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domingo, 9 de novembro de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 14 - Shanghai Express


"It took more than one man to change my name to Shanghai Lily...", sussura Marlene Dietrich a um amante reencontrado, cinco anos depois, no início do filme de Josef von Sternberg.
A narrativa decorre no comboio Peiping (Pequim) - Xangai, em 1931: A China está em guerra civil, e os magníficos cenários, apresentados num chiaroscuro que conquistou o Óscar de Melhor Cinematografia, por si valem o filme. E sempre, o comboio, as carruagens luxuosas, o ruído da locomotiva, em permanente conflito com o resto do país -- os animais e a população nos carris, os ataques dos rebeldes, a polícia -- servindo de escape para os passageiros.

Entre os passageiros, estão duas cortesãs (uma europeia, Magdalen a.k.a. Shanghai Lily, e uma chinesa, Hui Fei), um militar francês reformado em desgraça, um jogador americano, um médico militar inglês do passado de Shanghai Lily ('Doc' Harvey), um traficante de ópio, um misterioso euro-asiático ("I'm not proud of my white blood"), um missionário e uma americana de meia idade que regressa à sua pensão em que recebe pessoas respeitáveis... "Don't you find respectable people terribly...... dull?", pergunta-lhe a protagonista, enquanto toca um disco de jazz num gramofone.

Passados e preconceitos (raciais, sociais) entrecruzam-se em pequenos e grandes conflitos contra um mapa de uma nação em guerra. Os rebeldes tomam o comboio: os passageiros são interrogados e o líder convida Shanghai Lily para o seu palácio, sendo impedido violentamente por 'Doc' Harvey. Hui Fei toma o seu lugar, mas a vingança de Chang está a ser delineada... salvo se a cortesã se sacrificar. As reacções a este sacríficio silencioso marcam as cenas finais do filme, ao ritmo distante da locomotiva e do gramofone. "You see, once upon a time we loved each other -- we parted, and I threw my life away, because I didn't care to bargain for love with words. I haven't changed since then, and neither has he."

Na memória, o chiaroscuro e as palavras sussurradas de Shanghai Lily...

"Shanghai Express" foi o #1 da bilheteira norte-americana em 1932 (durante a Primeira Grande Depressão) e recebeu nomeações para os Óscares de Melhor Filme e Melhor Realizador.

Realização de Josef von Sternberg.

- Marlene Dietrich - Shanghai Lily, aka Magdalen;
- Anna May Wong - Hui Fei, a cortesã chinesa;
- Emile Chautard - Major Lenard, o militar francês;
- Eugene Pallette - Sam Salt, o jogador;
- Clive Brook - Capitão Donald 'Doc' Harvey;
- Gustav von Seyffertitz - Eric Baum, o traficante de ópio;
- Warner Oland - Mr. Henry Chang, o misterioso euro-asiático;
- Lawrence Grant - Mr. Carmichael, o missionário;
- Louise Closser Hale - Mrs. Haggerty, a proprietária da pensão.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Mata Hari


Mata Hari nasceu a 7 de Agosto de 1876 em Leeuwarden, Holanda, e foi executada a 15 de Outubro de 1917, em Vincennes, França. Tão grande era a sua fama que em 1931, quando George Fitzmaurice realizou o filme supra com Greta Garbo e Ramón Novarro, foi já a terceira rendição cinematográfica (e romanceada) da vida de Mata Hari. O filme foi um dos dez maiores êxitos de bilheteira do ano.

domingo, 20 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 13 - The Letter


"The Letter" de William Wyler data de 1940; é baseado na peça homónima de Somerset Maugham. É um filme em que Bette Davis' eyes estão no centro do palco em todos os momentos, em especial na abertura, no calor húmido de uma noite de lua cheia da Maláia Britânica: o homicídio por Leslie Crosbie (Davis) de um homem branco no alpendre de sua casa. A lua, o calor húmido e os olhos de Bette Davis não nos largam o resto do filme. Começa a desenrolar-se o novelo do romance da homicida e da vítima; das causas referidas e das causas reais; e de uma carta, escrita por Leslie... que esta tenta recomprar, a todo o custo, descobrindo a mulher asiática do seu amante que a chantageia para a sua própria vingança. As cenas de tribunal são sufocantes e é a lua que vai observando a caminhada para um lancinante "With all my heart, I still love the man I killed!".

