É o 5 de Outubro de 1143, dia em que em Zamora decorreu a assinatura do tratado homónimo celebrado entre Afonso Henriques de Portugal e o seu primo Afonso VII de Castela e Leão, e que consagrou a independência portuguesa. Foi há 867 anos.Prosimetron
terça-feira, 5 de outubro de 2010
O meu 5 de Outubro
É o 5 de Outubro de 1143, dia em que em Zamora decorreu a assinatura do tratado homónimo celebrado entre Afonso Henriques de Portugal e o seu primo Afonso VII de Castela e Leão, e que consagrou a independência portuguesa. Foi há 867 anos.1910 : Harry McDonough
Dia Mundial da Arquitectura
- Rotonda.
- Villa Cornaro.Lembrando Alfredo Keil
No Centenário - 1

Estes são os 3 últimos parágrafos do notável ( não exagero no adjectivo) ensaio de quase 3 páginas que Rui Ramos, que nem sequer é monárquico, escreveu no Expresso intitulado A Iª República como objeto histórico.
Da minha biblioteca - 11
Ainda bem que as profusas celebrações de um certo Centenário serviram para chamar à colação esta obra magistral, que é um verdadeiro guia filatélico nacional. Eu, aprendiz de filatelista, muito beneficiei dela.P.S. - Aproveito para agradecer os "mimos", e tomei boa nota do belo ensaio para um selo de D.Manuel II. Pode ser que ainda um dia venha a ser emitido...
Animação...
O centenário de Fifi Antunes
Mas realmente não chegava a tempo.
A senhora Júlia com o mesmo sorriso com que lhe apresentava todos os meses o recibo do senhorio, logo à entrada depunha-lhe nos braços uma espécie de cabritinho esfolado que esperneava e vagia numa encantadora promessa de noites em branco.
- É rapaz ou rapariga?
- Menina... e há-de ter coragem como o pai - disse a senhora Júlia na mira de outros dez tostões.
- E então a senhora? Como está ela? - e referia-se ao génio da Ludovina, antevendo a descompostura que ia levar pela demora.
- Esta a descansar... Não se apoquente. Estava eu cá... Porteira ou parteira é quase a mesma coisa.
[....]
Desenho de Alberto Sousa, A Capital, 7-Outubro-1910Foi recriada por Armando Ferreira, em 1934, na sua comédia Lisboa sem camisa.
Moisés Antunes, ou melhor, Moisés Martim Antunes (porque o Moisés ainda é um Martim) foi obrigado a casar com a criada lá de casa (que nem sabia ler nem escrever...) de nome Ludovina.
A comédia de Armando Ferreira é editada pela «Livraria Editora Guimarães» que ainda hoje tem a sua sede na R. da Misericórdia, n.os 68-70, em Lisboa. Todos os extractos saíram do vol. I: O casamento da Fifi Antunes.
Natureza morta com busto da república
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Aconteceu há 100 anos (VII)
A senhora Júlia lembrou que talvez ele pudesse, agora que tudo estava sossegado, ir à farmácia do bairro e trazer pacotes de algodão e sublimado.
- Se o senhor tem receio, eu chego lá num instante...
-Eu, receio? Vou já... Pode ser até que o farmacêutico saiba dalgum médico ou parteira aqui perto...
Na escada, Moisés pensou no acto de coragem que ia empreender, avançando para o negrume da noite. Começava o seu calvário pelo «Filho», sentia-o bem.
Puxou a gola do casaco para cima, a aba do chapéu para os olhos e, rente às paredes, caminhou apressado... Ao longe, recomeçava a troar o canhão, e Moisés acelerou o passo. Vultos passavam a fugir... A farmácia estava fechada. Bateu, mas ninguém respondeu de dentro... E ia a reflectir: «as revoluções deviam ser todas no campo, e deixarem as famílias sossegadas» quando perto dele o estrondo duma bomba estremeceu o ar.

O poder e o povo
Não admira que a República nunca se tenha conseguido consolidar. De facto, nunca chegou a ser um regime. Era um “estado de coisas”, regularmente interrompido por golpes militares, insurreições de massa e uma verdadeira guerra civil. Em pouco mais de 15 anos morreu muita gente: em combate, executada na praça pública pelo “povo” em fúria ou assassinada por quadrilhas partidárias, como em 1921 o primeiro-ministro António Granjo, pela quadrilha do “Dente de Ouro”. O número de presos políticos, que raramente ficou por menos de um milhar, subiu em alguns momentos a mais de 3000. Como dizia Salazar, “simultânea ou sucessivamente” meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.
