Prosimetron

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terça-feira, 5 de outubro de 2010

O meu 5 de Outubro

É o 5 de Outubro de 1143, dia em que em Zamora decorreu a assinatura do tratado homónimo celebrado entre Afonso Henriques de Portugal e o seu primo Afonso VII de Castela e Leão, e que consagrou a independência portuguesa. Foi há 867 anos.

1910 : Harry McDonough

Nos Estados Unidos, a 5 de Outubro de 1910, era Harry McDonough o cantor campeão de vendas. Fiquemos com esta Will You Love Me In December As You Do In May, escrita curiosamente pelo mais divertido Mayor que a cidade de Nova Iorque já teve: John J.Walker.

Dia Mundial da Arquitectura

- Rotonda.
- Villa Cornaro.

Foi ontem. Mas ficou esquecido entre a euforia centenária de uns e as mágoas de outros... :)
Lembro hoje o dia reservado à nobre e antiga arte, com recurso a um dos meus preferidos mestres-arquitectos de todos os tempos: Palladio, o grande mestre do século XVI.
As casas que desenhou são milagres de pedra: na resistência ao tempo e ao gosto, na inserção na paisagem, na harmonia das formas. Inveja é sentimento que não me costuma habitar, mas relativamente a uma casa palladiana, abro uma excepção...

Lembrando Alfredo Keil

MR já colocou a Portuguesa. Este apontamento é só para lembrar o homem que compôs a Portuguesa, Alfredo Keil (1850-1907).
De descendência alemã, Alfredo Keil estudou música e desenho em Nuremberga. Pintou, ilustrou, escreveu poesia, da qual apenas conheço o livro "Tojos e Rosmaninhos", e foi músico. Desta última faceta destaco também uma das suas óperas, D. Branca, já se focou no Prosimetron aquando da sua representação no S. Carlos, no passado dia 29 de Setembro. Aqui fica um traço da sua sensibilidade.
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Alfredo Keil, O Aterro em 1881; no cais do Tejo,
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Óleo sobre madeira, 92 x 154 cm, Museu do Chiado, Lisboa, Portugal


Alfredo Keil - L'Abime Op. 14 No. 1

No Centenário - 1


A revolução republicana significou uma mudança de gerações na elite.Não significou uma maior participação da população. Sob o domínio do Partido Republicano, houve menos eleitores e menos votantes do que antes de 1910. Nos cadernos eleitorais da república, em relação à monarquia, diminuíram os trabalhadores manuais. De resto, pouco mudou. Para quem queria contactar a administração, continuaram a ser precisos empenhos e favores junto de uma elite de homens instruídos e da classe média. A polícia tratou sempre a população mais pobre com brutalidade. Às mulheres, o regime negou sempre qualquer estatuto político.
A I República, sem sufrágio universal, sem eleições justas e sem rotação pacífica no poder, não faz parte da linhagem da atual democracia. Também não foi equivalente ao Estado Novo, por lhe faltar uma ideologia de rutura com o liberalismo e uma máquina de repressão legal ao mesmo nível. Na década de 1920, afastado Afonso Costa, os novos líderes do Partido Republicano, como António Maria da Silva, permitiram-se uma maior tolerância, embora sem abrirem mão do poder. Mas na conjuntura do pós-guerra, com a emergência do comunismo e do fascismo e uma grande contenção financeira, que liquidou o investimento público, essa nova política não deu origem a uma "Regeneração" como a de 1851, mas à cisão final do Partido Republicano, abrindo a porta à Ditadura Militar (1926-1933).
Para essa transição, contou o ambiente de guerra civil gerado pelo domínio exclusivista e arbitrário do Partido Republicano, que tornou aceitável a repressão e o uso da violência contra adversários políticos. Contou também o modo como o domínio radical pôs em causa, pelas reações que provocou, a hegemonia política e cultural da esquerda que vinha do século XIX. Foi sob a república que emergiu uma nova cultura de nacionalismo tradicionalista, que não existia com significado antes de 1910, e que constituiria o oxigénio intelectual do salazarismo. A República não " justifica " o Estado Novo, mas explica-o.


