Prosimetron

Prosimetron

terça-feira, 27 de abril de 2010


1963 : Peggy March

Foi a 27 de Abril de 1963 que Peggy March ocupou o topo das tabelas de vendas com esta I Will Follow Him. E ela envelheceu muito bem, como se pode ver nesta actuação ao vivo muitos anos depois .

Carta de uma desconhecida


Esta noite estive a rever um filme que já quase não me lembrava. Como é possível quase ter esquecido esta maravilhosa interpretação de Joan Fontaine e Louis Jourdan com realização de Max Ophüls? Realmente a memória apaga-se e rasga-se. Apenas flashes... como o da cena do comboio de feira. Um maravilhoso flash-back. Na minha memória e na memória de Stefan. O Inverno até fica bonito nas palavras de Lisa dado que "no inverno é possível imaginar como será a primavera".

Paraíso. A Árvore do Conhecimento, Chagall

Paraíso, a Árvore do Conhecimento é um dos trabalhos de Chagall que me chamou a atenção não só pela beleza do desenho mas pelo simbolismo que acarreta. E aqui está mais um Adão e Eva um tema várias vezes focado no Prosimetron.
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Chagall,"Paradise" The Tree Of Knowledge — lithograph from the renowned book "Illustrations for The Bible", 1960

Lithograph, 35 x 26 cm, Published: Éditions de la Revue Verve, Teriade, Printed: Mourlot N° 232, Paris

"O Senhor Deus fez brotar da terra toda a espéciede árvores agradáveis à vista e de saborosos frutos para comer; a árvore da vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do bem e do mal".

Gen, 2, 9 -23

Leituras no Metro - 14


Foto de João H. Goulart, 1971
Lisboa, Arq. Fot. CML, PT/AMLSB/AF/JHG/S02762

«Neste desenrolar de imagens guardadas na memória, sem o rigor do pormenor documental, não quero deixar de evocar o antigo Campo Grande, ligado ao Campo Pequeno por uma espécie de talude sobre o qual já circulava o comboio. [...]
«Por essa altura do meu regresso "ao saudoso lar" de que fala Guerra Junqueiro, também quis ser ciclista. Ia com alguma amiga para o lado do Campo Grande, onde por muitos anos se iam degradando as instalações dos produtos de beleza "Benamor". Encostados aos muros da "Benamor" as bicicletas aguardavam os ciclistas improvisados que pagavam o aluguer. Por mim, o que consegui foi arranhões nas pernas e alguns trambolhões. Andar de bicicleta não era comigo.»
Manuela de Azevedo
In: Memória de uma mulher de letras. Porto: Afrontamento, 2010, p. 62

Pensamento!

As pequenas injustiças

"Não me conformo com as pequenas injustiças. Aceito as grandes, porque são inevitáveis, como as catástrofes, e atestam a impotência dos deuses.
Aquela criança, descalça, apenas precisava de uns sapatos. Se tivesse nascido sem pés, não era tão grande a minha revolta".

António Arnaut, As Noites Afluentes, Coimbra: Coimbra Editora, 2001, p.33


Sobre o médico Aires de Azevedo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Nostalgia...3

Ces petits rien - Stacey Kent

Para os amantes de chocolate


Handel & Milton



Vá, ninfa, apressa-te e traz-nos
A graça, a jucunda idade,
Chistes, torções, partidas,
Acenos vários e sorrisos
Dos que pendem das face de Hebe,
E adoram viver em covinhas,
o humor, que troça de afãs senes,
E a gargalhada que traz lágrimas


Poema de John Milton, musicado por Handel (l'Allegro, il Penseroso ed il Moderato). Ária de l'Allegro e Coro.
tradução de Daniel Jonas

Comemorar Abril!

[...]
Todos os seres bebem alegria
Dos seios da Natureza;
Todos os bons, todos os maus
Seguem uma rósea pista.
Beijos nos deu ela, e videiras,
Um amigo, provado pela morte;
O gosto da vida foi dado ao verme,
E o querubim está perante Deus!
[...]


Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott!

Friedrich Schiller (1785), musicado por Ludwig van Beethoven (Sinfonia n.º 9, 1824). A tradução é de João de Freitas Branco.

aos 5:05

DE AMOR

Considera o amor como um retoque num quadro antigo,
que subitamente o vem iluminar:
vimo-nos muitas vezes antes de seres no meu olhar
aquela luz em um país perdido
que tu quiseste em vão esconder, negar.

O quadro manteve o mesmo fulgor:
a reverberação no silêncio da perda,
o desamor.

Quem avivou o brilho das tintas, quem corrigiu o baço
sinal da morte? Falámos de uma dor
num fundo esbatido. Falámos do grito mudo do teu corpo.
Falámos de amor.

Luís Filipe Castro Mendes
In: Modos de música. Lisboa: Quetzal,1996


E já agora as palavras em itálico vêm daqui:

INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...

Camilo Pessanha

Ono No Komachi,"Quando o meu desejo"

Ono No Komachi é uma poetisa japonesa do século IX, terá nascido cerca de 834 e não se sabe a data da sua morte. Viveu no período mais florescente da história literária e artística do Japão, a era Heian, que durou cerca de 400 anos (794-1185). Divulgou uma forma principalmente feminina, o tanka, que mais tarde foi dar lugar ao haiku, inicialmente masculino.
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Imagem retirada da net

1

Será que apareceu
só porque eu adormeci
a pensar nele?
Se eu soubesse que sonhava,
nunca teria acordado. (1)




2
Quando o meu desejo
se torna intenso de mais,
visto a roupa de dormir
virada pelo avesso,
escura casca da noite, (2)


1 Os poemas de amor e desejo de Komachi representam uma voz nova na poesia japonesa, seguida nos séculos seguintes por outras mulheres poetas.