E , em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam “carbonários”, vigilantes de vário género e pêlo e a “formiga branca” do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de “suspeitos” (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do “outro” mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês, que o “5 de Outubro” trouxe a Portugal?
Ensaio para um selo de D. Manuel II
"Podemos definir ensaio como a impressão de um desenho não aprovado oficialmente, quer no todo, quer em qualquer parte, ou que, embora aprovado, não chegou a ser emitido".
A. H. de Oliveira Marques, Provas e Ensaios de Portugal e Colónias : I Parte - Continente, LIsboa, Publifil, 1980, p. [VII]
4 de Outubro de 1910 : Os selos de Correio
Lisboa, colecção A. H. de Oliveira Marques"Os selos surgiram na data marcada, constituindo uma das mais belas séries da colecção portuguesa. Desenho, gravura, cores, são primorosos. Só há a lamentar o papel em que foraam impressos, o esmalte, que torna os selos muito quebradiços, embora contribua para lhes dar, quando novos, uma superfície acetinada e brilhante.
As cores estavam muito bem escolhidas e houve o cuidado de imprimir os baixos valores (2 1/2 a 80) numa única cor sobre papel branco, os médios valores (100 a 300) numa só cor mas sobre papel colorido e os altos valores (500 e 1000) em duas cores.
Os desenhos eram dois: um para as taxas de 2 1/2 a 300 e o último para as de 500 e 1000 réis.
O denteado foi 14x15 em folhas de 100 (10x10) e o papel esmalte, exceptuando os valores de 100 a 300, impressos sobre papel porcelana colorido."
A. H. de Oliveira Marques, História do Selo Postal Português, 2.ª ed., Lisboa, Planeta Editora, 1996, p.261-264 .
Um quotidiano centenário (VI)

- O amigo Moisés, desculpe, mas hoje é um dia único, histórico. E sua esposa melhorzinha?
- Assim, assim...
- Isto está demorado, hein? Cheira-me que ainda há-de correr muito sangue esta noite...
-Credo, senhor Lopes, longe vá o agoiro! - Replicou Moisés a pensar na revolução que tinha lá por casa.
- Diziam os revolucionários que era coisa para duas ou três horas e já lá vai um dia...
[...]
(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).
Um quotidiano centenário (V)

Moisés tinha solene embirração aos telefones. Não se entendia bem com o diabólico engenho e evitava falar por ele. Para mais, aquele estava muito alto, a sua estatura era pequena e tinha de estar em bicos dos pés para chegar ao bocal... Concentrou todas as atenções no ouvido, ensaiou as palavras que tinha a dizer e esperou....
Ao fim de meia hora já não se sustinha nos bicos dos pés, mudou o canudo para o outro ouvido e continuou à espera. Ouvia conversas diversas, frases entrecortadas e até de mistura parecia distinguir os ais da sua Ludovina, juntamente com o ruído seco das metralhadoras e o ribombar do canhão...
- Só se não está ninguém? - reflectiu ele a meia voz - Está lá?
- Ora até que enfim que se resolve! Já perguntei três vezes que número desejava - disse-lhe dentro do ouvido, uma voz feminina.
- Queira desculpar, mas não julgava que fosse comigo...
_ Que número deseja?
Moisés tossiu, fechou os olhos e começou:
- Aqui é o Moisés que fala, oficial da Fazenda Pública; calcule Vossa Excelência que minha mulher... está....... Está lá?.. Está lá...
Já não estava. Moisés percebeu que estava só. Esperou e atreveu-se a tocar com o dedo no aparelho que, indiscreto, tocou uma campainha.
- Não esteja a tocar... não demore... Que número deseja?
- Como ia dizendo...
- O senhor está a brincar? Com o serviço desta maneira! Diga para onde deseja falar...
Sentiu-se um grande estalo no ouvido e fez-se silêncio novamente... Moisés não sabia que fazer; seria má criação desligar já ? Esperou mais um bocado e apurando o ouvido conseguiu distinguir algumas frases:
- «Que tomem um automóvel, sigam já para fora... Das Novidades, ligue-me para o Carmo... Daqui o coronel Albuquerque... O Paulo que não chegue à janela... Ai, filha, isto está medonho para estes lados... Dizem que o Rei vem à frente das tropas para conquistar Lisboa... Não senhor, não há carne limpa e amanhã o talho não abre... Mas que faz o Governo?»