Estes são os 3 últimos parágrafos do notável ( não exagero no adjectivo) ensaio de quase 3 páginas que Rui Ramos, que nem sequer é monárquico, escreveu no Expresso intitulado A Iª República como objeto histórico
.
Para mim, mesmo deixando de parte as minhas simpatias políticas, é muito bom ver alguém que contraria a "cartilha" ensinada durante décadas, e ainda foi o meu caso no ensino secundário em meados dos anos 80, de que a Iª República teria sido praticamente uma era de "vinho e rosas" infelizmente sufocada pelos militares reaccionários que entregaram o poder posteriormente a Salazar. A verdade histórica, como Rui Ramos bem demonstra, é muito mais complexa do que isso. Mas fico à espera que alguém faça a contradita: que venha dizer e demonstrar que Rui Ramos mente, omite ou exagera.
Se bem que, como viram e ouviram nos últimos tempos, até o Prof.Rosas já tem um discurso mais matizado...

1910 - 23


Capa de Alberto Sousa.

Para quem ficar em casa

Da minha biblioteca - 11

Ainda bem que as profusas celebrações de um certo Centenário serviram para chamar à colação esta obra magistral, que é um verdadeiro guia filatélico nacional. Eu, aprendiz de filatelista, muito beneficiei dela.



P.S. - Aproveito para agradecer os "mimos", e tomei boa nota do belo ensaio para um selo de D.Manuel II. Pode ser que ainda um dia venha a ser emitido...

Animação...

As comemorações na Praça do Município vão ser mais animadas do que muitos estariam à espera. Estejam atentos e Viva a Carbonara! ( não, não falta nenhuma letrinha )

O centenário de Fifi Antunes

Moisés deitou-se no chão julgando que o seu último momento chegava; ao fim de poucos minutos apalpou-se todo e como encontrasse o esqueleto intacto e devidamente coberto, encetou a mãos e pés, o regresso a casa... Para completar o disfarce, ia de vez enquando lançando ao ar um miau plangente... E cerca da uma hora da madrugada voltava a esquina da rua, erguia-se e corria a bom correr para a porta de casa... Nem acreditava que chegasse são e salvo de tão arrojada aventura.
Mas realmente não chegava a tempo.
A senhora Júlia com o mesmo sorriso com que lhe apresentava todos os meses o recibo do senhorio, logo à entrada depunha-lhe nos braços uma espécie de cabritinho esfolado que esperneava e vagia numa encantadora promessa de noites em branco.
- É rapaz ou rapariga?
- Menina... e há-de ter coragem como o pai - disse a senhora Júlia na mira de outros dez tostões.
- E então a senhora? Como está ela? - e referia-se ao génio da Ludovina, antevendo a descompostura que ia levar pela demora.
- Esta a descansar... Não se apoquente. Estava eu cá... Porteira ou parteira é quase a mesma coisa.


[....]

-Vencemos! A República proclamou-se! Raiou finalmente a Aurora da Democracia... Sua filha, se o senhor é patriota, deve chamar-se Aurora, em homenagem a esta memorável data...
- É verdade - reflectia o Moisés. - A minha família parece destinada a grandes coisas. Eu nasci a 24 de Julho, e tenho uma filha a 5 de Outubro! Já é ser histórico!

Desenho de Alberto Sousa, A Capital, 7-Outubro-1910

-*-*-*-


As postagens sobre o quotidiano de 1910, que venho publicando desde o dia 3 de Outubro, destinavam-se a celebrar este centenário. Para quem pensou que era o da Revolução... as minhas desculpas. É que muitas outras coisas aconteceram há cem anos... E uma delas foi o nascimento da Fifi, alcunha de Francisca, em honra de Francesca de Rimini, que ocorreu na Aurora do dia 5 de Outubro de 1910 e por isso esteve quase a chamar-se Aurora.


A família Antunes é uma criação de Gervásio Lobato, na sua comédia Lisboa em camisa (1880).
Foi recriada por Armando Ferreira, em 1934, na sua comédia Lisboa sem camisa.
Moisés Antunes, ou melhor, Moisés Martim Antunes (porque o Moisés ainda é um Martim) foi obrigado a casar com a criada lá de casa (que nem sabia ler nem escrever...) de nome Ludovina.
O casamento foi chorado mas, como disse o Tristão, bem informado da civilização e do progresso: «Os tempos hoje são outros... todos os dias no jornal tenho lido exemplos de fidalgos que casam com plebeias».

