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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Leituras no Metro - 2995

Lisboa: Tinta da China, 2013.

Ryszard Kapuściński (1932–2007) foi um jornalista e repórter polaco. Conhecido pelo seu «jornalismo mágico», foi correspondente internacional da Agência Polaca de Imprensa (PAP) e foi neste papel que esteve em Angola em 1975, depois da saída dos portugueses e antes de ser proclamada a independência do país. 
Há muito que eu queria ler este livro. Proporcionou-se agora quando uma amiga o estava a devolvê-lo a outra. Emprestou-mo e comecei a lê-lo, quase compulsivamente.
Dá-nos um retrato da ponte aérea que Portugal criou para retirar os portugueses de Angola e da «cidade de madeira» (como ele chama aos caixotes com os pertences dos evacuados), transportada por mar e que ele mais tarde vê ao longo do cais do Tejo.
Quando a «cidade de pedra», Luanda, ficou inabitável, Kapuściński foi para a frente de guerra, juntando-se a um batalhão do MPLA, comandado por Ndozi.
«Ju-Ju é um angolano branco, o que significa que a sua família é de Portugal, mas que ele nasceu em angola, a sua terra natal. Há centenas como ele no MPLA. Lutam nas linhas da frente ou trabalham no estado-maior ou na administração. Todos usam barba. Aqui, é um sinal distintivo: um branco de barba é de Angola e ninguém lhe pede documentos ou o detém para interrogatório.» (p. 58)
«Os prisioneiros [FNLA] e os guardas [MPLA] estavam embrenhados numa conversa animada, a discutir os resultados do desafio de futebol do dia anterior. Ontem, o Benfica tinha derrotado o Ferroviário por 2-1 no estádio em Luanda. O Ferroviário, que já não perdia há dois anos, saiu de campo vaiado pelos seus próprios adeptos. A equipa perdeu porque o seu principal goleador, Chico Gordo, deixara o seu clube para ir jogar para o Sporting de Braga, em Portugal.» (p. 62)

domingo, 8 de março de 2026

Como o futebol pode unir os povos


«Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques. Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protetor da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?»
António Lobo Antunes numa entrevista à Visão.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Artur Jorge (1946-2024)

Artur Jorge, antigo jogador da Académica e do Benfica, treinador do Porto e selecionador nacional, faleceu hoje.
Em 1969 foi impedido pelo governo de participar na final da Taça de Portugal, no auge da crise académica de Coimbra. Dado que estava a cumprir o serviço militar, não o deixaram sair do quartel para treinar, pelo que não pode jogar. Mas assistiu ao jogo.
Estive nesse jogo, um dos poucos a que fui ao longo da minha vida, e que o Benfica ganhou com um golo de Eusébio, para tristeza de muitos benfiquistas (como eu) que estavam  a torcer pela Académica.


Em 1969, Artur Jorge mudou-se para o Benfica, onde esteve até 1975.


Depois foi treinador do Porto e selecionador nacional.
Sócio n.º 1 e fundador do Sindicato dos Jogadores, fundado em 1972, com a ajuda do então advogado Jorge Sampaio.

Em 1983, publicou um livro de poemas, que irei hoje reler:


sábado, 22 de junho de 2019

1969: A Crise Estudantil e a final da Taça

Há 50 anos chegam à final da Taça de Portugal as equipas do Benfica e da Académica. Os estudantes estavam em plena crise académica, que se iniciara a 17 de abril, com oito estudantes suspensos e alguns incorporados compulsivamente no serviço militar, como o jogador Artur Jorge da Académica que já não ode jogar a final da Taça, e que já tinha negociado a transferência para o Benfica.
Américo Tomás nem assistiu ao jogo não tivesse de entregar a Taça à Académica. E o jogo não foi, pela primeira e única vez, transmitido pela televisão. As únicas imagens existentes são as que se encontram no final deste post.
Leia aqui mais sobre o jogo.

 
Equipas do Benfica e da Académica 
Equipa da Académica com as capas aos ombros, em sinal de luto. Dpois de ter jogado as meias finais vestindo branco com um fumo no braço, foi avisada que não poderia jogar a final com qualquer sinal de luto. Obtaram assim por levar as capas aos ombros.
Equipa da Académica com os jogadores identificados.
 O público e as tarjas que passavam de mão em mão para a polícia não as conseguir agarrar.


Nesse dia entrei pela segunda vez num estádio de futebol; da primeira tenho uma vaguíssima ideia. Sou do Benfica, mas fui torcer pela Académica como muitos benfiquistas. E sentimos uma grande desilusão, uma grande tristeza, por o Benfica ter ganho nesse dia.

domingo, 19 de maio de 2019

1969: Jaime Graça, campeão nacional

Ontem Bruno Lage, quando entrou em campo para receber a Taça, vestiu a camisola de Jaime Graça, que foi campeão pelo Benfica há 50 anos.

De pé, da esq. para a dir.: Fidalgo, Eusébio, Artur Jorge, Jaime Graça, Torres, Coluna, Simões, Jacinto, Cruz, Fernandes e José Henrique. Em baixo: Toni, José Augusto, Malta da Silva, Néné, Zeca, Artur, ? e Adolfo.

