
Prosimetron
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Há santos e santos...

De Camille
Livros de cozinha - 27
O Dom das Lágrimas - Crónicas de João Bénard da Costa

"O livrinho que, agora, Manuel Rosa me pôs nas mãos e que daqui tanto lhe agradeço - é uma antologia de orações da antiga liturgia cristã, escolhidas e traduzidas por José Tolentino Mendonça e Joaquim Félix de Carvalho. Tem na capa (cabeça, busto e braço ) da Madalena de Artemisia Gentileschi que está no Pitti (o que eu gosto desse quadro!) e chama-se O Dom das Lágrimas*. (...)
José Tolentino evoca sobretudo a espiritualidade dos Padres do Deserto e dos místicos. Evagro, o Pôntico, que explicou a acédia como a dureza das almas que resistem às lágrimas. São Gregório de Nazianza, São Gregório de Nissa, o Diácono Efrém. Fala de Orígenes e da«tristeza segundo Deus», «sede da alma», «húmido silêncio espiritual». «As lágrimas são uma fala estimada», «uma chuva de ouro», «um alagado lençol de piedade sobre o mundo». E recito ainda outra citação do Poeta, esta de Cioran:« As lágrimas são aquilo que permite a alguém ser santo, depois de ter sido homem».
Por isso, a partir do século VIII e IX, através das chamadas Missas de Alcuíno, como aprendi com a erudita introdução de Joaquim Félix de Carvalho, surgiram nos códices medievais, formulários de missas « pro petitione lacrimarum». Essas missas rezaram-se até ao Vaticano II, que acabou com elas, na reforma litúrgica que acabou com tantas outras coisas que nunca deviam ter acabado.
São belíssimas as orações da antologia, publicadas em latim e na tradução portuguesa.
Transcrevo estas duas, que no livro levam os números XII e VII:
Deus omnipotente
considera favorável estas orações
e alaga nossos olhos com rios de lágrimas
que apaguem as flamas dos incêndios merecidos
[...]
digna-te dar abundância
luz da inteligência verdadeira a estes submissos sevos
lágrimas aos olhos
contrição no coração
até que purificados do actual luto e da tristeza espiritual
da morte eterna nos afastemos como de uma ruína"
*Colecção Gato Maltês, edição Assírio & Alvim, 2002
João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e outras, 1º Volume, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p.71-74.
Prelúdio e Fuga nº 1, BWV 846, de "O cravo bem temperado" de Joahnn Sebastian Bach Cravista-Helmut Walcha
domingo, 2 de maio de 2010
«Do retrós e do retro»

Rua da Conceição, antiga Rua dos Retroseiros
Foto Armando Serôdio, 1963
Arq. Fot. CML, PT/AMLSB/AF/SER/S01852
«Quando se fala da animação da Baixa de Lisboa, da necessidade de música e de lojas, restaurantes e hotéis de charme, espanto-me sempre - sim, ainda - por nunca se falar do carácter nostálgico, encantatório e museológico das gerações de ademanes, penduricalhos e apêndices que se exibem e comercializam nos retroseiros. Espanto-me por não surgir, entre os que se anunciam arquitectos de intervenções savíficas, a ideia de criar uma espécie de oficina de intervenções artesanais naquela rua, um sítio onde se possa mandar coser botões, fechos, tricotar cachecóis, subir bainhas, apertar saias, aplicar cotoveleiras. Um lugar onde, mesmo que a maioria dos clientes já não saiba o que é um retrós (descodificado no dicionário como "fio de seda torcido geralmente usado na costura"), se possa celebrar e viabilizar a existência de retrosarias. E fazer mais infinito, torcer e retorcer o prazer que elas são.»
Final da crónica de Fernanda Câncio «Do retrós e do retro» (In: Notícias Magazine, 2 Maio 2010)
Acho que uma das funções das câmaras municipais deveria ser preservar algumas das suas lojas, como edifícios e espaços de interesse municipal.
Palácio de Queluz: Sala do Toucador
Às nossas mães
Ás MR e Ana e às mães dos nossos companheiros de blogue e dos nossos leitores, que não morrem nunca, um "bouquet de Liz" e um poemaRaspanete em directo...
Um quadro por dia - 57
Frederick, Lord Leighton of Stretton(1830-1896), Mother and Child (Cherries), 1865 , óleo sobre tela.Para a minha
Flores - Diego de Rivera 2
Canção