O "New York Times" escreveu sobre o filme: "The ultimate credit for as taut and insinuating a melodrama as has come along this year — a film which extenuates tension like a grim inquisitor's rack—must be given to Mr. Wyler. His hand is patent throughout . . . Miss Davis is a strangely cool and calculating killer who conducts herself with reserve and yet implies a deep confusion of emotions . . . Only the end of The Letter is weak — and that is because of the postscript which the Hays Office has compelled". Esta exigência do Código prendia-se com o facto de se lidar com adultério e homicídio sem castigo na versão inicial -- impensável...

O filme foi nomeado para 7 Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actriz.

sábado, 12 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 12 - Julius Caesar


Primeiro, uma nota não cinematográfica. Júlio César, líder militar, político e ditador vitalício de Roma, nasceu (possivelmente) a 12 de Julho de 100 A.C. e encontrou o seu destino final nos idos de Março (dia 15 de Março de 44 A.C.). Conquistou a Gália (menos uma pequena aldeia que resistiu ainda e sempre ao invasor) e atravessou o Rubicão; foi provavelmente o maior obreiro do Império Romano.

Em 1953, Joseph L. Mankiewicz adaptou a obra de Shakespeare, "Julius Caesar", peça que descreve os últimos dias de César. A MGM não se poupou a esforços: O elenco era um "who's who" de Hollywood: Marlon Brando interpretava Marco António; James Mason fazia o papel do "et tu, Brutus...?"; John Gielgud era Cássio; César era interpretado por Louis Calhern; Greer Garson era Calpúrnia; Deborah Kerr era Pontia; e Edmond O'Brien era Casca.

O filme, fiel à peça, narra o desenvolvimento da conspiração contra César, o seu assassinato no Senado e os dias subsequentes. O personagem central é Brutus, que debate furiosamente os ditames (e contradições) da lealdade e do dever para com a Pátria (que por sua vez são matizados em tons de cinzento). Os movimentos de manipulação evocam outras emoções, nomeadamente a ambição e a inveja, que são empregues para envenenar (ou acinzentar) o espírito dos próximos de César. No entanto, é Marco António que conquista o filme no seu discurso aos romanos, da escadaria do Senado. É um momento arrepiante.

"Julius Caesar" foi nomeado para cinco Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, Melhor Actor (Brando) e Melhor Música (de Miklós Rózsa, o compositor de "Spellbound"), tendo ganho Direcção Artística. Ganhou o BAFTA de Melhor Actor Britânico para Gielgud e de Melhor Actor Estrangeiro para Brando; James Mason ganhou o prémio para Melhor Actor do National Board of Review (que também concedeu o título de Melhor Filme).

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 11 - The Women


"The Women" é um filme de 1939, o Annus Mirabilis de Hollywood.

Realizado por George Cukor, é interpretado por mais de 100 actrizes com falas... e nenhum actor! O mote, apropriadamente, é "it's all about men!". Na genética da cultura pop, estará porventura como antepassado de "Sex and the City", sendo que aborda as rivalidades (mais) e amizades (menos) entre várias mulheres e as suas aventuras e desventuras, desde os arranha-céus de uma New York Art Deco repleta de glamour à la Cedric Gibbons até às viagens para Reno para os divórcios. As personagens centrais são duas rivais: a cabeça de cartaz é a #1 da MGM da altura, Norma Shearer (a mulher casada), seguida de nomes sonantes como Joan Crawford (a amante do marido), Joan Fontaine, Rosalind Russell, Paulette Goddard, Lucile Watson, Marjorie Main, Butterfly McQueen, Hedda Hopper...

