«"[Malhoa] contou-me que perdeu muito tempo a encontrar o tipo de fadista [...] ao lado da mulher da vida esbandalhada e descomposta." Encontrou-os na rua do Capelão . Amâncio Augusto Esteves, rufia que fadistava, e Adelaide, conhecida por 'Adelaide da Facada', daí a inclinação exagerada da pose "esbandalhada". Era para ela tapar a face esquerda com uma naifada.~«A pintura, diz-se, atrasou um pouco porque por vezes Amâncio voltava de uma breve passagem pela esquadra e embirrava com a alça da blusa de adelaide, que na pintura descera mais do que os ciúmes dele permitiam. E lá tinha Malhoa de retocar um pouco menos de seio atrevido. Em 1910 o quadro estava pronto. está lá tudo, a chinela no pé, o Senhor dos Passos, a lamparina de querosene, o pote de manjerico, um cigarro nos dedos dela, a garrafa de vinho e os olhos avinhados dele, amis a banza...»
José Ferreira Fernandes - Martim Moniz: Como o desentalar e admirar. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2023, p. 73-74
Letra de José Galhardo; música de Frederico Valério.
Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2023.
Um bom relato do que foi e é o Martim Moniz, uma zona da cidade muito vivida.
Uma praça que ninguém parece saber o que fazer dela, mas o melhor é deixarem-na como está, antes que nasça ali mais algum mamarracho. Como diz Ferreira Fernandes: «A burrice tem disso, procria muito.»
Foram lá implantados, na era Nuno Abecasis, dois mamarrachos que albergam os Centros Comerciais da Mouraria e do Martim Moniz, «feios e grossos, como é sempre o mau gosto, mas as suas gentes são enérgicas, mexidas». (p. 69)
A primeira vez que entrei no Centro Comercial da Mouraria parecia que tinha entrada noutro país: mercearias, cabeleireiros, lojas de roupas, de bugigangas, etc., de gente do Oriente e de África. Fui lá muito, durante uns anos, a uma mercearia indiana e dava uma voltinha pelo Centro. Agora esses produtos já se vão encontrando nos supermercados.
Marcador-postal que acompanha o livro. Foto de Inês Leote.
Morreu Claude Lanzmann, o homem de Shoah, o filme sobre o Holocausto, documentário monumental de dez horas, filmado durante 12 anos, ouvindo sobreviventes judeus em 14 países. Como lembrar o peso de tanto? Talvez numa versão que desça à infinita raiz do assunto, o homem - um homem. Talvez falando de Lanzmann, não este, impossível de se falar dele sem a sombra do monumento. Falando, então, do irmão de Claude Lanzmann, Jacques, que morreu em 2006.
Os Lanzmann descendem de uma daquelas periódicas viagens dos homens pela Terra, igual, com outros homens, às que os jornais contam hoje. A dos avós dos Lanzmann começou no fim do século XIX, eram judeus do Leste Europeu e fizeram-se franceses. Tanto, que quase a meio do século seguinte já, Claude e Jacques, os netos dos emigrantes iniciais, eram patriotas da Resistência francesa. E na hora da morte, num novo século, ambos deixaram obras maiores e menores. Se do agora desaparecido impõem-se Shoah, em Jacques há muitas letras de belas canções francesas, alguns romances e, sobretudo Le Rat d'Amérique (O Rato da América), uma quase autobiografia romanceada.
Finda a II Guerra Mundial, Jacques Lanzmann foi para a América do Sul. «Se queres encontrar-te, começa por te perder», escreveu. Partir porque uma ilusão nos acicata ou, mais frequentemente, a desesperança nos empurra. Partir. O falso romance (Lanzmann apresenta-se como o judeu francês «Georges Fridmann», ex-combatente da Resistência) conta a perda e a procura. Ele andou pelo Paraguai, pela Argentina e pelo Chile em esperança, como qualquer América sempre ilude; e andou pela perdição como tantas vezes qualquer América nos ensina.
