Prosimetron

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sexta-feira, 14 de maio de 2010

14 de Maio de 1998

Devido a um ataque cardíaco, The Voice calava-se para sempre.

É hoje...


... às 21h30, no Coliseu.

«On a beuacoup dit et écrit sur ce ballet [Le Presbytère, rebaptizado Ballet for life] qui depuis dix ans [agora treze] connaît un succès jamais démenti. Quel est le message que vous avez voulu y inculquer?
«[Maurice Béjart -] Les réussites sont des conjonctions de talents et de circonstances. il y a le talent de la musique de Queen que je connaissais peu, que j'ai découverte et qui m'a fascinné, passionné, bouleversé. Il y a le talent de Versace. Il m'a fait beaucoup de très beaux costumes mais là, il a éclaté. Il a réussi son coup en étant à la fois moderne et classique, sobre et délirant. Et puis la compagnie s'est toujours bien sentie dans ce spectacle. Le Presbytère est en réalité le cri d'angoisse d'une jeunesse pour laquelle le problème de la mort par l'amour, en l'occurrence le sida, s'ajoute à celui des guerres multiples qui n'ont cessé dans le monde depuis la fin de la deuxième guerre mondiale! C'est donc à la fois un ballet sur la jeunesse et... sur l'espoir puisque, indécrottable optimiste, je crois malgré tout que "The show must go on" comme le chant Queen. Il est dédié et pensé par rapport à des êtres que j'ai connus et qui sont mort de sida, des hommes qui sont morts trop tôt. C'est por ça qu'il ya mort Mozart. Il n'est pas mort du sida mais il est mort trop jeune. Il y a des artiste sqi sont morts en pleine carrière, en pleine gloire, en pleine force. Dans le ballet, j'évoque de manière évidente, Freddy Mercury, Jorge Donn et Mozart. Trois personnes qui sont mortes à quarante ans au sommet de leur art.»
(Michel Robert - Maurice Béjart, une vie: derniers entretiens. Bruxelles: Luc Pire, 2008, p. 196)

Sabem quem inventou o pára-brisas intermitente?


http://nimg.sulekha.com/others/original700/2008-8-14-18-43-1-a955ecdd3ab9418ebd79d877af9fccaf-e3b7e9421f4f4c62982b5aca5a4b8e5b-2.jpg

Eu não sabia. Foi Robert W. Kearnes (1927-2005), que travou uma batalha judicial de muitos anos para que a sua patente fosse reconhecida, depois de ter sido roubada pela Ford. A história está agora no cinema: Golpe de génio. Fui ver e gostei.

O que estou a ouvir

Haydn: Mass, Hob. XXII: 7 in B flat major 'Kleine Orgelmesse' (Missa brevis Sancti Joannis de Deo 'Little Organ Mass')

Embora não pareça e nela não exista qualquer referência a essa obra, a capa do disco é a seguinte:

Mas no verso lá consta que a Missa Breve de São João de Deus ocupa as faixas 13 a 18.

Trata-se de uma gravação excelente realizada a 20 Junho de 1998, em Estúdio, mas como se estivesse a ser tocado numa grande Igreja. Usa instrumentos da época.
A orquestra é de Budapest: Nicolaus Esterhazy Sinfonia;
Coro: Hungarian Radio Chorus;
Kurt Azesberger (tenor), Robert Holzer (bass-baritone), Viktoria Loukianetz (soprano), Gabriele Sima (contralto);
Maestro: Bela Drahos

Chegou-me, hoje, acompanhado de uma espiga. Obrigado!

Quotidianos - 33


Max Slevogt (1868-1932)
«A bailairina Pavlova», 1909

Desden, Gemäldegalerie, Neue Meister


Jacques-Émile Blanche (1861-1942)
«Tamara Karsavina dançando O Pássaro de Fogo», 1910

Paris, Musée de l'Opéra

Porque hoje é dia de bailado.