A comédia de Armando Ferreira é editada pela «Livraria Editora Guimarães» que ainda hoje tem a sua sede na R. da Misericórdia, n.os 68-70, em Lisboa. Todos os extractos saíram do vol. I: O casamento da Fifi Antunes.

Natureza morta com busto da república


Helena Justino (Porto, 1944 - )
Natureza morta com busto da República, 2010
Óleo sobre tela, 50x50cm

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Boa noite!

Aconteceu há 100 anos (VII)

Pelas 11 horas da noite o tiroteio abrandou, e Ludovina piorou. A rua estava deserta, os candeeiros apagados, e Moisés perscrutava através dos vidros o mistério das trevas, quando os gritos recomeçaram no quarto...
A senhora Júlia lembrou que talvez ele pudesse, agora que tudo estava sossegado, ir à farmácia do bairro e trazer pacotes de algodão e sublimado.
- Se o senhor tem receio, eu chego lá num instante...
-Eu, receio? Vou já... Pode ser até que o farmacêutico saiba dalgum médico ou parteira aqui perto...
Na escada, Moisés pensou no acto de coragem que ia empreender, avançando para o negrume da noite. Começava o seu calvário pelo «Filho», sentia-o bem.
Puxou a gola do casaco para cima, a aba do chapéu para os olhos e, rente às paredes, caminhou apressado... Ao longe, recomeçava a troar o canhão, e Moisés acelerou o passo. Vultos passavam a fugir... A farmácia estava fechada. Bateu, mas ninguém respondeu de dentro... E ia a reflectir: «as revoluções deviam ser todas no campo, e deixarem as famílias sossegadas» quando perto dele o estrondo duma bomba estremeceu o ar.



(Em breve acaba a saga preparada para festejar o centenário, está quase...)

O poder e o povo

A República foi feita pela chamada “geração de 90″ (1890), a chamada “geração doUltimatum“, educada pelo “caso Dreyfus” e, depois, pela radicalização da República Francesa de Waldeck-Rousseau, de Combes e do “Bloc des Gauches” (que, de resto, só acabou em 1909). Estes beneméritos (Afonso Costa, António José d”Almeida, França Borges e outros companheiros de caminho) escolheram deliberadamente a violência para liquidar a Monarquia. O Mundo, órgão oficioso do jacobinismo indígena, explicava: “Partidos como o republicano precisam de violência”, porque sem violência e “uma perseguição acintosa e clamorosa” não se cria “o ambiente indispensável à conquista do poder”. Na fase final (1903-1910), o republicanismo, no seu princípio e na sua natureza, não passou da violência, que a vitória do “5 de Outubro” generalizou a todo o país.

Não admira que a República nunca se tenha conseguido consolidar. De facto, nunca chegou a ser um regime. Era um “estado de coisas”, regularmente interrompido por golpes militares, insurreições de massa e uma verdadeira guerra civil. Em pouco mais de 15 anos morreu muita gente: em combate, executada na praça pública pelo “povo” em fúria ou assassinada por quadrilhas partidárias, como em 1921 o primeiro-ministro António Granjo, pela quadrilha do “Dente de Ouro”. O número de presos políticos, que raramente ficou por menos de um milhar, subiu em alguns momentos a mais de 3000. Como dizia Salazar, “simultânea ou sucessivamente” meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.

E , em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam “carbonários”, vigilantes de vário género e pêlo e a “formiga branca” do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de “suspeitos” (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do “outro” mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês, que o “5 de Outubro” trouxe a Portugal?
Vasco Pulido Valente
(adaptação do prefácio da 6ª edição do meu livro O Poder e o Povo)
in Público de 2 de Outubro de 2010

Ensaio para um selo de D. Manuel II

D. Manuel II

Busto (de frente, olhando à direita) desenhado e gravado por
José Sérgio de Carvalho e Silva
Catálogo OM. n.º 1272

"Podemos definir ensaio como a impressão de um desenho não aprovado oficialmente, quer no todo, quer em qualquer parte, ou que, embora aprovado, não chegou a ser emitido".

A. H. de Oliveira Marques, Provas e Ensaios de Portugal e Colónias : I Parte - Continente, LIsboa, Publifil, 1980, p. [VII]

4 de Outubro de 1910 : Os selos de Correio

Lisboa, colecção A. H. de Oliveira Marques
Por um decreto de 19-8-1909 foi ordenada a nova emissão [de selos de correio], que deveria ser posta à venda em 1 de Janeiro de 1910. Desenho de Domingos Alves do Rego.