Palavras de Bruno Lage, esta madrugada no Marquês de Pombal:
«"É só para avisar que ninguém vai para casa sem deixar a praça limpa, ok?".
«"Que este título, que esta reconquista, que este campeonato que estava perdido, seja também a forma de nós começarmos a dar mérito a quem ganha, e tem de partir de nós agora, [...] a partir do nosso exemplo, começarmos a olhar para os nossos adversários e quando eles ganharem, também lhes dar mérito, porque só assim é que, quando nós ganhamos, eles nos vão começar a dar mérito."»
Bruno Lage aproveitou a oportunidade para lembrar que «"o futebol é apenas o futebol", considerando que "há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos de lutar". Partindo do fervor desportivo nutrido pelos adeptos, o treinador disse que se as pessoas "se unirem, se tiverem a força, se tiverem a exigência que têm no futebol noutros aspetos de Portugal, na nossa economia, na nossa saúde, na nossa educação, nós vamos ser um país melhor"».
Retirado do Sapo.


Marcadores de livros - 1348

Antes que venha aí algum comentário, declaro já que acho este Pedro Guerra um arruaceiro. Tenho este marcador há muito tempo, mas hoje é um bom dia para o postar.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Leituras no Metro - 1005

Estoril: Prime Books, 2012

Um dia destes entrei na Almedina e comprei este livro. Não estava nos meus propósitos. Mário Wilson foi sempre uma pessoa com quem simpatizei. Abri o livro e comecei a ler o prefácio de Almeida Santos, que foi companheiro de Mário Wilson numa República coimbrã por onde passavam Agostinho Neto ou Daniel Chipenda (companheiro de Mário Wilson na equipa da Académica). Mário Wilson já havia passado pela Casa dos Estudantes do Império onde convivera com Marcelino dos Santos, Mário de Andrade, Amílcar Cabral, etc. O prefácio é vivíssimo e testemunho de uma amizade.
O avô de Mário Wilson era Harry Wilson, um judeu americano que foi para a África do Sul e daí passou para Moçambique, onde casou com uma negra.
Mário Wilson jogou no Sporting (onde foi substituir Peyroteo) e na Académica. Foi treinador da Académica (onde começo por ser adjunto de José Maria Pedroto (com quem não se deu bem) e depois do seu mestre Cândido de Oliveira) e do Benfica.
Uma leitura improvável, mas de que estou a gostar imenso.

1949
1956
Sporting, campeão nacional na época de 1950-1951.
Académica de Coimbra, vice-campeã na época de 1966-1967.
Em cima: Mário Wilson (treinador), Maló, Marques, Curado, Gervásio, Celestino, Rui Rodrigues, Pascoal (massagista). Em baixo: Crispim, Ernesto, Artur Jorge, Vítor Campos e Rocha. 
Benfica, campeão nacional na época de 1975-1976.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Leituras no Metro - 967

Alfragide: Esfera dos Livros, 2018

Béla Guttmann é hoje considerado como o primeiro treinador mediático do futebol e foi o homem que abriu caminho aos famosos treinadores da era moderna. Foi, como afirma David Bolchover na introdução, «o primeiro de uma estirpe , uma superestrela internacional do futebol que conseguia espremer até à última gota as vantagens atléticas e táticas das suas equipas, ainda José Mourinho e Pepe Guardiola não eram sequer nascidos.» (p. 12)
Sobrevivente do Holocausto, escapou à morte escondido num sótão perto de Budapeste, enquanto milhares de compatriotas judeus (incluindo muitos dos seus familiares mais próximos) eram levados para a morte. A sua vida profissional esteve desde cedo ligada ao futebol, tendo passado por grandes clubes como jogador e treinador. Em 1958 chega a Portugal para treinar o Futebol Clube do Porto, que com ele ganha o campeonato nacional (1958-1959). Na época seguinte vai para o Benfica e vence dois campeonatos nacionais (1959-1960 e 1960-1961), a Taça de Portugal (1961-1962) e a Taça dos Campeões Europeus (1960-1961 e 1961-1962). É também pela mão de Béla Guttmann que, em 1960, Eusébio ingressa no Benfica. 
Após os êxitos alcançados, a recusa de um aumento de vencimento motiva a saída do treinador. Na despedida este terá declarado: «Sem mim, nem em cem anos o Benfica vai conquistar outra taça europeia!», frase que ficou conhecida como a «maldição» de Guttmann.
Estou a gostar de ler esta biografia.

Acho horrível a Esfera do Livro  ter paginado o livro com dois tipos de letra. Enfim... (maus) gostos!...

Béla Guttmann com Eusébio e Coluna.


sábado, 14 de junho de 2014

Os meus jogadores

À parte do jogador do Benfica, os outros são Felipe González, Fidel Castro e François Mitterrand.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Para o Benfica

Um trevo de Amesterdão.