Amigo a que Vieste? Pedro Tamen (Amizade o que é?)

As Cartas a Lucílio de Séneca levaram-me a reflectir sobre a amizade. Amizade é um sentimento complexo e se calhar recheado de relativismo. Devia ser um sentimento objectivo, claro e simples, sem lugares comuns tal como Séneca o transmitiu. Não banalizo a palavra amigo mas confesso que não entendo bem esta afirmação:
"Delibera em comum com o teu amigo mas começa por formular sobre ele um juízo correcto: após o início da amizade, há que ter confiança. Antes, sim, é que se deve ajuizar."
Como é que é possível ajuizar a priori sobre um amigo, se a amizade se vai construindo e à medida da sua construção é que se conhece o outro?
Gostava que me ajudassem a descodificar a mensagem.
Perante este problema lembrei-me do poema: Amigo a que vieste? de Pedro Tamen que de algum modo está ligado à minha dúvida. Não o tinha, por isso, o recolhi do site indicado no link.
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Luigi Deleidi, Donizetti e amici , 1840

Olio su tela cm 68x49 - Bergamo, museo donizettiano - da sinistra l'oste Bettinelli, Gaetano Donizetti, Dolci, Simone Mayr in piedi l'autore Deleidi

Amigo, a que Vieste? Onde foste ao bater das quatro horas e, antes, quem eras tu, se eras? Amigo ou inimigo, posso falar-te agora sentado à minha frente e com os ombros vergados ao peso da caneta? Falo-te sobre a cabeça baixa e vejo para além de ti, no horizonte, teus riscos e passadas; mas não sei onde foste, nem se eras. Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva, fazendo gestos largos ou só um leve aceno; dizes palavras antigas, de antes das quatro horas, e nada sei de ti que tu me digas dessa cabeça surda. Não te pergunto pela verdade, que pensas de amanhã ou se já leste Goethe; sequer se amaste ou amas misteriosamente uma mulher, um peixe, uma papoila. Não quero essa mudez de condolências a mim, a ti, ou só à terra que tu e eu pisamos — e comemos. Pergunto simplesmente se tu eras, quem eras, e onde foste depois que se fizeram quatro horas. Será que não tens olhos? Não tos vejo. De longe em longe agitas a cabeça, mas talvez seja engano. Palavra, não te entendo. Amigo, a que vieste? Pedro Tamen, in "Horácio e Coriáceo" Retirado daqui

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Dia da Espiga ("Música" e não só)

1.ª edição (1926) desenho sem autoria

Várias vezes adormeci ao som destes versos... Bons e velhos tempos. Hoje procurei nas Caixas das Músicas e nas Caixas das Coplas, a partitura original, que é rara, e os seus versos.

Dia da Espiga

Óh! ih! oh! ai!
Esta vida é uma cantiga,
E este dia d' alegria
Vale um ano d' aflição...

Óh! ih! oh! ai!
Porque este dia da espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pão!

Jorra o vinho dos pichéis
Para os lábios das moçoilas,
Mais vermelhas que papoilas
co'as larachas dos Manéis

Há merendas pelos prados,
Gargalhadas pelo ar,
E à beirinha dos valados,
Ouve a gente murmurar:

Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos d'uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...

Óh! ih! oh! ai!
Esta vida é uma cantiga,
E este dia d' alegria
Vale um ano d' aflição...

Óh! ih! oh! ai!
Porque este dia da espiga
É o arauto do dia
Em que o trigo há-de dar pão!

Tomam todos os caminhos
um sabor de romaria,
e até mesmo os pobrezinhos
fingem ter alegria...

E, na volta, já sentindo
que foi tudo um sonho em vão,
inda há ecos, repetindo
pelo espaço esta canção:

Maria, são teus olhos azeitonas!
Cachopa, são teus lábios qual cereja!
E os teus seios, cachos d'uvas que abandonas
À vindima desta boca que os deseja!...

Os versos são de Silva Tavares (1893-1964) e a Música de Alves Coelho (1882-1931).