Tinha um cravo no meu balcão;
xxxxxveio um rapaz e pediu-mo:
xxxxx- mãe, dou-lho ou não?
Sentada, bordava um lenço de mão;
xxxxxveio um rapaz e pediu-mo:
xxxxx- mãe, dou-lho ou não?
Dei um cravo e dei um lenço,
xxxxxsó não dei o coração;
xxxxxmas se o rapaz mo pedir:
xxxxx- mãe, dou-lho ou não?
Eugénio de Andrade
Congresso Os médicos e a República
Entrada livre
20 Maio, 5.ª feira
Abertura
09H30 – Entrega de documentação
10H00-10H30 – Mesa de abertura
I Painel (Moderador Almirante Luíz Gonzaga Ribeiro)
10H30-10H50 – Miguel Bombarda: morte na Revolução
Dr. Vítor Freire, HMB
10H50-11H10 – Luíz Cebola: a República e o Estado Novo
Doutor Aires Gameiro, OHSJD, SHM-SGL
11H10-11H30 – Reynaldo dos Santos: o Homem e o Médico
Coronel Médico Carlos Vieira Reis, SHM-SGL
11H30-12H00 – Debate
12H00-14H00 – Almoço livre
II Painel (Moderador Dr. João Pedro Xavier de Brito)
14H00-14H20 – O Dr. Anastácio Gonçalves e o coleccionismo em Portugal
Dr. José Alberto Ribeiro, CMAG
14H20-14H40 – Prof. Reynaldo dos Santos e a Casa das Memórias:
A memória de um Médico humanista
Dr.ª Assunção Júdice, CMC
14H40-15H00 – Jaime Cortesão Médico
Almirante Luíz Gonzaga Ribeiro, SHM-SGL
15H00-15H30 – Debate
15H30-15H50 – Intervalo
III Painel (Moderador Dr. António Meyrelles do Souto)
15H50-16H10 – Carolina: por entre os itinerários da Memória e da Ciência
Doutora Isabel Lousada, CESNOVA
16H10-16H30 – Adelaide Cabete: uma alma notável da I República
Dr. João-Maria Nabais, SHM-SGL
16H30-17H00 – Debate
21 Maio, 6.ª feira
IV Painel (Coronel Médico Carlos Vieira Reis)
10H30-10H50 – Dr. António Mendes Lages: ciência e devoção
na República
Doutor Augusto Moutinho Borges, MSJD, CEIS20-UC, SHM-SGL
10H50-11H10 – Fernando Matos Chaves: o percurso de um médico
Prof. Doutora Madalena Esperança Pina, FCM-UNL, CEHFCI, SHMSGL
11H10-11H30 – D. Tomaz de Mello Breyner: entre a Monarquia
e a República
Dr. António Meyrelles do Souto, SHM-SGL
11H30-12H00 – Debate
12H00-14H30 – Almoço livre
V Painel (Moderadora Prof.ª Doutora Madalena Esperança Pina)
14H30-14H50 – Ricardo Jorge e a Saúde Pública em Portugal
na 1.ª República
Doutora Rita Garnel, CESNOVA
14H50-15H10 – Doutor José Alberto Faria: Director-Geral da Saúde
Prof. Doutor Pereira Miguel, INSDRJ, SHM-SGL
15H10-15H30 – Debate
15H30-15H50 – Intervalo
VI Painel (Moderador Doutor Augusto Moutinho Borges)
15H50-16H10 – Egas Moniz: o político na sombra do cientista
Mestre Manuel Correia, CEIS20-UC
16H10-16H30 – Médicos Sócios da Sociedade de Geografia de Lisboa,
na 1.ª República (1910-1926)
Maria Luísa Villarinho Pereira, SHM-SGL
16H30-17H00 – Debate
17H00 – Encerramento
Poema à Mãe - Eugénio de Andrade
1910 - 16


ver mais:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dicion%C3%A1rio_Aur%C3%A9lio
A todas as mães!
"Bethânia, Caetano e Dona Canô cantam Oração da Mãe Menininha"
A Terra das Ameixas Verdes - Herta Müller

Parque Eduardo VII, Lisboa
sábado, 1 de maio de 2010
Lisboa: Onde se pode encontrar um bibliófilo ao sábado à tarde?
Flores, Diego Rivera - 1º de Maio.
Ainda bem que está sol...
Mês das flores
Cantiga de Maio
Chaplin - Tempos Modernos!

