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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Leituras no Metro - 1100

 


«A questão das mães italianas será um lugar comum mas é rigorosamente verdadeiro. Juan Lara [...]  Viajava de autocarro e, numa paragem, o condutor levantou-se do lugar para se dirigir aos passageiros. Explicou-lhes que a mãe estava doente e que vivia ali perto. Será que se importavam que ele se desviasse um nadinha do percurso para a visitar? Os passageiros, ao que parece, não elvantaram objeções. O motorista mudou de percurso, conduziu até ao domicílio materno, estacionou em frente da porta (em segunda fila, evidentemente) e subiu para a visitar, enquanto a clientela esperava no lugar ou fumava um cigarrinho à porta. passado um quarto de hora, com o dever cumprido, o motorista regressou e agradeceu ao pessoal pela paciência. O pessoal, por sua vez, premiou-o com um apluaso: mãe há só uma.»
Enric González - Histórias de Roma. Lisboa: Tinta da China, 2015, p. 78.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Leituras no Metro - 1099

Guido Reni - São Filipe Neri 

«No dia 16 de março, os sinos tocavam [na capela do Palazzo Massimo], para comemorar um milagre ocorrido há muito tempo. O milagre do Palazzo Massimo, convém sublinhar de antemão, foi extraordinariamente subtil. A 16 de março de 1583, o jovem Paolo Massimo morreu num dos aposentos. A família mandou chamar Felipe Néri [...] para que ressuscitasse o rapaz. O futuro santo salpicou o cadáver com água-benta e fez as suas invocações, até que o jovem Paolo abriu os olhos, regressou à vida e sentou-se na cama. Sabem o que disse o ressuscitado? Muito obrigado, mas preferia voltar a morrer. E faleceu outra vez.»
Enric González - Histórias de Roma. Lisboa: Tinta da China, 2015, p. 9

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Leituras no Metro - 1098

Lisboa: Tinta da China, 2014  

O catalão Enric González viveu em muitas cidades ao longo da sua vida enquanto correspondente do El País, e escreveu sobre algumas delas, como Londres e  Nova Iorque (também editados pela Tinta da China). Os seus livros são sempre histórias do seu percurso pessoal nessas cidades. 
Nas histórias de Roma aparecem personagens e cenários romanos: gatos, pinturas de Caravaggio, a casa e o túmulo de Keats, a melhor pizaria da cidade, o lugar onde se toma o melhor café do mundo (segundo o autor, claro está), a burocracia italiana - «Os romanos detestam burocracia, mas temo be que não saibam viver sem ela.» -, etc. 
E que dizer dos embaraços que as palavras-primas podem provocar?
«Em jeito de advertência, contarei dois casos, ambos metendo sacerdotes.
«No primeiro, um jovem padre espanhol recém-chegado a Roma deseja comprar uma panela para a cozinha da sua residência. Necessita, concretamente, de um cazo. Vai a uma loja de ferragens e pede o que deduz ser a versão italiana, isto é um "cazzo grosso".Na loja ainda hoje se riem quando se lembram do dia em que lá entrou um padre que chegou ao balcão e pediu uma pila grande.
«No segundo caso, outro sacerdote, falante de catalão, sentiu-se mal e foi a um centro hospitalar. Nas urgências, perguntaram-lhe o que se passava, e o homem fez uma tradução mental. Está enjoado e deduz que enjoado, em castelhano mareado, e em catalão marejat, será algo como mareggiato em italiano.: «Sono mareggiato», informa. Mareggiato não significa nada mas amareggiato, sim... Significa algo como amargurado ou ressentido. Não recomendo a ninguém que se apresente num hospital para confessar ressentimentos: arrisca-se seriamente a acabar no serviço de observação psiquiátrica.» (p. 16-17)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

"Um país sem verdade"

Gato conimbricense mas podia ser romano

Roma é um palco em permanência, uma cidade inesquecível. Bela, na minha perspectiva.

Quanto à política, tal como a descreve Enric González, utilizando as palavras de um escritor italiano:
"é um país sem verdade". Não será o que ocorre no nosso país?

França tem Albert Camus. Itália, Leonardo Sciascia. Ambos foram, e são, a consciência de muitas pessoas. Falamos de personagens complexas, porque não existem consciências leves. Sciascia era siciliano e tão inimigo da Máfia como da cruzada antimáfia. Dele, por agora, interessa-nos uma frase que define a política italiana: «Itália é um país sem verdade». Registemos estas palavras, porque, sem elas, perder-nos-íamos no labirinto.

Enric González, Histórias de Roma. (Tradução Rita Almeida Simões). Lisboa: Tinta da China, 2014, p. 59. 

domingo, 19 de julho de 2015

Para viajar no sofá - 4

«[...] fui jantar com Iñigo Gurruchaga à French Dinning Room, que na Segunda Guerra Mundial foi o ponto de encontro da Resistência francesa em Inglaterra - Charles de Gaulle passava por lá com frequência [...].» (p. 90)
Enric González

E mais esta pérola que digitalizei. :)

(p. 113)

Imagem retirada da reportagem de 1969. 
Filipe de Edimburgo e Ana num churrasco. Balmoral, 1972. O príncipe a pousar para a foto, com a mão esquerda no bolso. :)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Para viajar no sofá - 3

Trad. de Carlos Vaz Marques.
Lisboa: Tinta da China, 2015

Enric González foi correspondente de El Pais, em Londres. Da sua vida nessa cidade escreveu Histórias de Londres.

«Numa das primeiras noites, ao voltar a casa, ouvi uma criança a chorar. Chovia, tudo estava escuro e não se avistava vivalma nos mews. Guiado pelo choro, consegui dar com um carrinho e, no seu interior, com uma criatura de meses que gritava de forma alarmante. Apalpei o cobertor: estava seco. Olhei em volta e comprovei o óbvio: a pocos metros da minha porta, junto à fachada da casa em frente, havia um bebé abandonado à chuva. Não me atrevi a tocar-lhe. Corri para casa e expliquei a situação a Lola. Voltámos ao sítio onde estava o bebé, demos umas voltas pelas imediações e optáms por tocar à porta mais próxima. Abriu-a uma mulher de meia-idade.
- Good evening, ma'm. Acabámos de encontrar um bebé na rua e perguntamo-nos se...
- Que se passa com o menino? [...] O menino é meu. Chorar ao ar livre faz bem.» (p. 28)

«Os anos de Victoria e Albert foram os mais gloriosos de Londres, que nunca viveu nada comparável à Exposição Universal de 1851. A tecnologia mais avançada e os melhores artigos da indústria britânica conviviam, no portentoso Palácio de Cristal, em Hyde Park, com o mais exótico do império (um trono inteiramente talhado em marfim ou o enorme diamante Koh-i-Noor, encerrado numa jaula como um pássaro de luz), as invenções mais peregrina (uma cama que acordava o seu ocupante catapultando-o para uma banheira de água fria) e luxos pouco comuns num recinto público, como uma fonte de onde jorrava água-de-colónia.» (p. 37)

O bar frequentado por Enric González ao sábado para ler o jornal e beber uma ale.