A criação foi da actriz Deolinda de Macedo e foi o grande êxito da Revista Cabaz de Morangos. A sua estreia ocorreu no Eden-Teatro, em Lisboa, em 1926. Acabava a I.ª República.
Vítor Pavão dos Santos, no seu livro A Revista à Portuguesa, considera "O dia da espiga, um dos maiores sucessos revisteiros de sempre" (p. 38).

A capa de música que hoje apresento (1.ª edição) é rara. Vítor Pavão dos Santos só conseguiu encontrar este exemplar de que se serviu para o seu livro (reproduzindo-a, a preto e branco, na página 39). Os versos, tanto quanto consegui apurar, nunca foram publicados na Net, nesta sua versão correcta e completa.

2.ª edição (1926/1927) Desenho de Botelho (1926)

Aos meus amigos


Pedindo autorização à minha colega Adriana Freire Nogueira vou copiar um post do seu blogue, post que dedico aos meus Amigos.

sobre a amizade

A Natya pediu-me parte da carta 3 (Cartas a Lucílio, de Séneca. Uso a tradução de J. A. Segurado Campos, da Gulbenkian) e ela aqui vai:

Dizes-me que entregaste a carta a um amigo teu, para me trazer, mas em seguida aconselhas-me a não trocar impressões com ele sobre quanto te diz respeito, pois nem tu próprio o costumas fazer. Quer dizer, na mesma carta deste-lhe e recusaste-lhe o título de "amigo".
Ora bem: se tu usaste esta palavra não no seu verdadeiro sentido mas antes em sentido genérico, e lhe chamaste "amigo" tal como a todos os candidatos nós chamamos "respeitáveis cidadãos", ou como às pessoas que encontramos e cujo nome não nos ocorre, cumprimentamos como "senhor fulano" ainda é aceitável; se consideras, porém, "amigo" alguém em quem não confias tanto como em ti próprio, então cometes um erro grave e mostras não conhecer bem o significado da verdadeira amizade.
Delibera em comum com o teu amigo mas começa por formular sobre ele um juízo correcto: após o início da amizade, há que ter confiança. Antes, sim, é que se deve ajuizar. Confundem as obrigações inerentes a este princípio aqueles que, ao contrário dos ensinamentos de Teofrasto, formulam juízos depois de iniciada a amizade, e não estabelecem relações de amizade depois de formularem juízos. Pensa longamente se alguém é digno de que o incluas no número dos teus amigos; quando decidires incluí-lo, então recebe-o de coração aberto e fala com ele com tanto à vontade como contigo próprio.


Acrescento, usando as palavras de Antonio Perez, na introdução à sua obra: Cartas de Antonio Perez Secretario de Estado, que fue del Rey Catholico Don Phelippe II. de este nombre. Para diuersas personas despues de su salida de España, Impresso em Paris, [1600] [fl. II].
No se nombran todos à quien se escrive, porque algunos temen por respectos humanos, pero considerables, aunque aman en el coraçon. Rayz de la Fee, y del Amor el coraçon. Pero la confession de la lengua la prueva del coraçon, como las ramas, y las ojas (que la lengua, y las palabras rama, y ojas son del coraçon) de estar la rayz verde, ò seca. Otros, porque son tan temerosos de suyo sin auaer otra causa, que temen el rayo aun despues de oydo el trueno. Otros, porque no se confirmen por amigos los que no tenian en la rayz, sino en la corteza el nombre.

Este livro, que eu não conhecia, veio parar à minha biblioteca pela mão de uma pessoa amiga.

A Visita - 3!

Os portugueses sabem receber, é um traço da nossa personalidade - a diplomacia! Congratulo-me por se pensar isto do nosso povo, embora não tenha contribuído para tal.

No Público:

"Bento XVI está “satisfeito” com a forma como tem sido acolhido em Portugal. O Papa, que se encontra no terceiro dia da visita ao país, manifestou o seu agrado com a recepção dos portugueses durante o breve encontro de ontem com o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros."