A última aventura de Lanzmann/Fridmann é nas minas chilenas de nitrato de sódio, nas montanhas desérticas dos Andes. Minas entre as neves eternas, administradas como um campo de concentração e de onde só doidos tentam escapar pelo teleférico dos cadáveres... O documentário Shoa é de 1985, a realidade inventada em Le Rat d'Amérique é anterior, de 1956, e ambos falam da irrealidade inominável do horror nazi na primeira meia década de 1940. E se, afinal, os dois irmãos, Claude e Jacques Lanzmann, nos contaram só a banalidade do homem?
Ferreira Fernandes
DN, 6 jul. 2018
Jacques Lanzmann escreveu numerosas letras para canções de Jacques Dutronc. São dele Il est cinq heures e Paris s'éveille.
Lembro-me tão bem dos Jogos Olímpicos de Madrid. Pudera, foram os meus primeiros JO. Mais tarde iria aos de Atenas, em 2004, também memoráveis. Bem, memoráveis são todos porque é uma concentração de homens e mulheres soberbos a ultrapassarem fasquias que antes de vencidas já eram extraordinárias. É quase viciante vê-los. Eu, que ao vivo assisti a pouco atletismo, ao fim dos dois JO em que estive, senti-me em estado de carência: faltavam-me os olhos doidos do chinês Liu Xiang, a 30 metros de mim (mordomia de jornalista), a dar-se conta, no salto da última barreira, de que ia ser campeão.
Porém, o que me cala fundo nos JO, mesmo, e por isso me lembro tão bem dos meus primeiros, os de 1992, em Madrid, é aquela vontade conseguida de juntar. De juntar-nos. Já o escrevi e volto a repetir, um dos momentos da minha vida foi ver duas velhas namibianas, branca e negra, ambas de vestidos e guarda-sóis vitorianos, a falar não sei de quê, numa praia de Swakopmund. O Swako é um rio efémero, a maior parte do ano o deserto engole-o, "mund" é boca em alemão e um comerciante português garantiu-me que o nome da cidade queria dizer cu do mundo. Brumosa, varrida pelo vento e, naquele ano de independência, 1990, as duas velhas estariam a despedir-se. Repito: juntar comove-me, separar entristece-me.
Isso para vos dizer que um dia, julgo que do verão de 1971, indo de Paris num calhambeque, desembarquei num concerto no campus da cidade universitária de Grenoble. O convívio com alguns artistas permitiu-me chegar aos bastidores e estava lá uma lenda, Paco Ibáñez. Neruda dera-lhe poemas para cantar e, no Olympia, ele traduzira Brassens para castelhano. Pai valenciano e mãe basca, Ibáñez conhecia o exílio francês desde a adolescência porque o pai foi combatente republicano na Guerra Civil. Proibido de cantar em Espanha, Paco Ibáñez acabava de voltar ao exílio, depois de ter vivido alguns anos em Barcelona. Por isso o tínhamos naquela festa contra as ditaduras peninsulares. Naquela tarde, a lenda estava irritada: na plateia de estudantes, alguns bascos, adeptos do IRA, gritavam contra Espanha.
Paco Ibáñez cantava sobretudo em espanhol, que era a língua comum dos seus - familiares e companheiros, sendo que alguns destes falavam também outra língua de Espanha. Ele também cantava em catalão e euskera. Mais tarde faria um disco com memórias de infância na língua da mãe e cantaria Palavras Para Julia, homenagem à mãe do poeta catalão Juan Augustin Goytisolo, que morrera num bombardeamento franquista.
Comportamento igualíssimo, por exemplo, ao de Joan Manuel Serrat, cantor catalão, que dedicou um álbum ao poeta espanhol Antonio Machado que morreu no dia em que pôs o pé fora da pátria, quando fugia da derrota republicana em princípios de 1939. Serrat cantava desde 1969 «caminante, no hay camino, se hace camino al andar», o que para quem conhece o destino de Machado é tão dolorosamente irónico.
Então, aqueles gritos contra a sua Espanha irritaram Paco Ibañez. Mandou-os calar. Subiu a viola e pôs-se a cantar: «Andaluces de Jaén / aceituneros altivos / decidme en el alma: quién / quién levantó los olivos?» Um valenciano, filho de basca, pôs-se a cantar as palavras de um sevilhano, Miguel Hernández, que seguiu, também em 1939, oposto e igual caminho do de Antonio Machado. Na derrota da liberdade, este fugiu pela fronteira da Catalunha para França; Hernández, pela da Andaluzia com Portugal, foi preso em Moura e, entregue pela polícia de Salazar a Franco, foi condenado à morte e morreu na prisão.