Um alegado sucesso de bilheteira e de crítica, está a ser refeito com Meg Ryan, Bette Midler, Carrie Fisher, Annette Bening, Eva Mendes, Debra Messing, Jada Pinkett Smith e Candice Bergen, com data prevista de estreia nos EUA para 12 de Setembro de 2008.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 10 - Arsenic and Old Lace


Comédia de Frank Capra, "Arsenic and Old Lace" foi realizada em 1944 (bem, mais precisamente, foi rodada em 1941, mas apenas exibida em 1944 para não colidir com a exibição da peça na Broadway). O grande mérito vem do cintilante e argumento de Julius J. Epstein (o mesmo de "Casablanca"), que nunca abranda o ritmo nem a inteligência da peça de Joseph Kesselring.
Mortimer Brewster (Cary Grant), um crítico cínico e solteirão inveterado, apaixona-se e decide casar com a girl next door (curioso como escrever "a vizinha do lado" lhe dá um tom completamente diverso). Antes de partir de lua-de-mel, visita as tias que o criaram desde menino (Jean Adair e Josephine Hull). Um par de velhinhas encantadoras, as tias vivem com Teddy, um irmão de Mortimer que se julga Teddy Roosevelt - a despropósito, passa a vida a correr escada acima gritando "Charge!!", imitando a carga de San Juan Hill. Durante a visita, Mortimer depara com um cadáver no banco da janela - convencido da culpabilidade do pobre louco, tenta persuadir as tias a interná-lo. Mas as encantadoras senhoras têm outra história para lhe contar: não se trata de actos de Teddy, mas sim caridade das tias. Havia tantos senhores solteiros idosos a visitá-las que as doces velhinhas haviam decidido ser bondosas para não ter que recusar os seus avanços, dando-lhes um copinho de vinho caseiro enriquecido... com arsénico, estricnina e cianeto. Os corpos eram subsequentemente enterrados na cave por Teddy, que julgava estar a cavar o canal do Panamá e a enterrar vítimas da febre amarela. Para complicar tudo, surge a polícia: o outro irmão de Mortimer, cadastrado, fugira da prisão. Claro que o irmão malvado aparece em cena (interpretado por Raymond Massey, com a cara do Frankenstein de Boris Karloff), com um cirurgião plástico alcóolico seu cúmplice a tiracolo (Peter Lorre). As peripécias e os mal-entendidos sucedem-se a um ritmo de metralhadora, com a noiva à espera e Mortimer a contar os segundos para enlouquecer como o resto da família.
"Insanity runs in my family - it pratically gallops!"
Mortimer Brewster

sábado, 5 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 9 - Sweet Bird of Youth


"Sweet Bird of Youth" está naquela fronteira temporal que marca o fim da minha "era dos filmes que valia a pena ver"; depois de 1960 para mim passaram a contar-se pelos dedos das mãos os grandes filmes (e.g., "The Lion in Winter", "The Sound of Music", "My Fair Lady"), até os anos 80 voltarem a iluminar os écrans.

"Sweet Bird of Youth" é de 1962; realizado por Richard Brooks e produzido por Pandro S. Berman, é uma adaptação de uma peça de Tennessee Williams. O enredo gira em torno a Chance Wayne, um jovem meliante (interpretado por Paul Newman), que regressa à sua terra natal à procura da namorada de juventude, a sua grande paixão (Heavenly, interpretada por Shirley Knight). Mas o jovem não vem sozinho - vem como acompanhante de uma estrela de cinema em declínio, Alexandra del Lago, aliás princesa Kosmonopolis (Geraldine Page, esplendorosa na sua decadência de estrela esquecida). Rapidamente se revela que Chance tinha sido expulso pelos poderes da cidade, cuja eminência máxima é o pai de Heavenly. Os antigos rancores não estavam enterrados e regressam with a vengeance, perante o olhar da Princesa que sustenta o jovem Chance... até um ponto. O final é Hollywoodesco, o que é uma pena - a crueza do final da peça é muito mais... inesquecível.
"Sweet Bird of Youth" foi nomeado para 3 Óscares (incluindo Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária), tendo conquistado Melhor Actor Secundário para Ed Begley, que faz de pai de Heavenly. Geraldine Page ganhou o Globo de Ouro de Melhor Actriz (e Newman foi nomeado para Melhor Actor).