Uma voz mais grossa deu um minuto de esperança a Moisés perdido naquele mar... de comunicações; dizia:
«Pois sim, mas há remédio para tudo...»
- Então fazia favor dizia-me o que deve fazer minha mulher para se aliviar?...
«Quem será o imbecil que se mete nas conversas - dizia a voz grossa - Tá lá? É você? A minha opinião é que está em má posição e por isso deixava as ruas livres, fazia um movimento envolvente e tomava o Rato»...
- Muito obrigado - rematou Moisés, pondo com delicadeza o canudo no seu lugar e ficando a cismar, naquele estranho conselho. «Tomar um rato!?... Deve ser bruxedo e eu não acredito nessas coisas. Nada!
(e continua)
Na véspera do acontecimento (IV)
As horas passavam lentas, mas passavam. Veio o dia, vieram os boatos, mas o tiroteio não cessava; o canhão, então, enervava o Moisés... Já dez vezes pusera o chapéu e dissera:
- Eu vou, bem sabes que eu não tenho medo, mas aquele barulho mais seco, implica-me com os nervos... Sou capaz de me atrapalhar... E a Estrela é muito longe daqui... Achas que chame outra?
- Não... a Pulquéria é que eu quero.
- Eu vou, mas a responsabilidade é tua...
Desceu a escada; a porta da rua estava fechada; no patamar falavam dois outros sujeitos com o Lopes.
- Você não saia... não seja maluco... Os navios bombardeiam o palácio real; a rotunda, está cheia de gente; a Avenida, cheia de mortos, candeeiros furados, árvores no chão, está num estado interessante...
- Mas a minha mulher também está nesse estado e não posso evitar o inevitável...
- Porque é que não falou ao telefone como eu lhe disse; vá aqui a casa do doutor juiz, que com certeza dá licença.
Moisés achou a ideia salvadora e quando ia a subir com o doutor juiz, encontrou a Engrácia que descia, a sombrinha na mão, uma trouxa e uma caixa de folha debaixo dos braços lavada em lágrimas.
-Onde é que vais rapariga?
- Para a minha terra... Eu tenho medo... Quero ir ter ca minha mãe... Má raios a lembrança que tive de vir prá cedade...
-Então deixaste a senhora sozinha?
- Ficou lá a senhora Júlia.
- Vai para casa, que te matam na rua... Não vês que eu sou um homem e também não saio...
Mas a rapariga agarrada à porta da rua, berrava:
- Daqui já não me arricam. Quero ir pr’a minha mãe...
Passava um esquadrão da Guarda Municipal....
Um quadro por dia - 94
Heinrich Campendonk (1889-1957), O jardim. Óleo sobre tela, 1920, 94x71cm, Staatsgalerie, Estugarda.Passei a manhã a tratar do meu, que tem formas e cores mais "naturais" do que o jardim feérico que vemos nesta tela de Campendonk. Foram formas e cores como estas, e telas ainda mais "estranhas" que fizeram deste expressionista alemão um dos qualificados como pintores de arte degenerada. Rótulo que levou o mesmo a sair da Alemanha para a Holanda, onde veio a morrer em 1957, logo em 1933 com a subida de um certo partido ao poder...
Vivências na Lisboa de 4 de Outubro de 1910 (III)

Mas o senhor Lopes insistiu:
_ o amigo desculpe mas eu queria pedir-lhe licença de ir à sua janela da sala; de lá vê-se o castelo de S. Jorge... De minha casa não vejo nada...
Neste momento ouviram-se alguns tiros de canhão, roucos e profundos, a distância. Ao mesmo tempo, do quarto de cama, a voz fina e esganiçada de Ludovina gritava:
- Moisés, Moisés, vem depressa para o pé de mim. Socorro que me deixam só... Malvados...
Deixou o senhor Lopes que foi para a sala, onde, à-vontade, abriu a janela, e correu ao pé do leito da mulher:
- Era o Lopes... o do rés-do-chão...
- Parece impossível, deixares-me aqui só... Afinal, parece-me que sempre é verdade... estou aflita... Vai chamar a D. Pulquéria...
- Olha, filhinha, talvez seja prudente esperar.
- Eu é que não posso mais. Vai já buscá-la e previne também a tua mãe; sempre olha pela casa...
