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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Leituras no Metro - 3002

Michel Lafon, 2026.

Este livro é o resultado de uma conversa proveitosa entre Amin Maalouf e Éric Fottorino sobre a Fraternidade, um tema universal e que o papa Francisco trouxe para a atualidade, numa época em que o mundo não consegue conversar e tem comportamentos desumanos em relação ao outro.
Amin Maalouf e Éric Fottorino falam sobre a Fraternidade como uma necessidade vital. Através da história, da literatura, da política e, principalmente, das suas experiências pessoais, eles acreditam que a Fraternidade se constrói e tem que se defender. 
Um livro que se lê com gosto e que é fruto da conversa havida no Festival Albert Camus,  organizado em Lourmarin, pelos Rencontres Méditerranéennes Albert Camus. Durante três dias, são organizados espetáculos, leituras musicais, workshops, conferências, debates, projeções e exposições em torno de um tema. E o tema da edição de 2024 foi «A Fraternidade».

sábado, 18 de abril de 2026

Leituras no Metro - 2991

«Antes de ser tornar imigrante, é emigante; antes de chegar a um país, tem de sair de outro, e os sentimentos de uma pessoa em relação á terra que deixou nunca são simples. Se saímos, é porque há coisas que rejeitamos - repressão, insegurança, pobreza, ausência de horizontes. Mas esta rejeição é muitas vezes acompanhada por um sentimento de culpa. Há pessoas próximas que se veem abandonadas, uma casa onde crescemos, tantas e tantas lembranças agradáveis. Há também laços que persistem, os da língua ou religião, e também a música, os companheiros de exílio, as festas, a cozinha.

«Paralelamente, os sentimentos em relação aos países de acolhimento não são menos ambíguos. Se lá chegámos, é porque esperamos ali uma vida melhor para nós e para os nossos; mas esta expectativa vem acompanhada de uma apreensão perante a desconhecido, visto que nos encontramos numa relação de forças desfavoráveis, tememos ser rejeitados, humilhados, estamos à espreita de qualquer atitude que denote desprezo, ironia ou piedade.

«O primeiro reflexo não é alardear a diferença, mas passar despercebido. O sonho secreto da maior parte dos migrantes é ser tornado filho do país. A sua tentação inicial é imitar os seus anfitriões, e por vezes consegue-o. Na maioria das vezes, não. Não tem o sotaque certo, nem o tom certo de cor, nem o nome nem o apelido, nem os papéis necessários, o seu estratagema é rapidamente descoberto. Muitos sabem que nem vale a pena tentar de depois mostram-se por orgulho, por bravata, mais diferentes do que são. Alguns até - tenho de o lembrar? - vão ainda mais longe, a sua frustração desemboca numa contestação frontal.»

(Amin Maalouf - As identidades assassinas. Barcarena: Marcador, 2023, p. 42)

O melhor, mesmo, é lerem este livro.

domingo, 12 de abril de 2026

Leituras no Metro - 2989

Mapa mostrando a linha de demarcação da Linha Azul entre o Líbano e Israel, estabelecida pela ONU após a retirada israelense do sul do Líbano em 1978.

«Por ter vivido num país em guerra, num bairro submetido a bombardeamentos pelo bairro vizinho, por ter passado uma ou duas noites numa cave transformada em abrigo, com a minha jovem mulher grávida e o meu filho pequeno, os ruídos das explosões lá fora, e ali dentro mil rumores sobre a iminência de um ataque, bem como mil bisbilhotices sobre famílias degoladas, eu sei perfeitamente que o medo pode fazer oscilar qualquer pessoa para o crime. Se, em vez de falsos boatos, houvesse uma verdadeira chacina no meu bairro, teria eu mantido  por muito tempo o mesmo sangue-frio? Se, em vez de passar dois dias nesse abrigo, eu tivesse de lá passar um mês, ter-me-ia recusado a segurar a arma que me seria posta nas mãos?
«Prefiro não fazer a mim mesmo estas perguntas com muita insistência.» (Amin Maalouf - As identidades assassinas. Barcarena: Marcador, 2023, p. 32)

