Amélia em Campo de Ourique
«De Portugal a São Petersburgo, temos cafés, lugares onde podemos instalar-nos de manhã, pedir um café ou um copo de vinho, passar o dia a ler jornais de todo o mundo, a jogar xadrez e a escrever. A lista dos livros magníficos que foram escritos em cafés +e enorme. Há pessoas que sempre escreveram nesses lugares e preferem essa forma de vida. Não há cafés em Moscovo, uma cidade que faz fronteira com a Ásia. Há uma fronteira clara: Odessa assinala o limite do café. Eu sou uma criatura do café, não do pub. [...] Sinto-me em casa em qualquer sítio da Europa porque logo que chego me dirijo a um café, ou desafio alguém para um jogo de xadrez, ou peço que me tragam os jornais naquelas estruturas de madeira antigas onde são enrolados. É a sociedade mais igualitária do mundo porque, pelo preço de um café ou de um copo de vinho, se pode ficar o dia inteiro à mesa, a escrever ou a fazer outra coisa. Depois das aulas em genebra, os meus alunos sabiam em que estabelecimento eu tomava o segundo café da manhã ou um copo de vinho branco e apareciam para conversar. É aí que a vida intelectual fervilha.

«São questões muito difíceis; é inútil negociarmos quer com as nossas paixões, quer com os nossos maiores erros. Os meus filhos diriam que a América é o futuro e talvez já seja o presente. Preferiram viver assim, orgulho-me deles e gosto ed os visitar muitas vezes. Mas as minhas memórias são demasiado poderosas, a educação francesa foi demasiado forte. Porque não vou para o céu? Sem dúvida, por excelentes razões morais, mas também por razões muito mais práticas: já lá estive. O que é o céu? É a Galleria em Milão. Eu sentado à frente de um capuccino a sério, o La Stampa, o Frankfurter Allegemime, o Le Monde e o Times. Tenho um bilhete para o La Scala no bolso e sinto os dez ou doze cheiros complexos da Galleria - do chocolate, da padaria, das vinte livrarias (que estão entre as melhores do mundo); os sons dos passos das pessoas dirigindo-se à opera ou aos teatros nessa noite; o modo como Milão vibra em nosso redor. Já lá estive, não terei direito a um segundo céu.»
Entrevista de George Steiner a Ronald A. Sharp para a Paris Review, 1995.
In: Entrevistas da Paris Review. Lisboa: Tinta da China, 2017, vol. 3, p. 131-132.
Um tema que George Steiner retomou em Uma ideia de Europa.