A grande preocupação do momento...

Quem teve mais gente em Lisboa: O Papa no Terreiro do Paço ou Jesus no Marquês de Pombal?

Como escreveu Jorge Fiel: "estou-me nas tintas para os excessos em que têm tropeçado alguns jornalistas, levados pelo arrebatador entusiasmo e cega fé benfiquista e/ou católica."

O sofrimento de Job por causa de uma teima entre Deus e o Diabo

London, British Library, Ms. Add. 35254, fol. T
In A Masterpiece Reconstructed : The Hours of Louis XII (2006)

Abertura de leituras e de significados...


A associação da terceira parte do chamado Segredo de Fátima ou "terceiro segredo de Fátima" ao momento vivido actualmente pela Igreja tem ocupado as páginas dos jornais desde o começo da viagem de Bento XVI a Portugal. Também o coordenador da visita papal fala do tema.
D. Carlos Azevedo explica: "o terceiro segredo fala num homem vestido de branco e o Papa veste de branco. E as mensagens proféticas têm uma abertura de leituras e de significados, tal como uma obra de arte. Qualquer coisa que seja sublime tem uma abertura de leituras, também as mensagens espirituais, quando são densas e com sentido, têm mais que uma leitura. " (DN. 13.05.2010, p.11)

A Ascensão - Salvador Dalí!

Não me importava de ter esta "A Ascensão". Só os surrealistas é que poderiam fazer do sagrado uma coisa profana!
A Ascensão, 1958

Oléo sobre tela, 115 x 123 cm, Colecção Privada.

Hoje era dia de ir às hortas


Retiro do Manuel dos Passarinhos, na Calçada do Poço dos Mouros.
Foto Joshua Benoliel (1873-1932), início século XX.Lisboa, Arq. Fot. CML PT/AMLSB/AF/JBN/000970


Antigo Retiro do Quebra-Bilhas, no Campo Grande.
Este foi o último a fechar em Lisboa. Encerrou talvez há três anos.

Foto de Eduardo Portugal, 1941
Lisboa, Arq. Fot. CML
PT/AMLSB/AF/POR/059498


Retiro A Perna de Pau, junto ao apeadeiro do Areeiro, na antiga Estrada de Sacavém.
Foto Paulo Guedes (1886-1947)
Lisboa, Arq. Fot. CML
PT/AMLSB/AF/PAG/000251

No Dia da Espiga, a Lisboa popular ia passar o dia nos retiros e nas hortas - uns quintalões nos arredores da cidade -, com o pretexto de colher a espiga, o ramo de oliveira, papoilas e malmequeres, para formar o ramo. Comiam nas casas de pasto que existiam nesses locais, e os menos abonados levavam o farnel pendurado num pau, transportado ao ombro. Jogavam junquilho ou malha, tocavam guitarra e cantavam o fado.
E o que se comia nessas casas de pasto? A lista era curta: peixe frito, chouriço com ovos e pastéis de bacalhau, regados com tinto; quadrados de marmelada para a sobremesa.
Mas, no Manuel dos Passarinhos, o petisco devia ser grandes tachadas de passarinhos fritos... Ainda me lembro de ver na montra de algumas tascas da Baixa, umas panelas com passarinhos. Para não falar das iscas - com elas e sem. Mas isto talvez fique para um próximo post.

Bom dia da espiga!

Este é o ramo virtual do meu dia da espiga! Ainda o vou apanhar.

Dia da Espiga / Dia da Ascenção (o profano)

Dia da Ascenção / Dia da Espiga (o sagrado)

Quarenta dias depois da Ressurreição, Jesus levou, de novo, os seus discípulos ao Monte das Oliveiras e elevou-se aos céus.
Dizem que foi ao meio-dia.
E segundo antigas crenças ao meio-dia tudo pára (ou parava): as águas nos rios e ribeiros não corriam, os animais não andavam, as folhas cruzavam-se, etc..., etc... E por isso as pessoas não trabalhavam neste dia.
Curiosamente este ano existe, por outros motivos, tolerância de ponto.
E nesse dia (e se possível a essa hora) apanhava-se o ramo de espiga.

