«Chegámos ao Paraíso terrestre: uma praia admirável, imensa, com palmeiras frondosas, com casas multicolores. Areia quente, mar extraordinário com muitas ondas que se precipitam em espuma por uma centena de metros. As mulheres são muito belas. A cantar, passam nos seus vestidos com cores vivas: à cabeça transportam jarros ou cestos. Todos, homens ou mulheres, estão prontos a fazer-nos um favor. Ao chegar aqui, encontrámos os primos da mamã, Natek, Lucia e Rysia, e decidimos ficar juntos.
«Ao descermos do comboio, à noite, a comissão de ajuda aos refugiados acolheu-nos de um modo extraordinário. Escolhemos uma pensão não longe do mar. [...]
«Mudámos os sete hoje para um apartamento lindo porque a pensão estava a ficar verdadeiramente cara. O consulado polaco e uma organização judaica vão-nos dar uma ajuda financeira. [...]
«Estamos instalados no nosso apartamento que tem uma vista sobre o mais belo campo da Europa. [...] Esperamos ir para Lisboa, onde o tio Sam talvez me tenha arranjado um lugar de prof de francês de umas netas de uma condessa.
«A Figueira é uma cidade estranha por causa da atmosfera que os refugiados criaram. Chamámos Campos Elísios à rua dos cafés, o principal passeio. Aqui toda a gente se encontra e toda a gente se conhece. Há o consulado polaco numa livraria, os 'anúncios' são afixados numa placard à porta e toda a gente os comenta em francês, polaco, flamengo, holandês, mesmo em alemão! De manhã, os refugiados bronzeiam-se ao sol na admirável praia da Figueira. À tarde, todos ficam em casa por causa do calor até às quatro horas. Para o five o'clock todos se encontram nos Campos Elíseos. [...]
«Hoje no parque da Figueira, cheio de palmeiras, pinheiros, flores e catos, vozes cantam La Marseillaise. [...] O Casino faz esta noite um baile em honra dos refugiados. Nós vamos. Vai ser o meu primeiro baile. Um 14 de julho em guerra, em Portugal, enquanto Hitler proibiu todas as manifestações em França.» (p. 55-59)
Paris: Le Grand Livre du Mois, 2000