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 8 - Mildred Pierce


"Mildred Pierce" é um drama / film noir de 1945. Realizado por Michael Curtiz (o mesmo de muitos filmes de aventuras de Errol Flynn, como "Captain Blood", "O Gavião dos Mares" ou "As Aventuras de Robin dos Bosques", e "Casablanca"), é o primeiro filme interpretado por Joan Crawford na Warner, depois de sair da MGM.

O filme é narrado por Mildred Pierce (Joan Crawford), começando com um homicídio: a última palavra proferida pelo morto é... "Mildred...". O morto é o segundo marido desta Mildred Pierce, que é presa pela polícia - origem de uma sequência em flashback, que narra a vida difícil da protagonista. Com um casamento infeliz, divorcia-se e fica com a custódia das duas filhas; o único emprego que consegue é de empregada de mesa, facto que esconde da filha mais velha, Veda (Ann Blyth), mimada e que considera ter direito a ver todos os seus caprichos satisfeitos pela mãe. Com muito esforço, Mildred abre o seu próprio restaurante e começa a ter algum sucesso - marcado pela tragédia da morte por doença da filha mais nova. Veda passa a ser o ponto fulcral da vida de Mildred; no entanto, a filha tem tanta vergonha do passado da mãe que Mildred contempla casar pela segunda vez para subir socialmente. Resulta mal; o segundo marido e a filha conspiram... O segundo marido revela-se uma sanguessuga e Mildred perde o seu negócio. O final é digno do melhor noir.

"Mildred Pierce" obteve seis nomeações para os Óscares da Academia, tendo Joan Crawford conseguido o seu primeiro (e único) prémio.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 7 - Suddenly, Last Summer


"Suddenly, Last Summer/Bruscamente, no Verão Passado" é um filme de 1959, baseado na peça homónima de Tennessee Williams, com argumento deste e de Gore Vidal. A realização esteve a cargo de Joseph L. Mankiewicz, com interpretações de Katharine Hepburn, Montgomery Clift e Elizabeth Taylor.
Violet Venable (Hepburn) é uma matriarca rica cujo filho único (e a luz dos seus olhos) morrera bruscamente no Verão passado, enquanto passava férias acompanhado da sua prima Catherine (Liz Taylor). Mrs. Venable contacta um neurocirurgião, contando-lhe a história da sobrinha: no seguimento dessas férias, Catherine enlouquecera; está num asilo; precisa de uma lobotomia para ficar calma. A história que vai desfiando é incontornavelmente a do filho, Sebastian "My son Sebastian and I", dos seus poemas (apenas escrevia um, um cada Verão) que a mãe quer imortalizar, do calor opressivo da estufa de plantas carnívoras, das narrativas de viagem (a terrível descrição das tartarugas recém-nascidas que corriam para o mar e eram devoradas no caminho), todos os Verões, sempre com Violet... excepto no Verão passado. A mãe e o irmão de Catherine cedem à pressão de Violet, cujo testamento é uma poderosa moeda de troca; resta Catherine, cujas incoerências sobre a morte do primo levam Violet a querer... acalmá-la. O filme galopa para um climax quando Catherine, sob o efeito de medicamentos, recorda perante o médico e a família o que se passou nesse Verão, em Cabeza de Lobo... sob um rosto de Violet que se vai transformando e descontruindo à medida que a narrativa se conclui.
O filme foi um dos Top 10 do box office norte-americano; foi nomeado para 3 Óscares, incluindo Katharine Hepburn e Elizabeth Taylor para Melhor Actriz (igualmente nomeadas para os Globos de Ouro de Melhor Actriz, arrebatado por Taylor).

sábado, 28 de junho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 6 - Broken Blossoms



O meu filme favorito de D. W. Griffith , "Broken Blossoms or the Yellow Man and the Girl", estreou nos EUA a 13 de Maio de 1919, na década anterior ao advento do "sonoro".