Lisboa, colecção A. H. de Oliveira Marques


"Os selos surgiram na data marcada, constituindo uma das mais belas séries da colecção portuguesa. Desenho, gravura, cores, são primorosos. Só há a lamentar o papel em que foraam impressos, o esmalte, que torna os selos muito quebradiços, embora contribua para lhes dar, quando novos, uma superfície acetinada e brilhante.
As cores estavam muito bem escolhidas e houve o cuidado de imprimir os baixos valores (2 1/2 a 80) numa única cor sobre papel branco, os médios valores (100 a 300) numa só cor mas sobre papel colorido e os altos valores (500 e 1000) em duas cores.
Os desenhos eram dois: um para as taxas de 2 1/2 a 300 e o último para as de 500 e 1000 réis.
O denteado foi 14x15 em folhas de 100 (10x10) e o papel esmalte, exceptuando os valores de 100 a 300, impressos sobre papel porcelana colorido."

A. H. de Oliveira Marques, História do Selo Postal Português, 2.ª ed., Lisboa, Planeta Editora, 1996, p.261-264 .

Cartas de jogar na BNP


Esta exposição pode ser visitada até final do ano.

Um quotidiano centenário (VI)


Às 4 da tarde houve nova invasão da casa do Moisés. O amigo Lopes, com o doutor e mais dois sujeitos tinham descoberto um binóculo de grande alcance , e vinham observar as manobras do Castelo.
- O amigo Moisés, desculpe, mas hoje é um dia único, histórico. E sua esposa melhorzinha?
- Assim, assim...
- Isto está demorado, hein? Cheira-me que ainda há-de correr muito sangue esta noite...
-Credo, senhor Lopes, longe vá o agoiro! - Replicou Moisés a pensar na revolução que tinha lá por casa.
- Diziam os revolucionários que era coisa para duas ou três horas e já lá vai um dia...
[...]


(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).

Amanhã, na Praça do Município


Um quotidiano centenário (V)


Moisés tinha solene embirração aos telefones. Não se entendia bem com o diabólico engenho e evitava falar por ele. Para mais, aquele estava muito alto, a sua estatura era pequena e tinha de estar em bicos dos pés para chegar ao bocal... Concentrou todas as atenções no ouvido, ensaiou as palavras que tinha a dizer e esperou....

Ao fim de meia hora já não se sustinha nos bicos dos pés, mudou o canudo para o outro ouvido e continuou à espera. Ouvia conversas diversas, frases entrecortadas e até de mistura parecia distinguir os ais da sua Ludovina, juntamente com o ruído seco das metralhadoras e o ribombar do canhão...

- Só se não está ninguém? - reflectiu ele a meia voz - Está lá?
- Ora até que enfim que se resolve! Já perguntei três vezes que número desejava - disse-lhe dentro do ouvido, uma voz feminina.
- Queira desculpar, mas não julgava que fosse comigo...
_ Que número deseja?

Moisés tossiu, fechou os olhos e começou:
- Aqui é o Moisés que fala, oficial da Fazenda Pública; calcule Vossa Excelência que minha mulher... está....... Está lá?.. Está lá...
Já não estava. Moisés percebeu que estava só. Esperou e atreveu-se a tocar com o dedo no aparelho que, indiscreto, tocou uma campainha.

- Não esteja a tocar... não demore... Que número deseja?
- Como ia dizendo...
- O senhor está a brincar? Com o serviço desta maneira! Diga para onde deseja falar...

Sentiu-se um grande estalo no ouvido e fez-se silêncio novamente... Moisés não sabia que fazer; seria má criação desligar já ? Esperou mais um bocado e apurando o ouvido conseguiu distinguir algumas frases:
- «Que tomem um automóvel, sigam já para fora... Das
Novidades, ligue-me para o Carmo... Daqui o coronel Albuquerque... O Paulo que não chegue à janela... Ai, filha, isto está medonho para estes lados... Dizem que o Rei vem à frente das tropas para conquistar Lisboa... Não senhor, não há carne limpa e amanhã o talho não abre... Mas que faz o Governo?»