Logo que possa tenho que ir a Madrid!


Madrid é uma cidade com muita luz e vida. Soube, através do JL, que existe um espaço obrigatório para quem gosta de livros, só é preciso ir até à capital espanhola e procurar a livraria "La Buena Vida" , uma livraria - café, aberta das 12 horas às 24 horas todos os dias.
Pelo que li noutros sites parece que tem cada vez mais leitores. É interessante que a música e os pazeres como o café estejam intimamente ligados aos livros.

"Situada no coração histórico e monumental da cidade (Calle Vergara, 10, muito perto do Teatro Real e da Plaza de Oriente), tem um ambiente acolhedor que convida à entrada e, logo a seguir, à demora. Numa cidade em que não faltam grandes superfícies do sector (desde a FNAC à Casa del Libro), aposta-se aqui no ambiente e no tratamento personalizado. La Buena Vida, ao alcance do cidadão médio, é aqui, neste auto-denominado "café del libro", em que se pode ler e ver enquanto se toma uma copa ou picar un pincho."
Maria João Martins

Livros de cozinha - 31


Charcuterie and french porc cookery foi o primeiro
livro publicado por Jane Grigson, em 1968.


A 1.ª ed. saiu em 1971.

A 1.ª ed. é de 1974.

A 1.ª ed. é de 1978 e, com ele, Jane Grogson
foi galardoada com Glenfiddich Writer of the Year Award.


Jane Grigson (1928-1990) é talvez a mais conhecida autora inglesa de livros de cozinha do século XX. Autora de mais de 20 obras, colunista do jornal The Observer desde 1968 até á sua morte, a sua biblioteca de livros de cozinha, bem como os seus cadernos manuscritos de receitas e projectos editoriais podem ser consultados na Oxford Brookes University, onde se encontra uma das melhores bibliotecas de livros de culinária e gastronomia do mundo.

Greguerías - 8


http://lua.weblog.com.pt/arquivo/espiga.bmp

«O mais maravilhoso da espiga é como leva bem feita a trança.»
Ramón Gómez de la Serna
In: Greguerías / trad. Jorge Silva Melo. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998

Para APS e HMJ.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Luís:

Miguel Torga, um homem que amava a província!

Para JAD, com o meu sorriso e à procura de paz e não guerra. Dedico-lhe este post para mostrar que não estou aborrecida. Retirei daqui porque não encontro o livro em minha casa. :)
Viva o combate salutar no qual se aprende, abaixo tudo o que leva à morte da sabedoria!
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Coimbra, 16 de Junho de 1947 – Sobretudo, não desesperar. Não cair no ódio, nem na renúncia. Ser homem no meio de carneiros, ter lógica no meio de sofismas, amar o povo no meio da retórica.


Coimbra, 5 de Abril de 1948 – Creio que não é preciso. Em todo o caso, fica aqui a declaração.
O que eu fui sempre, o que eu sou, e o que serei, é um artista, um homem e um revolucionário. Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o vértice da pirâmide. Na medida em que sou homem, quero que nesse mundo os indivíduos sejam livres e conscientes. E na medida em que sou revolucionário, quero que a revolução traga à tona as grandes massas, e que nunca acabe de percorrer o seu caminho perpétuo, sem estratificações e sem dogmas.