O Futebol nas Letras - 25


SOB O SIGNO DE EUSÉBIO

Pouco ou quase nada entendo de futebol. Penso que isto não me diminui nem me favorece. Tudo o que se conhece e se sabe é enriquecimento. Mas poucas devem ser as pessoas com capacidade e tempo suficiente para atender todas as solicitações que a vida moderna lhes oferece. Enfim, pertenço àqueles que não veem desafios de futebol, nem nos estádios nem na televisão, aliás coisa que não possuo. Apesar disso voltei duma viagem ao estrangeiro com a sensação de a ter feito sob o signo de Eusébio. Foi na última semana de julho que passámos a fronteira da França para a Alemanha. O funcionário, ao revistar os nossos passaportes, exclamou: 
- Portugueses? Bravo! Eusébio! Eusébio! 
Olhámo-lo com estranheza. Não compreendemos tal manifestação. Vendo-nos assim, estupefactos, tornou-se ainda mais barulhento, quase tanto como os turistas alemães que viajam em magotes compactos por este mundo fora:
- «Messieurs! Señores! Verstehen Sie nicht? Eusebiio!» 
E ilustrou a última palavra com o gesto de um pontapé no ar. 
Ah, o Eusébio! Pois claro, claro! Oferecemos-lhe um sorriso: quem não conhecia o Eusébio? Numa pequena estalagem de Estugarda, onde entrámos à hora do jantar, perguntámos à dona se não nos podia arranjar alguma coisa para comer. Estava a ver, na televisão, o desafio entre Portugal e a Rússia. Apontou, sorrindo, para o Eusébio e despachou-nos rapidamente, com a desculpa de que pouca coisa tinha na despensa – na melhor das hipóteses, umas fatiazinhas de chouriço e pão – e que, se descêssemos a rua e atravessássemos a avenida, encontraríamos um bom restaurante. Era óbvio que não se queria privar do espetáculo. 
A rua e a avenida estavam despovoadas. Coisa estranha na cidade de Estugarda, àquela hora. Provavelmente a população encontrava-se absorvida pelo desafio. O bom restaurante era uma cervejaria. Também ali se estava a ver o jogo; e nós, enquanto comíamos, víamos também. O locutor salientava alguns nomes com nítido carinho. Entre eles o de Eusébio. E os fregueses da cervejaria repetiam, com o mesmo carinho: 
- Eusébio, Eusébio… 
Depois, numa outra cidade da Alemanha. Assistíamos a uma comemoração particular, num hotel de primeira. Havia mais de cem convidados, entre os quais representantes do governo, de vários organismos oficiais, de corporações, etc. Felicitaram-nos pela nossa bela equipa de futebol e, sobretudo, pelo Eusébio. Um velho conhecido – aliás bastante racista no que respeita aos negros, o que nos levava muitas vezes a ardentes discussões – confessou que sentia uma verdadeira ternura por «esse moço, esse Eusébio». E, no fim do banquete, mal tinham acabado os brindes, numeroso grupo correu para a sala onde havia um aparelho de televisão a fim de assistir ao desafio Portugal-Inglaterra. 
Na Áustria, no hall do nosso hotel, travei conversa com um engenheiro checo. 
- Portugal? – cismou – Mas eu sei alguma coisa de Portugal! 
- Talvez tenha lido um livro, um artigo? Ou visto um filme? – ajudei. 
Não, não tinha. Meti, então, um pouco hesitante: 
- Eusébio? 
- Isso! Precisamente! – exclamou. – Eusébio, que grande artista! O rei do futebol. Uma maravilha! 
Na pacata Suíça, onde bem se pressente que os trabalhadores estrangeiros – e entre eles os portugueses – não são lá grandemente estimados, vi muito suíço desconsolado com a vitória final da Inglaterra. Também ninguém queria que os alemães tivessem ficado em primeiro lugar, não; quem devia ter ganho era a simpática equipa portuguesa, com aquele grande virtuoso do jogo, o Eusébio. Que pena! 
Em Zurique, um motorista de táxi perguntou-me se eu alguma vez vira Eusébio. Disse-lhe que si, ainda há pouco, na televisão, em Estugarda.
- Mas nunca o viu em Portugal? – perguntou. 
- Não, não tenho televisão em casa. 
Insistiu: 
- O que queria saber é se já o viu em carne e osso. 
Tive de o desiludir: não, nunca o vira em carne e osso e, para me justificar, expliquei-lhe que vivia no Porto e ele em Lisboa. 
- Mesmo assim… - retorquiu com certa estranheza. 
Podia reproduzir mais conversas no género, mas o espaço concedido a um artigo deste teor não mo permite. Devo só confessar que, por várias vezes, me senti deslocada neste mundo por não saber falar com desenvoltura e entusiasmo sobre futebol e sobre Eusébio. 
Mea culpa

Ilse Losa
In: Diário Popular. Lisboa. 6 out. 1966

Hoje todo o Português é Benfiquista

A nossa vinheta de hoje lembra a Taça dos Cubes Campeões Europeus 1960/1961. Um grande clássico do futebol Mundial, no primeiro título europeu do Benfica. Espero que logo, venha mais uma!

José Águas ergue Taça dos Clubes Campeões Europeus

Onde me apetecia estar



Turim : porque não a conheço, e porque hoje vão estar muitos portugueses lá. Espero que voltem satisfeitos ! :)