- É melhor esperar que seja mais claro...
Moisés mediu então a gravidade da situação; se a coisa demorasse, e houvesse tiros por todas as ruas como havia ele de ir à Estrela buscar a comadre, ou passar pela rua dos Fanqueiros para trazer a mãe?
A Engrácia entrou pelo quarto, desgrenhada, a chorar.
- Ai minha senhora que medo... Estão aos tiros... Quero ir para a minha terra...
- Sua estúpida... vem para aqui assustar a senhora, neste estado...
- O que foram aquelas salvas, Moisés? - Ai... Acudam-me... Vão chamar a Pulquéria!...
O Lopes, que era um entusiasta republicano, fazia a sua aparição no quarto:
- Desculpem, mas a coisa vai bem. Do Castelo não respondem... Nem tem a bandeira içada... Os tiros são da esquadra que está revoltada...
- Então o senhor acha que eu não posso sair?
- Ainda é cedo, amigo Moisés.
Mas a campainha tornou a bater. Agora era a porteira:
É bom prevenirem-se de coisas de comer... Disse um leiteiro que vai o diabo lá para as Avenidas... muita gente e muitas peças.
1910 - 22
Vivências na Lisboa de 4 de Outubro de 1910 (II)
- Ouviste? Bateram...
- Sei lá ... Em mim é que parece que bateram!
Mas agora não havia dúvida, voltava a campainha a tocar desalmadamente. Enfiou as pantufas e pelo corredor já mal iluminado pela lamparina exausta de azeite, foi à porta:
- Quem é? O que é que querem a estas horas?
- Abra Moisés. É o seu vizinho Lopes, o do rés-do-chão...
-Obrigado mas ainda não há novidades.
- Há, sim! Abra.
Estremunhado, Moisés abriu as portas, sem perceber a insistência do vizinho:
- Você já sabe? Rebentou.
- Ó amigo Lopes, garanto-lhe que por enquanto ainda não...
- Pois você não ouviu? Foi assim: Pum, Pum, Pum ...
(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).
O selo Ceres do centenário
domingo, 3 de outubro de 2010
1910 - 21
Um dia, com cem anos (1)
- Olhe que é hoje; tenha tudo preparado.
Ficou aturdido mas ainda perguntou:
- Como é que você sabe?
O outro fez-lhe, com um dedo na boca, sinal para que se calasse e aconselhou-o:
- Vá para casa e espere pelos primeiros sinais; adeus ó Aniceto.
O desconhecido abalou apressadamente e Moisés também acelerou o passo para chegar à porta de casa a deitar os botes pela boca fora; e só então parou, a reflectir:
- Mas se eu não sou Aniceto... Se não conheço aquele tipo... é capaz de ser engano...
Entrava nesse momento a senhora Júlia, a porteira:
- Boas tardes, senhor Moisés. Vá para casa vá, porque parece-me que é para hoje. A senhora tem passado muito mal...
«Então deve ser verdade. O homem era capaz de ser cá do prédio... É algum vizinho que não conheço!»
Galgou os degraus a correr...
(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).
Trovas Antigas...
Boa noite!
A arte do retrato - 4
Vi este retrato pela primeira vez há vinte anos, na bela Florença. Mais precisamente, na Capella dei Magi do Palazzo Medici-Riccardi. Era elementar concluir que se tratava de um jovem de alta estirpe, desde logo pelo adorno que lhe encima a encaracolada cabeça, mas demasiado jovem para se tratar de um "verdadeiro" Rei Mago, embora fosse a conclusão primeira que se retirava ao observar este maravilhoso fresco.Mas foi surpreendente descobrir, embora não seja opinião unânime, que se tratava de um retrato (idealizado, dizem alguns especialistas) de Lorenzo Il Magnifico, o todo-poderoso Senhor de Florença, como bambino. Um contraste extraordinário com as representações adultas, as que conhecia e que estamos habituados a ver, do grande homem de Estado e mecenas.
Benozzo Gozzoli, Lorenzo Il Magnifico da bambino, 1459-61, fresco, Capela dos Reis Magos, Palácio Medici-Riccardi, Florença.
Gaspard Ulliel
PENSAMENTO(S) - 140
Bons dias!
As primeiras chuvas
Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.
Albano Martins, Castália e outros poemas. - Porto : Campo das letras, 2001
Em português - 37
Ainda o nosso Primeiro...
Pescadinhas...
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