Gerês, 17 de Agosto de 1958 – Sou, na verdade, um geófago insaciável, necessitado diariamente de alguns quilómetros de nutrição. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele. O mal, no meu caso particular, é que exagero. Empanturro-me de horizontes e de montanhas, e quase que me sinto depois uma província suplementar de Portugal. Uma província ainda mais pobre do que as outras, que apenas produz uns magros e tristes versos…


Coimbra, 15 de Outubro de 1963 – Quase a seguir um ao outro, dois fanatismos de pólos opostos a baterem-me à porta. Combati-os com igual denodo, embora o de raiz liberal arregalasse os olhos de espanto à medida que se via contrariado. Não era eu habitante da margem esquerda do rio das ideias? Que significava, pois, semelhante reacção? Isto apenas: a impossibilidade que sempre tive de aceitar como bom do lado de cá o que reprovo do lado de lá. Acredito em certos princípios, mas sem a cegueira dos iluminados. No auge da maior paixão, a lucidez corta-me as asas. E caio envergonhado dos pínacros da certeza no raso chão da dúvida. Daí a minha real incapacidade de adesão a igrejas de qualquer natureza. Saí da religiosa em que fui criado e da literária em que entrei um dia, por motivos idênticos: faltava-me o ar naqueles fechados ambientes de ortodoxia. Na altura, tentei justificar logicamente o meu procedimento. Mas as razões que se dão para certos actos é o que deles menos importa. Abandonei as duas confrarias, e nunca mais entrei em nenhuma. Isto, sim, diz tudo. Significa que o meu espírito, embora sedento de absoluto, como sempre o conheci, se recusa encontrá-lo em qualquer prisão dogmática, e porfia em descobri-lo no descampado inquieto da liberdade crítica.. .

S. Martinho de Anta, 23 de Dezembro de 1982 – Cá estou mais uma vez cingido à minha natureza profunda. Vestido como qualquer camponês e a sentir-me bem dentro desta pele terrosa, cavo o quintal, arranco silvas, podo roseiras, racho lenha. E converso com gente do meu agro que me vem visitar ou consultar, gente que nunca me leu, nem faz ideia do que é ser poeta, que fala de trivialidades e quer ouvir respostas triviais. Alimento como todo o meu ser essas conversas intermináveis, feitas de tudo e de nada, e quando elas acabam retomo a enxada de boa consciência, na paz de quem compreendeu e foi compreendido. Sabe bem compartilhar da condição comum. Lá em baixo sou uma ficção entre ficções; aqui sou uma criatura entre criaturas.

Miguel Torga, Passagem pelo Cárcere, in O Quinto Dia da Criação do Mundo, Coimbra, 1974.

Para JAD, com amizade!

A Visita - 2!

Ontem o Primeiro Ministro José Sócrates referiu a importância desta visita papal neste momento de crise.
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"O primeiro-ministro José Sócrates afirmou hoje aos jornalistas que a “importantíssima” visita de Bento XVI “distingue” e “honra” Portugal.
(...)Esta é uma “visita que nos distingue e nos honra”, afirmou o primeiro-ministro, José Sócrates, à chegada ao Terreiro do Paço onde hoje se celebrou a eucaristia. (...)
Questionado sobre a importância da vinda do papa num momento em que o país atravessa dificuldades financeiras e económicas, José Sócrates considerou positivo o impacto das palavras deixadas pelos responsáveis religiosos em geral".

No Público 11 de Maio 2010

Vale mais ser ou parecer?

Riber: Berlusconi

ainda para A. P. S.

Será que agora se faz luz!

Papa evoca Centenário da República


Por favor, não sejam mais papistas que o Papa!

Bento XVI evocou as comemorações do Centenário da República portuguesa no primeiro discurso que proferiu em território nacional, ainda no Aeroporto de Lisboa, sublinhando a importância da colaboração entre Igreja e Estado.

«A viragem republicana, operada há cem anos, abriu na distinção entre a Igreja e o Estado, um espaço novo de liberdade para a Igreja», disse o papa.

«Só agora me foi possível aceder aos amáveis convites do senhor Presidente e dos meus irmãos bispos para visitar esta amada e antiga Nação, que comemora no corrente ano um século da proclamação da República», disse Bento XVI, após agradecer o acolhimento recebido no aeroporto de Figo Maduro.