Quantos assassinos ou terroristas vão sair destas guerras no Médio Oriente? De Gaza, da Cisjordânia, do Irão? Miúdos que tinham pouco e ficam sem nada, sem pais, sem comida, sem casa, entregues a si próprios...

sábado, 11 de abril de 2026

Leituras no Metro - 2988

Barcarena: Marcador, 2023


(p. 25-28)

O melhor, mesmo, é ler o livro - atualíssimo. Este e outros livros de Amin Maalouf.

domingo, 23 de junho de 2024

Marcadores de livros - 3059



Versos e reversos. Estes marcadores estão dobrados. Em baixo abertos:

O da esq. é o reverso dos dois trillers.

Versos e reversos.
Versos e reversos.
Versos e reversos.
Versos e reversos iguais.

Versos e reversos.

Ver mais marcadores desta col. aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Marcadores de livros - 2950

O primeiro livro que li de Amin Maalouf, autor que muito aprecio. Ultimamente, reli Samarcanda.


Amin Maalouf fez ontem 75 anos. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Émilie hoje na Gulbenkian

Retrato da autoria de Maurice Quentin de La Tour

«Não há que confundir os preconceitos com as conveniências.»
Émilie du Châtelet (in Discurso sobre a felicidade)

A ópera Émilie, de Kaija Saariaho, com libreto de Amin Maalouf, é hoje e amanhã cantada na Gulbenkian. Pressentido a morte, a matemática e física Émilie du Châtelet relembra a sua vida.

domingo, 13 de junho de 2010

Amin Maalouf recebe prémio Príncipe das Astúrias

A notícia é do dia 9 de Junho mas só hoje tive conhecimento. O escritor libanês Amin Maalouf, radicado em França desde 1975, foi galardoado com o prémio Príncipe das Astúrias das Letras.
Da sua vasta obra, centrada nas problemáticas do mundo árabe, lembro As cruzadas vistas pelos árabes ou Leão, o Africano como livros imperdíveis.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ainda Adriana Mater 2, para responder a Mário Tavares (MT)

Mário Tavares (MT) colocou-me uma questão sobre esta ópera que foi a seguinte:
Para si, que conhece a ópera, a personalidade de Yonas é como a mãe ou como o pai?

Mário Tavares li o Adriana Mater e adorei. Como já referi num comentário nunca vi a ópera mas interessava-me bastante ler Maalouf nesta sua vertente. Fiquei fascinada pela linguagem.
x
Quanto à sua pergunta, Yonas não foi Caim. Yonas era uma mistura dos dois porque Adriana também tinha o seu lado negativo: a vingança! Contudo, no fim ele ficou mais parecido com a mãe, superou mesmo a mãe com a escolha que tomou. Vou transcrever a conclusão da ópera, que no livro diz 7º quadro:

ADRIANA:
"Se tu fosses mesmo filho desse homem,
Tê-lo-ias matado!
Hoje tenho finalmente a resposta:
O sangue do matador mitigou-se no convívio com o meu.
Hoje, a minha vida, que eu julgava perdida,
É por fim recuperada.
Não estamos vingados, Yonas,
Mas estamos salvos.
Vem aproxima-te, envolve-me nos teus braços!
Preciso de repousar a cabeça um instante
Sobre o ombro de um homem."

Amin Maalouf, Adriana Mater, Lisboa: Difel, 2007, p. 110-111.

Desculpe não ter respondido de imediato mas por razões alheias não consegui ler nada durante dois dias. Espero que a minha resposta o satisfaça. Gostaria muito de ver esta ópera. Vou ver se arranjo o outro libreto dele O Amor de Longe.

sábado, 1 de agosto de 2009

Adriana Mater, Amin Maalouf.

A ópera "Adriana Mater" de Amin Maalouf foi o segundo libreto do autor depois de "O Amor de Longe". Kaija Saariaho compôs esta ópera, para uma criação na Bastilha (Paris) em 30 de Março de 2006, com encenação de Peter Sellars e direcção musical de Esa-Pekka Salonen.