Muito differente dos registos anteriores de Griffith (os épicos casts of thousands de "Intolerance" ou "Birth of a Nation", sobre-apreciado na minha humilde opinião), "Broken Blossoms" é uma história intimista sobre tolerância, sempre sob a égide da fragilidade.

A narrativa decorre nas docas de Londres. Lillian Gish (sempre Ms. Lillian Gish, the hand that rocks the cradle) é Lucy, uma jovem pobre, filha de um pugilista abusivo, Battling Burrows. Deambulando por entre brumas cinzentas depois de um espancamento pelo pai, a jovem é encontrada por Cheng, um tímido e sensível imigrante chinês (interpretado por Richard Barthelmess), que a leva para o seu apartamento, uma ilha exótica e acolhedora, e a trata. O jovem viera para a Europa pregar a palavra de Buda, mas tivera pouco êxito na sua missão. Entre os dois seres marginalizados nasce uma cumplicidade, uma forma de romance.

Tomando conhecimento do paradeiro da filha, o pugilista, enraivecido, arrasta-a para casa; aterrorizada, Lucy refugia-se num armário, dando cor a uma emoção claustrofóbica, de animal acossado, perfeitamente primária. O pai espanca-a brutalmente. Quando Cheng chega para a salvar, já é tarde; Lucy está morta. Para se defender do subsequente ataque do pugilista, Cheng é forçado a alvejá-lo. Levando o cadáver de Lucy para sua casa, Cheng ergue um altar a Buda e toma a sua própria vida.

É um filme em que o caminho a percorrer se sobrepõe infintamente ao destino final: a fragilidade de Lucy que cria o seu mundo etéreo para escapar à realidade do dia-a-dia; a marginalização social de duas formas distintas (a filha de um marginal nas classes mais pobres de Londres, um imigrante chinês pobre); o racismo contra o perigo amarelo (note-se o título completo, que os ventos do politicamente correcto reduziram); a crueldade contra (e impotência de) os inocentes.

O título inicial do filme transporta o espectador para a dúvida moral do seu próprio comportamento face aos inocentes e aos fracos: "We may believe there are no Battling Burrows, striking the helpless with brutal whip - but do we not ourselves use the whip of unkind words and deeds?"

O filme quase não chegou a ser feito: Zukor, o patrão da Paramount, não o apoiou; Griffith levantou capital para comprar os direitos ($91.000) e ganhou milhões com a sua exibição sob a bandeira da recentemente formada United Artists. Ms. Gish falou sobre o filme anos mais tarde, quando este foi seleccionado como um dos grandes exemplos do cinema mudo; o seu depoimento está capturado na edição da KINO Video.

"Griffith put tragic poetry on the screen for the first time."
Lillian Gish

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 5 - The Ghost and Mrs Muir


Um dos meus filmes favoritos, "The Ghost and Mrs. Muir" estreou a 26 de Junho de 1947. Realizado por Joseph L. Mankiewicz e interpretado por Gene Tierney, Rex Harrison, George Sanders e uma Natalie Wood demasiado nova para ser Natalie Wood, enquadra-se no género da fantasia, do romance, do drama... e dos grandes filmes.
Mrs. Lucy Muir (Gene Tierney), uma jovem viúva, vem viver com a sua filha (Natalie Wood) para uma população à beira-mar no início do século XX. Ao ver casas, escolhe uma casa em mau estado, com fama de assombrada, no cimo de uma falésia. Acolhe-a o fantasma do anterior proprietário, o Capitão Gregg, um lobo do mar profundamente antipático (Rex Harrison, cabotino à quinta casa, mas com traços de personalidade encantadores). O objectivo do capitão é correr com a viúva que lhe perturba o espaço; a jovem senhora não está pelos ajustes e faz-lhe frente, cultivando uma relação de respeito mútuo, que começa a evoluir nos sorrisos disfarçados e nos olhares desviados. Ao ficar sem fundos que lhe permitam continuar na casa, o fantasma do capitão começa a ditar-lhe as suas memórias... nasce um best-seller e a viúva consegue manter a casa.
No mundo dos vivos, surge um escritor (George Sanders) que começa a seduzir Mrs. Muir - por deferência, o fantasma esfuma-se, ternamente apagando as suas memórias... no dia seguinte, o mundo dos vivos ter as suas cruezas tangíveis e o pseudo-romance cair por terra, desfeito.

