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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 6


501. ... não sou uma autora perfeita, nem que se preocupe com a perfeição. Evidentemente, há textos que são mais valiosos, mais acabados. Um crítico português disse que eu era uma autora de pequenos textos e tinha razão. Realmente, não sou uma autora de fazer planos, como o Thomas Mann que levou dez anos para escrever a Montanha Mágica. Nesse tempo, eu escrevia dez livros. Cada escritor tem a sua maneira de estar no mundo. Grandes autores como Flaubert ou Gide tinham essa necessidade de aperfeiçoar a sua linguagem. Eu não. É muito português, de resto, não se valorizar demasiado. É um dos nossos defeitos e, ao mesmo tempo, uma qualidade. Porque, na verdade, é tudo transitório.
- Agustina Bessa-Luís, in Mil razões para ler um livro/3 , Alma Azul, Abril de 2009.

sábado, 11 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 5

493. O Cardoso Pires era boa onda, um gajo porreiro e um grande escritor. O que ele escanhoou a língua portuguesa! Eu gosto muito dos que lavam a Língua. Há escritores que fazem isso. Despojam-na daquele excesso de ornamentação, de adjectivos, de descrições, de mobília, do raio que o parta.
Na poesia também acontece isso. A poesia é outro universo.

Tu lês o Mário Cesariny ou o Herberto Helder, ou o João Miguel ou o Joaquim Manuel Magalhães e ficas...
O António Franco Alexandre. O Rui Cinatti. É uma coisa devastadora. Portanto, o problema está resolvido. Pessoa. Camões. Quer dizer, o problema da nossa literatura está resolvido. Não é preciso inventá-la ou reinventá-la. Está escrita.

- Miguel Esteves Cardoso, in Mil razões para ler um livro/3 , Alma Azul, Abril de 2009.

Escanhoando, como ele disse do Cardoso Pires, os excessos e as blagues do MEC, dou por mim a concordar com as suas escolhas poéticas. Qualquer dos poetas que ele invocou é daqueles cujas palavras se cravam em nós. Para o bem e para o mal.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 4

489. Não. Eu não pertenço àquele tipo de escritores que anda com as antenas no ar, captando o que está fora: diálogos, impressões, imagens e tudo mais. Não. Enfim, não ando com um caderninho de notas para apontar uma frase interessante que tivesse escutado. Eu não preciso de estímulos exteriores. O que preciso, sim, é que a minha cabeça, por iniciativa própria, dê o pontapé de saída do jogo que vai começar. Isso leva-me a ter- para histórias que são romances- ideias um pouco estranhas: que a caverna de Platão está debaixo de um centro comercial, que as pessoas de repente decidem votar em branco... Ideias que podem estar num romance, que em princípio não são a ideia motora de um romance mas que no meu caso, sim.

- José Saramago, in Mil razões para ler um livro/3 , Alma Azul, Abril de 2009.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 3

- fotografia de Graça Sarsfield.


485. Ler uma coisa que me maravilha tanto que penso que nunca chegarei lá.
Sinto isso desde os 16 anos, quando comecei a tentar escrever. Foi o que senti quando li
pela primeira vez Virginia Woolf ou, no caso português, a Maria Gabriela Llansol, a
Agustina Bessa-Luís, e muitos outros. Quando li as suas obras pensei que aquilo era
inultrapassável. E era. E é. Só que há outros caminhos, como a Casa do Senhor que tem
muitas moradas...

- Maria Velho da Costa, Mil razões para ler um livro/3 , Alma Azul , Abril de 2009.


Palavras que deveriam estar gravadas à entrada de uma qualquer sala de escrita criativa, ou em qualquer outro lugar onde se ensine Literatura. Para que o peso dos gigantes que nos precederam não nos iniba a descobrir os outros caminhos de que fala Maria Velho da Costa.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 2

484. Jean-Paul Richter, precursor dos românticos alemães, é o maior prodígio de todos os tempos, e não me falem de Goethe nem de Dante sequer.
Não foi do capote de Gogol que saiu tudo, mas da cabeleira de Jean-Paul. O próprio Freud, furtivamente, foi lá buscar a sua terminologia. O romance nasceu com ele no primeiro dia da Primavera de 1763. Lê-lo produz um choque que vai até ao ciúme mais negro por todos aqueles que o possam ler também...

- Agustina Bessa-Luís, in Mil razões para ler um livro/3 , Alma Azul, Abril de 2009.

Escolhi esta citação de Agustina por duas razões:a primeira, como exemplo de um escritor que foi grande na sua época, com enorme influência sobre as gerações seguintes mas que hoje está praticamente esquecido- quem lê Jean-Paul Richter nos nossos dias, mesmo na Alemanha? A segunda razão, tem a ver com o efeito que alguns escritores causam noutros, o "ciúme mais negro" de que fala Agustina, que é coisa bem diferente do sentimento causado no simples leitor, ainda que este possa ser igualmente forte.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Se razões fossem precisas... - 1

Nota prévia: Até para não eternizar esta série, fiz uma selecção das citações antologiadas e o principal critério foi o de escolher autores portugueses. De entre estes, prevaleceu o meu gosto pessoal. Ficam, assim, explicados os saltos na numeração. 481. Por exemplo, eu gosto do Ulisses, do Joyce, claro que gosto. Mas muitas vezes irrita-me porque sinto que é acrobacia pela acrobacia. Aí, aproximo-me mais do Tolstoi quando ele fala na eficácia do livro. O livro tem que ser eficaz. Tem de se sacrificar a tentação a favor da eficácia. Por exemplo, o Nabokov. É um excelente escritor e irrita-me. Irrita-me porque estou sempre a vê-lo dizer-me : repara como eu sou inteligente, olha como eu faço isto. E faz bem, de facto. Mas estou a sempre a vê-lo a ele atrás dos livros. Já estou farto de dizer isto : o livro é que tem de ser inteligente.

- António Lobo Antunes, Mil razões para ler um livro/3, Alma Azul, Abril de 2009.