Pode conferir aqui.

Livros de cozinha - 30

Aqui há tempos, o Luís falou do programa de Nigella Lawson na SIC-Mulher. Na semana passada passei por um desses programas e estive a vê-lo. Nele ela apresentou a receita Anglo-italian trifle que pode ver em: http://www.nigella.com/recipe/recipe_detail.aspx?rid=313
No final, ela falou de três livros que consulta frequentemente: um de Jane Grigson (de que falarei amanhã), os Classic desserts e um de cozinha italiana (de que não recordo o título, mas tenho pena).

Em Portugal foram publicados este ano dois livros de Nigella:


Porto: DK: Civilização, 2010
€25,00

Delícias de Nigella inclui algumas das receitas apresentadas no programa Nigella Bites. O livro tem secções dedicadas a Pequenos-almoços tardios e a Jantares diante da TV.


Porto: DK: Civilização, 2010
€25,00

Em Na cozinha com Nigella, tradução de Nigella Express que vendeu mais de 1 milhão de livros no Reino Unido em menos de um ano, encontra receitas apetitosas, rápidas de preparar e fáceis de seguir.

Outros títulos de Nigella, publicados por Chatto and Windus:




Há 120 anos em Sintra



Hoje não passámos da Estefânia. Lanchámos aqui, para variar.


Duas das especialidades do Gregório: as queijadas e as broas de mel.

Into My Arms - Nick Cave!

Depois de passar no blogue do JL, ouvi esta música de Nick Cave que gosto muito . O artigo a ela associado deve-se à visita do Papa e é uma perspectiva interessante.

Porque adoro a música e já não a ouvia há uns meses aqui fica para pensar!


terça-feira, 11 de maio de 2010

«Et elle alla prendre le café dans l’autre monde!”»

Brillat-Savarin

«"La gueule tue plus de gens que le glaive", dit […] un proverbe. Le père du célèbre gastronome Grimod de la Reynière, au XVIIIe siècle, en fit la triste expérience. Il mourut d’indigestion! Quant à la mère du non moins célebre Brillat-Savarin, au siècle suivant, elle fut également prise de malaise à la fin d’un repas trop copieux. Elle réclama donc son dessert en toute hâte. Puis, elle s’éteignit subitement, comme une bougie d’anniversaire qu’on souffle sur un saint-honoré. Ce qui suggéra à Brillat-Savarin, jamais pris au dépourvu, ce commentaire laconique:
«"Et elle alla prendre le café dans l’autre monde!" Il est vrai qu’elle avait franchi le seuil de sa quatre-vingt-dix-neuvième année!»
Patrice Gélinet
In: 2000 ans d’histoire gourmande. Paris: Perrin, 2010, p.8. (Points; H419)

Comecei a ler este livro que me está a divertir. Estava num dos montes, desde Janeiro.
Obrigada, LB!

A Visita!

Escudo Português

Brasão do Papa Bento XVI

Situada na periferia em relação ao Sul e ao Norte do País, que vão receber o chefe de Estado do Vaticano, a nota que sublinho é apenas a seguinte:

Pense-se como a Igreja é reveladora da sua presença secular veiculada pela guerra santa que fez de um condado um reino e de um reino fez nascer uma república sob a égide do iluminismo. De uma conturbada relação, nos primórdios da República, conduziu o Estado Novo e continuou durante a democracia nascida em Abril, ajustando os laços com o Estado em obras de beneficência e assistência social em determinados planos que o Estado não assume.

Não querendo entrar em polémicas apenas quero dar uma achega nas relações seculares entre estas duas instituições que fazem, quer queiramos, quer não, parte da nossa cultura

Luís, chegou este convite para si:


Amanhã, às 17h00, em Highgrove.
Esperamos que possa aceitar. Queremos reportagem!

Para A. P. S.

O chá das cinco - 7


Hoje escolhi uns scones.

Que cada um identifique...

