onde se guarda
(se soma, se multiplica, se acumula)
a muita dor sentida ou já herdada
por séculos de indigência e humildade,
estas figuras velam o seu rosto
ou ele oculto fica pelo roer do esforço
pela visão de um mundo injusto e bárbaro
- com um oscilante toque de balança,
com o vagar de quem pousou a fala.

Os britadores levantam os braços
no cósmico sossego dos que lavram
- e, quase indiferença e sem palavras -
as feridas mais terrosas, o pântano
onde habitam suas mágoas.

João Rui de Sousa
In: Foro das Letras, Coimbra, Jul. 2009, p. 11

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Apologia do sonho

Que do sonho só se salva o sonho
quando, sendo penosa a cadência dos dias,
esse sonho se torna licor inebriante
que por dentro nos lava ou rasura o frio
de viajar por entre as catacumbas.

Que esse sonho salva, bem sabemos,
nas tão difíceis contas a prestar
à razão mais corrente e à voz mesquinha:
dizerem que dormir é descansar
para voltar - sem sonho - à mesma vinha
que, no dia-a-dia, se tem de amanhar...

João Rui de Sousa
In: Quarteto para as próximas chuvas. Lisboa: Dom Quixote, 2008, p. 30

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Prémio Nacional António Ramos Rosa - IV Edição

foto Jad: Milão, Museu Castello Sforzesco (2007)

"O ser é transformável e transforma-se"...
João Rui de Sousa.
- Quarteto para as Próximas Chuvas. - Lisboa: D. Quixote, 2008, p. 13

Um prémio com o nome de um amigo. Parabéns João Rui!

Do convite recebido:
O poeta João Rui de Sousa acaba de ser distinguido com o Prémio Nacional António Ramos Rosa, instituído pelo Pelouro de Cultura da Câmara Municipal de Faro, atribuído ao livro Quarteto Para as Próximas Chuvas, editado em Abril de 2008 pelas Publicações Dom Quixote. A cerimónia pública de entrega do galardão, patrocinado pela Direcção Regional de Cultura do Algarve e Universidade do Algarve, terá lugar na próxima sexta-feira, dia 4 de Setembro, às 17h30, na Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, em Faro.

O Júri do Prémio, constituído pelo crítico literário António Carlos Cortez, José Luís Louro e Pedro Ferré decidiu, por unanimidade, atribuir a distinção a João Rui de Sousa "pelo equilíbrio clássico da sua poética em constante diálogo com a tradição modernista, perseguindo uma poesia elemental e com forte carga metafórica, sem esquecer a vocação erótica que se une à própria inquirição da vida e da escrita".

sábado, 25 de abril de 2009

NUNCA ESQUECER

Caladas são as sombras. Não o vento
que assobia no prumo das navalhas
que são feixes de raiva e sedimentos
duma fogueira intensa de acendalhas
inteiriçadas no fluir das páginas
de crónica tão presente, mas passada:
a de abutres sedentos e mordazes,
sugando nervo e osso e carne sã
e o imo da própria liberdade.

Discretas são as sombras. Não a macabra
gesta de bufos e verdugos, dos que
- ocultos na crueza dos seus muros,
no desplante impune dos seus coices,
de insânia e de tortura -
zombavam com a dor que nos sangrava.

João Rui de Sousa
In: Na Liberdade: antologia poética: 30 anos - 25 de Abril. Peso da Régua: Garça, 2004, p. 113

domingo, 22 de março de 2009

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Prémio Teixeira de Pascoaes para João Rui de Sousa

O livro Quarteto para as próximas chuvas (2008), de João Rui de Sousa, já aqui referido pelo Jad, foi o vencedor do Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, instituído pela Câmara Municipal de Amarante.
Obra poética reúne a produção poética do autor entre 1960 e o ano 2000, que, em 2005, publicou também Lavra e Pousio.

ERAM ESTAS AS FLORES

Eram estas as flores que eu abraçava
e que entrevia em zonas de mais luz
ou em simples requebros onde a voz,
pausada e quase trémula,
seguia na inflexão de ser inúmero
o vulto das ameixas, o voluptuoso
ondeio de fenos e searas,
e o parco mover do sobro
e das palmeiras.

Eram também os olhos sempre atentos
ao frémito dos ombros, ao roçagar
de lábios e cabelos,
ao sagaz alvoroço dos teus dedos
e à rajada final (intrépida, desmedida)
de um pássaro febril, indominável.

João Rui de Sousa
In: Quarteto para as próximas chuvas. Lisboa. Dom Quixote, 2008, p. 86

sábado, 5 de julho de 2008

João Rui: ir pelo mais largo


Ir pelo mais largo

Eu sonho-me eu sobro-me eu excedo-me.
Jamais permitirei que me aparafusem
à parede das restrições. Jamais me coibirei
de colorir com as cores mais vivas os vidros
interiores. Jamais impedirei a explosão
contínua de mim mesmo (ou seja: de todo
o granito que aí se acoite).

Irei pelo mais largo
pela máxima amplitude de voz
e de palavras, pelos horizontes
mais fundos e verdejantes,
pelo sagrado voo e pelas pastagens
de uma excelsa ciência:
a de nada trair de essencial
à possível harmonia do mundo,
e à mais fraterna visão libertária.

João Rui de Sousa

(In: Quarteto para as próximas chuvas, Lisboa: Dom Quixote, 2008, p. 140)