Passam os anos - Mrs. Muir continua na sua casinha no alto da falésia e recebe uma visita da filha, que lhe confessa também ter falado com o Capitão Gregg. Algo re-emerge na memória. Muitos anos depois, Mrs Muir é uma senhora de idade encantadora que suavemente vê chegar os seus últimos momentos. Com um sorriso, deixa-se guiar por um lobo do mar...

"The Ghost and Mrs. Muir" deu origem a uma série de televisão no final dos anos 60.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 4 - A Letter to Three Wives


"A Letter to Three Wives" é um filme de 1949. Realizado por Joseph L. Mankiewicz, seria um bom antepassado para a herança genética de "Desesperate Housewives".

A história desenrola-se em torno a três mulheres casadas de uma vida "Wysteria Lane meets the late 40s US" que embarcam para passar um dia com crianças num piquenique. No momento de embarcar, recebem uma carta de uma quarta amiga, dizendo que vai fugir com o marido de uma delas...

Quem são estas "amigas" e os seus maridos? Uma série de flashbacks faz as honras das várias casas e dos seus segredos. A primeira, personagem interpretada por Jeanne Crain, é de uma santa terrinha; ao passar pela Marinha conhece um jovem que agora é o seu marido (Jeffrey Lynn) e vem viver com ele para o seu meio, sentindo-se sempre a "estrangeira". A segunda, interpretada por Ann Sothern, é uma novelista de rádio, mulher de sucesso, casada com um professor local que se sente inferior à mulher (Kirk Douglas). A terceira, na pele de Linda Darnell, é oriunda de famílias modestas e casou com um homem rico, mais velho e algo abrutalhado (Paul Douglas). A quarta, chamada Adie, nunca aparece no écran, mas narra a história: é a rainha do baile, a sofisticada que todos gostariam de capturar. No decurso da impossivelmente longa odisseia de um dia, as três mulheres apresentam uma façada estóica, cada uma delas pensando ser a mulher abandonada.

No regresso da viagem, no final do dia, há uma festa: as três mulheres regressam a casa, sem saber se vão ter o marido em casa ou não; arranjam-se e vão para a festa.

"A Letter to Three Wives" foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme, tendo conquistado Melhor Realizador para Joseph L. Mankiewicz (que repetiria a proeza no ano seguinte com "All About Eve") e Melhor Argumento.
PS - Dedicado ao meu amigo RL (como se fosse o "Rebecca"...)

sábado, 21 de junho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 3 - A Place in the Sun


Filme de George Stevens baseado numa história real, "A Place in the Sun - An American Tragedy" narra o encontro (o choque?) entre George Eastman (Monty Clift), parente pobre de um industrial, com a classe a que o seu tio pertence. Por ser da família, George começa a trabalhar na fábrica, onde se envolve com uma operária, Alice (Shelley Winters). Pouco depois, mercê de sucesso na fábrica que o aproxima do círculo familiar, conhece uma menina de boas famílias, Angela (Liz Taylor). Apaixonam-se, e George afasta-se de Alice -- tanto quanto pode, dado que trabalham juntos, Alice está grávida e não está de todo disposta ser descartada. Começa uma vida dupla, dois filmes em rota de colisão: por um lado, com Angela, a quem pergunta (e vou citar de memória): "Why do rich people only marry rich people?", recebendo como resposta "It's the only people we know..." Por outro lado, com Alice, com pressões matrimoniais e uma progressiva chantagem enlouquecedora. George decide livrar-se de Alice, Alice que não sabe nadar, criando um acidente num passeio de barco, no lago. No derradeiro momento, arrepende-se e muda de ideias; como o destino tem um sentido de humor terrível, Alice acidentalmente cai no lago - e morre. Em simultâneo, a par do sucesso na fábrica, é aceite no círculo em que Angela se move. Lugar ao sol de pouca dura: George, que deixara atrás de si uma série de indícios da sua intenção original, é preso...
"A Place in the Sun", top 10 de audiências nos EUA em 1951, foi nomeado para nove Óscares da Academia, tendo ganho seis, incluindo melhor Realizador e Melhor Argumento.
Uma pequena nota de rodapé: a foto do beijo entre Monty e Liz serve de capa ao livro "Hollywood", de David Thomson com as fotografias da Kobal Collection.
PS - Dedicado à minha amiga P., com quem estive imenso tempo ao telefone depois de termos visto pela primeira vez o filme na televisão, e ao meu amigo P., que tem este filme no topo da sua lista de preferências.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 2 - Gaslight