A ópera tem 4 personagens: Adriana; Refka, irmã de Adriana; Yonas filho de Adriana; Tsargo o pai de Yonas e violador de Adriana.


(Adriana canta um velho refrão nostálgico)


"ADRIANA:

Quando se fecham os olhos da cidade,
Revelo a minha voz.
Esta voz que colhi
Num jardim de Outono,
Depois deitei nas páginas de um livro;
A minha voz que trouxe do país
Entre lençóis da cor de enxofre;
A minha voz que introduzi no meu corpete,
Sob as pregas do coração.
(...)"


Amin Maalouf, Adriana Mater, Lisboa: Difel, 2007, p.19.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um mundo sem regras - 2

«Hoje, esquecemos facilmente que, nas primeiras décadas do século XX, importantes países árabes ou muçulmanos tinham uma vida parlamentar animada, uma imprensa livre e eleições relativamente honestas pelas quais os povos se apaixonavam. Foi o caso não só da Turquia ou do Líbano, mas também do Egipto, da Síria, do Iraque e do Irão, não sendo inelutável que todos eles resvalassem para regimes tirânicos ou autoritários.»
Amin Maalouf
In: Um mundo sem regras. Lisboa: Difel, 2009, p. 122

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um mundo sem regras - 1

Miss Tolstoi,
Vou pedir ao Jad que faça de intermediário para lhe entregar um exemplar deste livro que ando a ler e que estou a adorar. Para, eventualmente, lhe aguçar o apetite, deixo um excerto.



Se, por exemplo, se aceita o postulado segundo o qual a calamidade da nossa época é a «barbárie do mundo muçulmano», a observação do Iraque só poderia apoiar esta impressão. Um tirano sanguinário, que reinou pelo terror durante um terço de século, martirizou o seu povo, delapidou o dinheiro do petróleo em despesas militares ou sumptuárias; invadiu os vizinhos, desafiou as potências, multiplicou as fanfarronices sob os aplausos de admiração das multidões árabes antes de se desmoronar sem um verdadeiro combate; agora que o homem caiu, lá está o país a entrar no caos, lá estão as diferentes comunidades a massacrarem-se entre si, como quem diz: «Estão a ver, para controlar este povo era preciso uma ditadura!»
Se inversamente se adopta como axioma o «cinismo do Ocidente», os acontecimentos explicam-se de maneira igualmente coerente: como prelúdio, um embargo que precipitou todo o povo na miséria e que custou a vida a centenas de milhares de crianças sem nunca privar o ditador dos seus charutos; depois uma invasão decidida sob falsos pretextos, com desprezo pela opinião pública e pelas instituições internacionais, e motivada, pelo emnos em parte, pela vontade de pôr a mão nos recursos petrolíferos; a partir da vitória americana, uma dissolução apressada e arbitrária do exército iraquiano e do aparelho de Estado, bem como a instauração explícita do comunitarismo no centro das instituições, comos e alguém tivesse escolhido deliberadamente mergulhar o país na instabilidade permanente; além disso, as exacções na prisão de Abu Ghraib, a tortura sistemática, as incessantes humilhações, os «danos colaterais», as inúmeras faltas impunes, a pilhagem, a velhacaria…
Para uns, o caso do Iraque demonstra que o mundo muçulmano é impermeável á democracia; para os outros, revela o verdadeiro rosto da democratização à maneira ocidental. Até na morte filmada de Sadam Hussein poderíamos ver quer a ferocidade dos americanos quer a dos árabes.

Para mim, os dois discursos são justos e os dois são falsos. Cada um gira na sua órbita diante do seu público, que o compreende com meias-palavras e que não ouve o discurso adverso. Pelas minhas origens, pelo meu itinerário, posso reclamar-me simultaneamente destas duas órbitas, mas sinto-me cada vez mais afastado quer de uma quer da outra.

Lisboa: Difel, 2009, p. 30-31