Uma voz mais grossa deu um minuto de esperança a Moisés perdido naquele mar... de comunicações; dizia:
«Pois sim, mas há remédio para tudo...»
- Então fazia favor dizia-me o que deve fazer minha mulher para se aliviar?...
«Quem será o imbecil que se mete nas conversas - dizia a voz grossa - Tá lá? É você? A minha opinião é que está em má posição e por isso deixava as ruas livres, fazia um movimento envolvente e tomava o Rato»...
- Muito obrigado - rematou Moisés, pondo com delicadeza o canudo no seu lugar e ficando a cismar, naquele estranho conselho. «Tomar um rato!?... Deve ser bruxedo e eu não acredito nessas coisas. Nada!

(e continua)

Na véspera do acontecimento (IV)

- Ai! Malvado! Queres que eu morra, não é?

As horas passavam lentas, mas passavam. Veio o dia, vieram os boatos, mas o tiroteio não cessava; o canhão, então, enervava o Moisés... Já dez vezes pusera o chapéu e dissera:
- Eu vou, bem sabes que eu não tenho medo, mas aquele barulho mais seco, implica-me com os nervos... Sou capaz de me atrapalhar... E a Estrela é muito longe daqui... Achas que chame outra?
- Não... a Pulquéria é que eu quero.
- Eu vou, mas a responsabilidade é tua...

Desceu a escada; a porta da rua estava fechada; no patamar falavam dois outros sujeitos com o Lopes.
- Você não saia... não seja maluco... Os navios bombardeiam o palácio real; a rotunda, está cheia de gente; a Avenida, cheia de mortos, candeeiros furados, árvores no chão, está num estado interessante...
- Mas a minha mulher também está nesse estado e não posso evitar o inevitável...
- Porque é que não falou ao telefone como eu lhe disse; vá aqui a casa do doutor juiz, que com certeza dá licença.

Moisés achou a ideia salvadora e quando ia a subir com o doutor juiz, encontrou a Engrácia que descia, a sombrinha na mão, uma trouxa e uma caixa de folha debaixo dos braços lavada em lágrimas.
-Onde é que vais rapariga?
- Para a minha terra... Eu tenho medo... Quero ir ter
ca minha mãe... Má raios a lembrança que tive de vir prá cedade...
-Então deixaste a senhora sozinha?
- Ficou lá a senhora Júlia.
- Vai para casa, que te matam na rua... Não vês que eu sou um homem e também não saio...

Mas a rapariga agarrada à porta da rua, berrava:
- Daqui já não me
arricam. Quero ir pr’a minha mãe...
Passava um esquadrão da Guarda Municipal....

Um quadro por dia - 94

Heinrich Campendonk (1889-1957), O jardim. Óleo sobre tela, 1920, 94x71cm, Staatsgalerie, Estugarda.

Passei a manhã a tratar do meu, que tem formas e cores mais "naturais" do que o jardim feérico que vemos nesta tela de Campendonk. Foram formas e cores como estas, e telas ainda mais "estranhas" que fizeram deste expressionista alemão um dos qualificados como pintores de arte degenerada. Rótulo que levou o mesmo a sair da Alemanha para a Holanda, onde veio a morrer em 1957, logo em 1933 com a subida de um certo partido ao poder...

Vivências na Lisboa de 4 de Outubro de 1910 (III)


- Ah! - fez Moisés muito arrependido de ter vindo abrir a porta - é a revolução? Está bem. Vou dizer à Ludovina. Adeus e obrigado.

Mas o senhor Lopes insistiu:
_ o amigo desculpe mas eu queria pedir-lhe licença de ir à sua janela da sala; de lá vê-se o castelo de S. Jorge... De minha casa não vejo nada...

Neste momento ouviram-se alguns tiros de canhão, roucos e profundos, a distância. Ao mesmo tempo, do quarto de cama, a voz fina e esganiçada de Ludovina gritava:
- Moisés, Moisés, vem depressa para o pé de mim. Socorro que me deixam só... Malvados...

Deixou o senhor Lopes que foi para a sala, onde, à-vontade, abriu a janela, e correu ao pé do leito da mulher:
- Era o Lopes... o do rés-do-chão...
- Parece impossível, deixares-me aqui só... Afinal, parece-me que sempre é verdade... estou aflita... Vai chamar a D. Pulquéria...
- Olha, filhinha, talvez seja prudente esperar.
- Eu é que não posso mais. Vai já buscá-la e previne também a tua mãe; sempre olha pela casa...
- É melhor esperar que seja mais claro...