No verão de 1971, como vos disse, tirei um curso intensivo sobre História de Espanha, na Universidade de Grenoble. Cerca de três minutos. Como sou generoso, dou-vos de borla a sebenta onde me formei: aquela canção, Andaluces de Jaén, cantada por Paco Ibáñez, está no Youtube. Infelizmente, desculpem a antiguidade da minha memória, não é a versão de 1971, no campus de Grenoble, de que julgo não haver registo.
Mas a tal do Youtube também serve: é de 2002 e Ibáñez canta no Palau de la Música Catalana, jóia de Barcelona. Oiçam as gentes da plateia a saber os versos da história comum. Do verso de entrada, «Andaluces de Jaén / aceituneros altivos / decidme en la alma: quién / quién levantó los olivos?», a todas as quadras que respondem o mesmo: «No los levantó la nada / ni el dinero, ni el señor / sino la tierra callada/ el trabajo y el sudor...» Oiçam a oração de um povo com um passado comum.
Por falar em Barcelona, agora me lembro, no princípio do texto eu disse que os meus primeiros Jogos Olímpicos foram os de Madrid, em 1992. Enganei-me. Foram nesse ano, certo, mas em Barcelona. Com esta história da pátria catalã oprimida e tal, por um instante convenci-me de que nunca um país opressor proporia organizar os JO a uma colónia desapossada das liberdades... Jogos Olímpicos que, aliás, Madrid nunca teve. Emendo, pois, a minha frase inicial: «Lembro-me tão bem dos Jogos Olímpicos de Barcelona.» E lembro-me que do que gosto mesmo é da vontade conseguida de juntar, de juntar-nos. O que tem sido, ao longo dos séculos, a história dos povos do país ao lado e, desde há 40 anos, a história da sua democracia constitucional.
No fundo, esta crónica é um plágio da resposta que Joan Manuel Serrat - uma vida a amar alto a Catalunha, mesmo quando isso era perigoso - deu, nestes dias de incerteza, à pergunta do jornal El Periodico de Catalunya: e agora? Disse Serrat: «Todos seguiremos a fazer o que fazemos: cada um com o seu trabalho, com os seus sonhos, com o seu mundo. E quantos mais juntos o façamos, melhor. Para todos.» Reparam nas cautelas com que um antigo combatente já fala?
Um autorretrato da mãe do novo ministro dos Negócios Estrangeiros inglês. Sobre esta escolha , no mínimo insólita, Ferreira Fernandes escreveu ontem no DN: «Boris Johnson vai ser ministro dos Negócios Estrangeiros. Quando ouvi a notícia, julguei ser mais uma piada internacional sobre Durão Barroso. Aquele que ganhou o brexit à custa de não querer estrangeiros, ganhar aquele ministério - reparem na equação: sem Estrangeiros, resta Negócios - pareceu-me uma lição de franqueza ao nosso José Manuel. Ao menos o inglês diz logo ao que vem. Mas fui injusto, com o inglês, claro. O outro merece todas as suspeitas. De Boris Johnson não se lhe conhecem apetites de Tio Patinhas pelo ouro, não é um goldman, mas o seu novo posto não deixa de ser uma piada. Boris ser chefe da diplomacia britânica é um paradoxo como, sei lá, um tipo que recebeu 140 por cento de juros dum banco manhoso defender no Conselho de Estado sanções por Portugal derrapar nas finanças. De sublinhar, porém, que a contradição do inglês foi por motivos nobres. Há meses, estava a Turquia a perseguir um escritor alemão por difamar Recep Erdogan, Boris fez um poema em que gozava com os hábitos sexuais do presidente turco. O problema é que o episódio não é único e Boris faz gala duma linguagem rude e ofensiva.»
