Memórias da sua vida associativa estudantil, de imigrada em Paris para acompanhar o seu marido exilado Alfredo Noales, a vida difícil naquela cidade, o convívio com os exilados são parte do objeto deste livro de Helena Pato, nascida em Aveiro em 1939. O seu regresso a Lisboa com o marido que morreria um mês depois (mas mesmo assim foi preso pela PIDE à chegada ao aeroporto durante umas horas), a militância no PCP, a sua prisão, professora liceal e fundadora do MDM, são outras páginas da sua vida narradas neste livro.
«A noite mais longa de todas as noites é, pois, uma obra tecida com o fio do júbilo dos ideais, mas igualmente com os acontecimentos vividos no nosso país, então asfixiado por uma longa, cruel e impiedosa ditadura. Sendo tudo isto elaborado com uma vivacidade e uma argúcia que nos leva a lê-la até chegar ao fim, para logo desejar tornar ao seu começo». (Do pref. de Maria Teresa Horta).
O canal franco-alemão arte repetiu ontem "Les choses de la vie", obra prima de Claude Sautet de 1970, já aqui referida por MR na semana passada, quando soubemos do desaparecimento de Michel Piccoli que contracena com Romy Schneider nesta película.
Piccoli é um dos gigantes do cinema europeu que merecia um post extenso e digno da sua carreira.
Por falta de tempo, não me é possível, pelo que fica apenas uma fotografia do ator de 1966, com a sua esposa de então, Juliette Gréco.
Georges Moustaki faleceu hoje, em Nice. Nascido no Egito, exilou-se em França e escreveu para quase todos os grandes nomes da canção francesa.
«Possuía uma doçura infinita e imenso talento. Era como todos os poetas, alguém diferente, porque acaba por ser sempre essa diferença que conduz ao talento.»
A propósito da publicação das memórias de Juliette Gréco.
Neuilly-sur-Seine: Michel Lafon, 2006
Este livro em formato álbum, principalmente ilustrado, resultou de entrevistas com Michael Delmar e Sophie Agacinski.
O bairro de Saint Germain des Près na vida da cantora: a infância, a época do existencialismo e do convívio com Sartre, Simone de Beauvoir, Camus ou Boris Vian, a Libertação, os caveaux, etc. Foi, para mim, apesar de tudo, um livro um pouco dececionante. Talvez as memórias sejam mais atraentes.
Sartre disse-lhe um dia, segundo conta própria Gréco à revista Lire (hors-série n.º 10):«"Gréco, voilà, [...] vous allez chanter." J'ai commencé par bourgonner. Mais il a insisté: "Si, si, vous avez une très belle voix, vous allez chanter. Mais qu'est-ce que aimez comme genre de chanson?" j'écoutais peu de chose, mais j'avais en tête une chanson que chantait Cora Vaucaire, Les Feuilles mortes. "Très bien, a-t-il répliqué, on va appeler Kosma." J'avais les yeux ronds comme des boules de billard. Il m'a dit de venir le lendemain matin chez lui, qu'il me chercherait des textes. J'étais pétrifiée. Je n'ai pas dormi de la nuit et le lendemain matin, à neuf heures, je suis allée chez lui. Il y avait une pile de livres sur le coin du bureau. "Voilà, dit-il, j'ai travaillé por vous, j'ai marqué des pages, lisez et faites votre choix." Là-dedans, il y avait des textes de Tristan Corbière qui ne m'allaient pas du tout. Il y avait Raymond Queneau, Jules Laforgue et Paul Claudel. Il riait en m'entendant refuser Corbière parce que c'était des histoires de marins, et Claudel parce que je le trouvais trop ennuyeux. J'ai pris Si tu t'imagines, d'un auteur inconnu qui s'appelait Raymond Queneau, et L'Eternel féminin de Jules Laforgue. Il était content de mon choix car l'Eternel féminin de Jules Laforgue était cité dans le prochain livre de Castor, Le Deuxième Sexe. Il m'a alors proposé de me faire un cadeau, une chanson inédite qu'il avait imaginée pour Huis clos et dont il avait aussi écrit la musique. C'était Dans la rue des Blancs-Manteaux. Mais comme il n'aimait pas la musique qu'il avait écrite - uns sorte de mélopée arabisante -, il l'a confiée à Kosma. «Voilà comment j'ai commencé à chanter. C'était un´époque étrange, rapide, chalereuse et folle, et cet homme s'est occupé de moi comme si j'étais une enfant. J'était d'ailleurs une enfant.»