Moisés mediu então a gravidade da situação; se a coisa demorasse, e houvesse tiros por todas as ruas como havia ele de ir à Estrela buscar a comadre, ou passar pela rua dos Fanqueiros para trazer a mãe?

A Engrácia entrou pelo quarto, desgrenhada, a chorar.
- Ai minha senhora que medo... Estão aos tiros... Quero ir para a minha terra...
- Sua estúpida... vem para aqui assustar a senhora, neste estado...
- O que foram aquelas salvas, Moisés? - Ai... Acudam-me... Vão chamar a Pulquéria!...

O Lopes, que era um entusiasta republicano, fazia a sua aparição no quarto:
- Desculpem, mas a coisa vai bem. Do Castelo não respondem... Nem tem a bandeira içada... Os tiros são da esquadra que está revoltada...
- Então o senhor acha que eu não posso sair?
- Ainda é cedo, amigo Moisés.

Mas a campainha tornou a bater. Agora era a porteira:
É bom prevenirem-se de coisas de comer... Disse um leiteiro que vai o diabo lá para as Avenidas... muita gente e muitas peças.
(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).

1910 - 22




A Reblica é proclamada em Loures e em vilas ao sul do Tejo, como Aldegalega (Montijo).
Como se pode ver, o jornal O Mundo fez, pelo menos, 3 edições no dia 4 de Outubro de 1910.

Vivências na Lisboa de 4 de Outubro de 1910 (II)

Era ainda noite negra, quando a campainha da porta bateu com força... Moisés acordou sobressaltado, recomeçou a ouvir os ais da mulher, e perguntou:
- Ouviste? Bateram...
- Sei lá ... Em mim é que parece que bateram!

Mas agora não havia dúvida, voltava a campainha a tocar desalmadamente. Enfiou as pantufas e pelo corredor já mal iluminado pela lamparina exausta de azeite, foi à porta:
- Quem é? O que é que querem a estas horas?
- Abra Moisés. É o seu vizinho Lopes, o do rés-do-chão...
-Obrigado mas ainda não há novidades.
- Há, sim! Abra.

Estremunhado, Moisés abriu as portas, sem perceber a insistência do vizinho:
- Você já sabe? Rebentou.
- Ó amigo Lopes, garanto-lhe que por enquanto ainda não...
- Pois você não ouviu? Foi assim: Pum, Pum, Pum ...


(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).

O selo Ceres do centenário


Retomando o desenho de Constantino Fernandes (1867-1920), representando a deusa Ceres, utilizado na primeira emissão de selos feita após a implantação da República.

domingo, 3 de outubro de 2010

1910 - 21


O médico Miguel Bombarda, chefe da parte civil da revolução, foi assassinado por um doente, no dia 3 Out. 1910; no dia seguinte, o almirante Cândido dos Reis, chefe da parte militar, foi encontrado morto, na Azinhaga das Freiras. Assassinado? Suicídio?

Um dia, com cem anos (1)

O protagonista
Logo que saía da repartição, visitava a mãe, cada vez mais abatida e triste, como um folhetim prestes a chegar ao fim, e regressava logo a casa preocupado com a data que se avizinhava. Naquela tarde, no Intendente, um tipo chegou-se ao pé dele e disse ao ouvido:
- Olhe que é hoje; tenha tudo preparado.

Ficou aturdido mas ainda perguntou:
- Como é que você sabe?

O outro fez-lhe, com um dedo na boca, sinal para que se calasse e aconselhou-o:
- Vá para casa e espere pelos primeiros sinais; adeus ó Aniceto.

O desconhecido abalou apressadamente e Moisés também acelerou o passo para chegar à porta de casa a deitar os botes pela boca fora; e só então parou, a reflectir:
- Mas se eu não sou Aniceto... Se não conheço aquele tipo... é capaz de ser engano...

Entrava nesse momento a senhora Júlia, a porteira:
- Boas tardes, senhor Moisés. Vá para casa vá, porque parece-me que é para hoje. A senhora tem passado muito mal...

«Então deve ser verdade. O homem era capaz de ser cá do prédio... É algum vizinho que não conheço!»

Galgou os degraus a correr...