Durante o mês de agosto – todos os dias, respeitando o descanso de domingo, porque inventar também cansa – o jornal Diário de Noticias publicou um folhetim de verão contando o setembro que vinha a seguir: «As eleições que ninguém queria ganhar». Como o seu nome indicava não era sobre os mistérios da estrada de Sintra. A trama era inventada, como costume nos folhetins, mas era sobre política. Tratou-se, pois, de uma ficção política.
O autor começou por ser Anónimo, mas acabou revelado como
Ferreira Fernandes.
«Um futebolista português foi transferido do Santa Clara, Açores, para o modesto Jaén, Espanha. Na apresentação, ontem, ele chumbou em memória: apareceu de T-shirt com a cara de Franco estampada. Não a de Franco Baresi, grande líbero, que brilhou no Milan, mas a do general Francisco Franco Bahamonde, não confundir com Federico Bahamontes, lendário ciclista, ganhador dum Tour. Quer dizer, o nosso patrício, com tanta escolha haveria logo de ir pela cara dum pulha. Lá esteve, com sorriso de defeso e um criminoso ao peito. Se fosse manobra publicitária, seria de arromba (muitos tweets, ontem), mas foi só ignorância, ele não sabia de Espanha. Pior, os do clube de Jaén - que viram o português, do chegar até se sentar na sala das apresentações, e não o preveniram - alinharam em maior ignorância, não sabiam nada da sua Jaén. Esta é a andaluza capital mundial do azeite, cercada de oliveiras. Um dia, noutra eternidade, ouvi Paco Ibáñez a cantar "Andaluces de Jaén". Voz dorida dum exilado, a cantar quem trabalha: "Andaluces de Jaén / Aceituneros altivos/ Decidme en el alma, quien? / De quien son esos olivos? / Andaluces de Jaén." Palavras de Miguel Hernández, que começou pastor na Andaluzia e fez-se poeta grande. No fim da guerra civil, tentou fugir para Portugal mas Salazar devolveu-o a Huelva, ao tal da T-shirt. Miguel Hernández morreu numa cela, em 1942, aos 31 anos. Nada é tão perda de memória como quando ela é exposta ao peito.»
Ferreira Fernandes DN, Lisboa, 30 jul. 2015
Quando vi este rapazinho na tv, também eu me lembrei da canção de Paco Ibáñez.
Como era de prever, as últimas semanas foram férteis em novidades editoriais sobre o 25 de Abril, deixo aqui duas delas de cariz mais biográfico e memorialista respectivamente.
«No DN colaborou em tempos Fernando Pessoa, um bêbedo. Um tipo que era apanhado, não poucas vezes, em flagrante de litro. Para desculpa do DN, naqueles tempos ainda não havia o arsenal de leis purificadoras que permite, hoje, o Correio da Manhã (salve, ó bíblia dos costumes morigeradores!) tirar os seus jornalistas da perdição. Um jornalista tipo CM vai para uma reportagem e salta-lhe ao caminho o advogado da empresa: "Fulano, vamos lá ao nosso exame de deontologia!" O advogado aponta a linha reta feita a giz que o jornalista, de braços abertos, tem de percorrer sem bambolear. Exame conseguido, o jornalista já pode ir fazer, por exemplo, a manchete de ontem do CM: "Pai de Sicrano em fuga por tráfico de droga". Não importa que o Sicrano, de 19 anos, não tenha culpa dos tráficos do pai. Leva com o seu nome, o traje de trabalho (Sicrano é jogador de futebol) e a foto na primeira página. Algumas almas piedosas podem não achar isto bonito, mas o importante, não é?, é que aquela manchete não foi feita por um bêbedo. Um jornal com manchetes alcoólicas, fontes anónimas e jornalistas sóbrios. E, suspeito, talvez outros jornais lhe sigam o exemplo. Infelizmente, eu, que sempre bebi pouco, tenho de declarar que nunca soprarei o balão numa redação. Cruzei-me com alguns camaradas talentosíssimos e bêbedos, e, esgotadas todas as tentativas de lhes chegar às canelas, quero guardar a última esperança de o conseguir com uns copos.»