"Gaslight", de George Cukor, narra a descida de uma mulher para a loucura (verdadeira ou falsa, com a fronteira a esbater-se lenta mas inexoravelmente como uma corrente subterrânea).

Paula Alquist (Ingrid Bergman) é a sobrinha e herdeira de uma cantora de ópera inglesa que é assassinada na casa em que ambas vivem, numa square de Londres. Viajando para Itália para esquecer o choque e seguir as pisadas da tia no mundo da ópera, conhece e apaixona-se por Gregory Anton (Charles Boyer), com quem casa. Ao regressar a Londres para a mesma casa de Thornton Square, começa a ficar "esquecida"... peças perdidas, memórias trocadas, passos que se ouvem num sótão trancado, quadros que desaparecem e candeeiros a gás cujas chamas bruxuleantes criam sombras misteriosas, um relógio roubado... No meio de dias e noites que se tornam progressivamente mais estranhos, com uma Paula mergulhada em self-doubt, estão um marido incomodado, que começa a isolá-la de terceiros para a proteger, um inspector da polícia (interpretado por Joseph Cotten), uma criadita (estreia triunfal de Angela Lansbury) e uma vizinha metediça (uma luminosa Dame May Whitty).

O redemoinho torna-se inescapável - até ser desvendado. Poderia ter sido Hitchcock, mas foi George Cukor, o "realizador de mulheres", que dirigiu este entrecruzar de tramas entre tia, sobrinha, criada, inspector e marido para um climax notável. Criou-se uma expressão para este thriller psicológico: "gaslighting".

Nomeado para 7 Óscares de 1944, incluindo Melhor Filme, ganhou dois: Ingrid Bergman como Melhor Actriz e Direcção Artística (Preto e Branco).

"If only I were not mad, I could have helped you..."
Paula Alquist Anton

sábado, 14 de junho de 2008

Grandes filmes (esquecidos?): 1 - Now, Voyager


Filme de 1942, em que o mundo estava em guerra, Now, Voyager é um dos maiores expoentes do melodrama. Com Bette Davis, Paul Henreid e Claude Rains nos principais papéis, o filme possui uma magnífica banda sonora de Max Steiner. O enredo gira em torno a Charlotte Vale (Bette Davis), uma tia solteirona de uma família de meios, com uns óculos fundo-de-garrafa, emocionalmente instável, dominada por uma matriarca aristocrática (Gladys Cooper num dos seus melhores papéis). Admitida num sanatório (gerido pelo personagem de Claude Rains), transforma-se qual crisálida numa mulher elegante e segura de si mesma. Ao sair do sanatório, embarca num cruzeiro em que conhece Jerry (Paul Henreid). O inevitável enlevo é marcado pela impossibilidade - Jerry está preso num casamento com uma filha muito dependente. No decurso do filme, Jerry acende dois cigarros e oferece um a Charlotte; há um acidente no Brasil; separam-se; Charlotte cruza-se com Tina, a filha de Jerry e sublima a sua ambição relacional ajudando-a; Charlotte confronta a Mãe ("Oh, Mother..."); há camélias; há uma plataforma de comboio. No final, uma frase icónica: "Oh Jerry, don't let's ask for the moon, we have the stars". Imperdível.