(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).

Trovas Antigas...

Vi, na sexta-feira passada na RTP 1, o “Trovas Antigas, Saudade Louca – Histórias do Fado contadas por Carlos do Carmo”, um programa com a qualidade cultural que já há muito não aparecia na televisão. Não sou espectadora assídua da "caixa mágica" mas este programa vou seguir com agrado.
Pude escutar um fado cuja história sempre me encantou: O Embuçado. Resolvi partilhá-lo. Boa noite!

Boa noite!

Com a melhor canção sobre Nova Iorque dos últimos anos, esta fantástica Empire State Of Mind da Alicia Keys.

A arte do retrato - 4

Vi este retrato pela primeira vez há vinte anos, na bela Florença. Mais precisamente, na Capella dei Magi do Palazzo Medici-Riccardi. Era elementar concluir que se tratava de um jovem de alta estirpe, desde logo pelo adorno que lhe encima a encaracolada cabeça, mas demasiado jovem para se tratar de um "verdadeiro" Rei Mago, embora fosse a conclusão primeira que se retirava ao observar este maravilhoso fresco.
Mas foi surpreendente descobrir, embora não seja opinião unânime, que se tratava de um retrato (idealizado, dizem alguns especialistas) de Lorenzo Il Magnifico, o todo-poderoso Senhor de Florença, como bambino. Um contraste extraordinário com as representações adultas, as que conhecia e que estamos habituados a ver, do grande homem de Estado e mecenas.

Benozzo Gozzoli, Lorenzo Il Magnifico da bambino, 1459-61, fresco, Capela dos Reis Magos, Palácio Medici-Riccardi, Florença.

Gaspard Ulliel

É o belo ator francês o protagonista deste filme-anúncio do perfume Bleu da Casa Chanel. Mas o mais surpreendente é o nome do realizador: Martin Scorsese, que pela primeira vez assina um filme publicitário.

PENSAMENTO(S) - 140

Quando a ditadura é um facto, a revolução é um direito.

É este o epitáfio de Henrique Galvão, esculpido no seu jazigo do Cemitério dos Prazeres (Rua Nº2).

Bons dias!


http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:EntradaPalacioEstoi.JPG

Uma boa estada a quem anda por terras algarvias.

As primeiras chuvas

As primeiras chuvas servem para limpar os resíduos de pó e repensar no que é verdadeiramente importante. Os ciclos renovam-se!
Albano Martins escreveu Diálogo cujo mote do seu poema é: procurar as respostas nas águas do rio. Bom Domingo!
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Debussy's Estampes - III - Jardins sous la pluie; pianista: Sviatoslav Richter


Diálogo

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.


Albano Martins, Castália e outros poemas. - Porto : Campo das letras, 2001

Em português - 37

Lembro hoje a voz fantástica de Rui de Mascarenhas porque foi ontem evocado num programa da Antena1 da RDP e eu fiquei a saber muito mais sobre ele, designadamente que teve uma carreira internacional bem sucedida. Vamos a Miranda ver os Pauliteiros!

Ainda o nosso Primeiro...

- Autor desconhecido, Batalha de Pavia, séc.XVI, Birmingham Museum of Art, Alabama. Com esta que é considerada a primeira batalha moderna por muitos historiadores, terminaram as Guerras de Itália entre o Reino de França e o Império, ficando Carlos V como indiscutível Senhor da Europa.
- Castelo de La Palice, fotografia de James Parker.

Ao ouvir ontem a entrevista feita a José Sócrates por Constança Cunha e Sá, só me lembrava de Jacques II de Chabannes (1470-1525), Marechal de França, mais conhecido por um dos seus títulos: Senhor de La Palice...

Boa noite!


Porque ouvi esta canção e outras açorianas esta noite.

Pescadinhas...


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg9ErgeWVJyb5CEdl_usGULPe9GROxHtC7NrHueDhTkNfGn0iKXi3Ivg8nwSBdyBZRKMSNbMiF4DGQRH2HO1ASFlvFpAfxvgwwtUcE9Ww6zVPePLo2mABgxVl-9hLln4G0N4u-iO5DS9QIM/s320/P1120596.JPG

Esta noite, num jantar de amigos, um pediu as normais «Pescadinhas de rabo na boca» do seguinte modo: «Pescadinhas de cauda nos lábios».