Ferreira Fernandes In: Diário de Notícias, Lisboa, 28 fev. 2014
Em geminação com o Arpose.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Olhares em vias de extinção
por FERREIRA FERNANDES
Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de
Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De
Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os
contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma - o de
formar a minha ideia de Itália. Ele deu àquela foto um nome irónico: "Os
italianos voltam-se" (1954). Com uma exceção, a do homem com o jornal dobrado no
bolso, toda a multidão de homens não se volta (pelo menos, ainda): encara uma
mulher. Todos, o da lambreta, os que sorriem e os que a medem, o operário gingão
e o burguês engravatado, de barba cinzenta e cuidada, todos (mais de 20 capazes
de serem reconhecidos) olham-na de frente, a ver chegar a Dama de Branco. Ela
vai para eles. No centro da foto que lhe presta homenagem, ela, toda de branco,
sapatos, malinha de mão e vestido que, justo, lhe vem da meia perna, subindo,
coleante. As curvas, outra ironia, são também evocadas por uma tabuleta naquela
praça: "Zucca". Em italiano quer dizer melancia. Não sabemos se os italianos se
vão voltar; provavelmente, vão. E ela talvez goste do efeito que causa, há uma
satisfação sugerida pela inclinação da nuca. De Biasi morreu esta semana, em
tempos em que é raro o que aquela foto mostra. Caiu em desuso olhar assim e
gostar de ser olhada assim (e por algumas boas razões). Mas uma coisa é certa: o
objeto daqueles olhares é soberbo.
Andavam Aníbal e Maria a passear o rebanho, não na Cova de Iria, mas no Poço de Boliqueime, quando viram dois clarões como se fossem relâmpagos. Nesse momento, viram em cima de uma azinheira uma Senhora vestida de branco e mais brilhante do que o Sol. Que disse: "Não tenhais medo." E Maria: "Donde é Vossemecê?" O rebanho não se surpreendeu, já se habituara a ver Maria muito afoita de conversa. O Aníbal é que não percebia nada, porque enquanto a prima via, ouvia e falava com a Senhora, ele só via mas não ouvia. A primita segredou-lhe ao ouvido e então ele virou-se para o rebanho [leitor, por favor, leia os telexes da Lusa para ver que não é o cronista que endoidou] e disse: "Penso que a sétima avaliação foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima. É o que a minha mulher diz." O rebanho ficou espantado: 1) porque não sabia que os primos se tinham casado; 2) porque aquilo era a primeira aparição e não a sétima avaliação; 3) não entendia como a Angela Merkel (os rebanhos são muito prosaicos e o que veem, veem) se aguentava em cima da pequena azinheira. Havia um quarto espanto: como é que o Aníbal para confirmar que pensa, diz o que a Maria lhe diz? Mas o rebanho estava era preocupado com os cortes - em tempos de troika, até os três pastorinhos passam a dois - e com aquele "não tenhais medo" da gorda da azinheira que lhes cheirava a ameaça. Ruminava, o rebanho: isto nem com o Milagre do Sol em Outubro vai lá...
Ferreira Fernandes Diário de Notícias, Lisboa, 15 maio 2013 Não dá para acreditar!!!
Num comentário que escrevi, um querido amigo leu neste provérbio "saudades" de um ex-ministro. Não, não era e não é. Era apenas, e só, acerca desta sucessão de impostos, em que se vão substituindo uns por outros, sem que entrem em vigor, e parecendo ser cada vez pior. Um jornalista do Diário de Notícias, Ferreira Fernandes, pensou exactamente o mesmo (por outras palavras) e escreveu uma crónica que, com a devida vénia, aqui republico.