Pavão

Évora, frescos das chamadas "Casas pintadas" (séc. XVI)
Foto de Bernardo de Oliveira Nunes.
Aprendi (ou recordei... mas é como se tivesse de novo aprendido), durante a visita à Exposição de Natureza Morta, da Gulbenkian, que o Pavão serve também para simbolizar a ressureição de Cristo, dado que a carne do pavão é incorruptível (St.º Agostinho). Aqui fica como uma homenagem aos que nos visitam, aproveitando o dia de hoje.

Aproveitem para ler...



Lisboa: Estampa
«Só vim a ler este livro [O Milagre segundo Salomé], de que aliás tinha referências, quando, pela primeira vez depois do 25 de Abril, o Papa veio a Portugal. Não sei precisar o dia, mas acho que foi em 1980. Estava o Sá Carneiro no Governo e eu na oposição. Durante três dias, em Portugal, não se falou de mais nada a não ser no Papa (Papa de manhã, à tarde e à noite) e eu, então, estava em casa, não havia nada para fazer, e disse: “ É agora que vou ler o livro.” E durante aqueles três dias regalei-me com O Milagre segundo Salomé, um livro realmente extraordinário. É uma obra que dá o retrato duma época, que ninguém antes tinha dado. É justamente a época da agonia da 1.ª República, os inícios dos anos 20, com a ascensão dos grandes industriais. A figura do grande industrial – cujo modelo se imagina que terá sido o Alfredo da Silva e a CUF – e a figura do anarquista – que é o próprio Miguéis, o homem que está ligado à Seara Nova e que encontra a Salomé, uma figura altamente complexa e extraordinária de mulher, como há poucas na literatura portuguesa. Miguéis trata esta figura com grande humanidade. E, como pano de fundo, a alegoria do que foi o milagre de Fátima. É um panorama único da sociedade portuguesa e, enquanto houver interesse pelo que é ser português, como é Portugal e as contradições em que vivem os próprios portugueses, este livro tem de ser lido e relido.» (da Intervenção de Mário Soares no colóquio realizado sobre José Rodrigues Miguéis, em 2001. In: José Rodrigues Miguéis: Uma vida em papéis repartida. Lisboa: CML, 2002, p. 166)

Quem ainda não leu este livro faça como Mário Soares e aproveite os próximos dias.

E depois veja o filme:

A partir de uma escultura um pensamento!

A procura da verdade é como subir uma escada sinuosa. Será que leva a algum lado?
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Escultura do afro-americano Martin Puryear
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Martin Puryear, Ladder for Booker T. Washington, 1996
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Ash and maple, (1097.28 x 57.785. cm, narrowing to 3.175 x 7.6 cm)
Modern Art Museum of Fort Worth, USA

"I have abandoned my search for truth, and am now looking for a good fantasy".

Ashleigh Brilliant .

[wikipedia: I Have Abandoned My Search for Truth, and Am Now Looking for a Good Fantasy: More Brilliant Thoughts (1980)]

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Para c.a.: um intermezzo de Pergolesi


Já que este também é o ano de Pergolesi...
Boa noite!

FLOR NA AREIA

Que pensarão de mim quando eu for só
breve recordação enternecida,
quando de tudo o que foi sonho e vida
restar – quem sabe? – nem um grão de pó?

Quando alguma das netas for avó,
que dirá ela? Voando, na corrida,
as saudades virão a toda a brida,
como se, pela neve, algum trenó?

Quem lerá os meus livros? E estes versos?
e outros, há tanto, para aí dispersos,
que até perderam já perfume e cor?

Mas, se algum for relido, então decerto
será como se a areia do deserto
florisse a uma lágrima de amor…

Adolfo Simões Müller
In: Só netas: sonetos e outros versinhos do avô Adolfo. [Lisboa: A.S. Muller], 1980, p. 44

Para o Luís que visita o Arpose. E continuo à pesca do outro poema.
Mas isto como poesia…