«As mulheres coram por ouvirem falar daquilo que não receiam de modo algum fazer.»
Montaigne (1533-1592)
Esta vida é de enganos

Esta vida é de enganos
Ganha quem pode ganhar
Eu, para o peixe crescer
Muito tenho de soprar
Lisboa: vendedeira de peixe
Emma Goldman, a propósito do 1.º de Maio

Lisboa: Assírio & Alvim, 2008
«[...] a 1 de Maio de 1886, uma imensa onda grevista assolou o país. Só em Chicago, que encabeçava o movimento, paralisaram incialmente vinte e cinco mil trabalhadores mas, três dias passados, a grande cidade estava em greve geral. Entretanto, ocorriam por todo o lado confrontos sangrentos entre a polícia e mercenários e os trabalhadores. O ataque mais brutal foi sobre os grevistas da McCormick Harvester Company de Chicago, onde a polícia e os Pinkertons desfecharam deliberadamente rajadas matando quatro trabalhadores e ferindo outros em elevado número.

http://www.boisestate.edu/socwork/dhuff/us/EXTRA%20IMAGES/haymarket%20(Small).jpg
«Contra este assassínio a sangue-frio, foi convocada uma reunião maciça de protesto para o dia 4 de Maio, em Haymarket Square, que decorreu pacificamente. Apesar de o próprio Mayor de Chicago, Carter Harrison, ao sair do local, ter informado o chefe da polícia de que tudo se estava a passar ordeiramente, pelas dez horas da noite, já com o último orador – Samuel Fielden – na plataforma e muitas pessoas a dispersar, o Capitão Ward irrompeu por entre os manifestantes que restavam com uma força policial, batendo impiedosamente em homens e mulheres. Então, inesperadamente, algum objecto voou a zunir pelo ar: era uma bomba que explodiu matando um polícia e ferindo vários. Os tiros de resposta sobre a multidão em fuga acabaram por matar mais seis polícias e muitos civis. O número total de mortos foi de sessenta e sete, a maioria devido a ferimentos de balas e não a estilhaços da bomba. Não se descobriu o bombista, nem a polícia fez grandes esforços para o identificar; em vez disso, prendeu todos os oradores e uns tantos anarquistas conhecidos. A polícia e os jornais inflamaram a opinião pública contra os trabalhadores contra os políticos de esquerda, contra os anarquistas em particular.
«De volta a casa, Emma Goldman estava certa do que sempre suspeitara: George Engel, Samuel Fielden, Adolph Fischer, Louis Lingg, Óscar Neebe, Albert Parsons, Michael Schwab, August Spies – ameaçados com a pena máxima – e os outros homens de Chicago estavam inocentes. Tinham sido apanhados numa armadilha. No entanto, uma dúvida permanecia. Greie falara deles como socialistas, mas os jornais acusavam-nos de perigosos anarquistas bombistas. Afinal o que era o anarquismo?» (p. 30, 33)

Desenho de Walter Crane, 1894
Isto é história?
«Na segunda metade de Julho de 1966, realizou-se, nos estádios da Grã-Bretanha, a parte final do Campeonato Mundial de Futebol, em que o nosso país obteve um ressonante terceiro lugar. O interesse do público transferiu-se para os grandes encontros em que a selecção lusa participou. Dir-se-ia que os restantes aspectos pouco ou nada contaram para as multidões que se reviam, em Portugal, nos actos que mais acendiam a vibração nacional. [...].»
Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal (1960-1968). Lisboa: Verbo, 2010, p. 222
Hoje na FNAC, abri este livro 'ao calhas' e comecei a ler o que atrás transcrevi. Depois, andei um pouco para trás e li umas quantas linhas sobre a crise académica de 1962, qualquer coisa semelhante a umas páginas autobiográficas.
Sessão da Noite do último dia do mês


sexta-feira, 30 de abril de 2010
Não Tenho Avesso - As Noites Afluentes (IV)

NÃO TENHO AVESSO
Sou como sou, não tenho avesso,
nem outro rosto por detrás
deste que te olha do interior de mim.
A minha voz é o pensamento revelado
sem meandros nem sombras.
Quando falo estou em equação com os outros,
sou um número exacto, não a incógnita.
Quem me quiser basta olhar-me de frente,
dizer ao que vem com palavras de dentro
e a porta se abrirá como um abraço.
Mas se a porta ficar fechada,
volta apenas quando
os meus olhos não tropeçarem
na voz enganosa que me chama.
António Arnaut, As Noites Afluentes, Coimbra: Coimbra Editora, 2001, p.145
«Foi uma ideia que lhe surgiu pela hora do jantar»...
Li isto na crónica de Carla H. Quevedo, no Metro de hoje.
























