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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

«Tratem-me por Ismael»!

Il. Jerry LoFaro

Num inquérito estival que a revista Marianne está a fazer a seis escritores, à pergunta sobre a frase mais prometedora de um livro, Pierre Michon refere, entre outras: «"Call me Ismahel", l'ordre sans replique qui entame Moby Dick.»
Este é também para mim um dos melhores inícios de livros que li.
Os outros são: «Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem.» (Camus - O estrangeiro). Nesta linha, Vergílio Ferreira abre Alegria breve com «Enterrei hoje a minha mulher». Pelo menos, eu quando li este romance lembrei-me do início de O estrangeiro.
Também me recordo muitas vezes do princípio de Páscoa feliz, de Miguéis:
«O juiz mandou-me finalmente erguer e, sem tirar os olhos dum maço de processos que tinha sobre a mesa, perguntou-me:
«- Tem mais alguma coisa a alegar em sua defesa?»

Capa de Fred Kradolfer

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

«Tratem-me por Ismael»!

Joseph Oriel Eaton - Herman_Melville, 1870 
Harvard University, Houghton Library 

Herman Melville nasceu há 150 anos.

«Tratem-me por Ismael. Há alguns anos - não interessa quando - achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e a tornar a ver o mundo das águas. É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação. [...] Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atração pelo oceano.» (Ed. Relógio d'Água)
Assim começa um dos mais empolgantes romances da literatura universal. Li-o muito jovem numa versão que Alsácia Fontes Machado fez para a Biblioteca dos Rapazes.


Muito mais tarde, li a obra numa tradução de Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves para a Relógio d'Água:

1990

sábado, 15 de novembro de 2008

As nove rodagens mais azaradas do cinema - 5

"Moby Dick" (John Huston, 1956). Inspirado no clássico de Herman Melville, que conta a inquietação de um homem (o capital Ahab) que procura acertar contas com o mundo matando a baleia que lhe arrancou uma perna, o filme não se adivinhava tarefa fácil. A obra literária era demasiado densa, pesada e Orson Welles que já havia tido esse projecto em mente bebia uma garrafa de conhaque antes de rodar o seu discurso no papel do sacerdote. A adaptação do filme esteve a cargo do escritor Ray Bradbury, que se mudou para casa de Huston, na Irlanda, a fim de se concentrar melhor nas 1.500 páginas do livro. Leu-as nove vezes e entrou em crise. Mas a obsessão do realizador conseguiu levar o árduo desafio por diante; John Huston que não descurava nem o mais ínfimo pormenor transfigurou-se de tal forma a parecer-se com o capitão Ahab...
No set, situado em Las Palmas, os geradores da baleia de cola adesiva e dos temporais faziam tanto barulho que comprometiam a qualidade do áudio. E para complicar ainda mais as rodagens, nos 70 dias em que a equipa permaneceu na Grã-Canária não parou de chover. Gregory Peck viu-se em maus lençóis com a baleia de cola adesiva que quase matou os actores com os seus movimentos bruscos. Os takes sucediam-se a um ritmo frenético e, no final , na sala de montagem, reduziram-se os 120.000 metros de fita gravada para apenas 3.500.