Derrotem-no que ele gosta O ministro Gaspar tinha um problema: o défice. Então, apresentou a solução 1: cortes de subsídios dos funcionários. Mas o decreto foi ao Tribunal Constitucional e chumbou: à medida faltava equidade, só batia em parte dos portugueses e poupava outros. Quem gostou do chumbo foi o próprio ministro, porque entretanto tinha-se agravado o tal défice e dava-lhe jeito aumentar, somando os privados aos funcionários, o universo a quem bater. Gaspar inventou, então, a solução 2: mudanças na TSU. Porque digo que ele gostou da oportunidade de passar da solução 1 para a solução 2? Ora, porque todos os ministros das Finanças adoram aumentos de receita. Aconteceu, porém, que a nova solução também não vingou. O povo saiu à rua e a TSU foi corrida. Quem gostou do novo desaire, quem foi? Já adivinharam, o ministro das Finanças. Ele esfregou as mãos com a derrota da solução 2 porque, entretanto e mais uma vez, já precisava de ir mais longe e passar à solução 3. Foi o que conhecemos ontem: o aumento brutal do IRS. Ou, como diria o ministro Gaspar, um upgrade, mais um aumento da receita. E eu já tremo por alguém (rua, tribunais, o que seja) tentar chumbar a 3 e obrigue o ministro ao prazer da solução 4. Portugueses, fiquem quietos: estamos a criar um monstro, um sadomasoquista, que adora ser derrotado na sua medida anterior só pelo prazer que lhe dá em bater-nos ainda mais com a medida seguinte. Por favor, não lhe alimentem o vício.
Diário de Notícias, 4 de Outubro de 2012, p. 56
No domingo, na TVI, surpreendendo quem pensava que ele ia falar dos cortes nos subsídios, o professor Marcelo deu a tática ao FC Porto. Disse: "Onde se vai buscar pontos para ganhar o campeonato? Há duas fórmulas. A fórmula Benfica e a fórmula FCP corrigida. A fórmula Benfica é essa de que se fala, foi o que o Benfica fez para ganhar o campeonato no ano passado, quando foi buscar 50% de pontos a todos os clubes. Isto é a fórmula Benfica. O que é que tem a seu favor? Já passou na Federação. Se a Federação já aprovou um campeonato ao Benfica, agora é só dar o dobro de pontos ao Porto. Bom. Depois, há a fórmula FCP corrigida: em vez dos outros clubes perderem os dois jogos, é só perderem nas Antas e depois o resto é para ser repartido por todos. E, portanto, o Pinto da Costa tem de optar ou por aderir à tese Benfica - o que não deixa de ser irónico, porque os portistas disseram as últimas do Luís Filipe Vieira - ou à tese do FCP corrigida. A segunda é mais justa e por uma razão: o Porto não ganha um campeonato há anos..." Aí, Judite de Sousa interrompeu: "Há aqui algo que me está a fazer confusão. Não tenho ideia de que ganhou o Benfica." Marcelo: "Então, não?!" Judite: "Quando?" Marcelo: "No... no... ano passado. Não se lembra?" Judite: "Nos dois últimos anos quem ganhou foi o Porto." Marcelo: "Foi?!!!"... - Isto aconteceu (mais ou menos) no domingo passado. No próximo, o professor vai falar da vitória da Alemanha na II Guerra Mundial.
Da Graciosa, um olhar de Cavaco Silva: "Ontem, eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante." O Presidente diz coisas de forma simples mas de que se podem tirar diversas lições, às vezes até opostas. Ele sabe que as vacas não sorriem. As vacas, não, mas há uma que sim: La Vache Qui Rit. E foi essa, talvez, a mensagem que Cavaco nos mandou da Graciosa. Infelizmente, mais uma vez, ele foi enigmático. Quis a frase pastoral dar-nos uma luz ao fundo do túnel? Lembrem-se das imagens do célebre queijo fundido: na embalagem redonda, uma vaca ri com, pendurada nas duas orelhas, a sua própria imagem rindo. Uma vaca ri e ela própria reproduz imagens infinitas de vacas rindo... Eis a mensagem: Cavaco diz que cada português voluntarioso poderá incitar mais e mais portugueses a defrontar a crise com optimismo. Infelizmente o jeito de falar do Presidente também dá para outras interpretações. Aquela técnica de La Vache Qui Rit foi chamada de mise en abyme por André Gide (com Cavaco estamos sempre a tropeçar em referências cultas). Gide referia-se aos contos que contavam outros contos, o que na pintura é um quadro que reproduz uma cópia menor do próprio quadro. Ora o nome mise en abyme, cair no abismo, foi justamente dado pela vertigem causada por se ver a repetição das imagens. Abismo? Será que Cavaco nos quis anunciar alguma coisa má?