2 Neste poemavemos a poetisa acordada, seguindo o velho costume japonês de virar a roupa ao contrário para que se cumpra um desejo.


O Japão no Feminino I, Tanka, séculos IX a XI, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 7 e 21. (Org. Luísa Freire)

domingo, 25 de abril de 2010

A figura do dia

A figura do dia nas cerimónias abrilinas da Assembleia da República. Aguiar-Branco surpreendeu com o seu inesperado e algo insólito discurso. Não se pense, e tal leitura é quanto a mim simplista, que se tratou de mera provocação- foi sobretudo um apelo inteligente a pensar os preconceitos ideológicos que nos dominam, da esquerda à direita- embora tenha havido o seu quê de provocações, mas provocações saborosas: citando Lenine, Sérgio Godinho e até Rosa Luxemburgo! Serviu também para quebrar a monotonia dos habituais discursos que ouvimos no Parlamento neste dia.

Um quadro por dia - 57

Adolph Menzel ( 1815-1905 ), Um concerto de flauta de Frederico O Grande em Sanssouci, 1852, óleo sobre tela, Col.particular.

Porque hoje terminam os Dias da Música 2010 no Centro Cultural de Belém.

Dia da Liberdade




Ser livre
é não reter nas mãos
o vento
é ser verdade e sal
e ser fermento.


JMS (1976)

Amizade

«É doce, quando se sofre, deitarmo-nos no calor da cama e ali, suprimido todo o esforço e toda a resistência, com a cabeça debaixo dos cobertores, abandonarmo-nos por completo, gemendo, como os ramos ao vento do Outono. Mas há uma cama ainda melhor, cheia de odores divinais. É a nossa terna, profunda, impenetrável amizade. Quando essa cama é triste e gelada, deito nela, friorento, o meu coração. Sepultando o meu próprio pensamento na nossa quente ternura, longe de tudo o que se passa lá fora, recusando-me a defender-me, desarmado, mas, por milagre da nossa ternura, inesperadamente revigorado, invencível, choro com a pena e com a alegria de ter uma confiança onde encerrá-la.»
Marcel Proust
In: Os prazeres e os dias. Lisboa: Estampa, 1989, p. 151

Também hoje...


Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, saiu em 1719.


Carlota Joaquina nasceu em Aranjuez, em 1775.


A Itália também festeja a sua Festa della Liberazione, ocorrida em 1945.

Uma nova canção


http://img.photobucket.com/albums/v642/Seven2005/diversos3/1145544614.jpg

Aproximo a lâmpada da boca
do túnel. Este
é o momento em que todas
as cápsulas deflagram, em que as águas
se misturam, os cravos
explodem.
Tragam
a manhã para a rua, desfraldem
o estandarte do sol, desfolhem
flores e guitarras. Acertem
os relógios pelo ritmo
do sangue, acelerem
o compasso das velhas
sinfonias e escrevam
no caderno do vento
uma nova canção.

Albano Martins

Para c.a., que gosta deste poeta.

Um espectáculo!


Vi este grupo que desconhecia, esta noite, no CCB.

Um cravo …pensamentos dispersos.



Na procura de respostas para uma identidade de Portugal encontrei estes dois textos retirados do livro Portugal Identidade e Diferença.

“Uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo, o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado: a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também se restitui, o tempo não tem restituição alguma”.
Padre António Vieira, Sermão da Primeira Dominga do Advento 1650

“Desde os relatos da Guerra do Peloponeso ou da história da república romana, encontramos exemplos de desalento, de descrença e de descrédito da política. E como foi possível superar esses tempos? Com ideias e com sobressalto cívico”.
Guilherme d’ Oliveira Martins

Guilherme d’ Oliveira Martins, Portugal Identidade e Diferença, Aventuras da Memória, Lisboa: Gradiva, 2007 (2ª edição) p. 11 e 114

Será possível superar o descrédito da República quando as suas palavras de ordem como: liberdade, igualdade e fraternidade estão gastas?
Em tempos de dupla comemoração: centenário da República/25 de Abril as guerras são as mesmas, os problemas são os mesmos, a corrupção continua, a soberania popular é esquecida e regulada por uma "oligarquia" cujo interesse é o poder.
Quero, no entanto, crer que ainda há esperança… o cravo solitário é o desejo “utópico” que um dia as três palavras de ordem imperem não só no papel mas fora dele onde é verdadeiramente importante.

25 de Abril de 1926


No dia 25 de Abril de 1926 foi a estreia da Turandot, tal como Puccini a deixou. Dois dias depois, quando se apresentou a versão completada por Franco Alfano,  Artur Toscanini, na cena de morte de Liù, virou-se para a plateia e disse: "Senhoras e Senhores, aqui parou Giacomo Puccini". Segundo reza a lenda fez isso porque não gostava do final de Franco Alfano.

Den Sutejo - O Japão no Feminino!


Den Sutejo é uma poetisa japonesa que viveu no século XVII, no mesmo período de Bashô pertencendo à mesma escola de haikai.


A lua no céu,
vista do estore de bambu,
fica menos fria. (1)




Provando a dureza -
um vaso de sempre-noiva
bem no meio da neve. (2)




Ramo de ameixieira
em flor - este forte cheiro
do senhor que amo.


1. segunndo a tradição do haikai a imagem da lua indica o Outono. O estore de bambu, servindo no Verão para resguardar do sol, parece reter em si um pouco do calor passado.

2. No Japão pré-moderno, a mulher recém-casada habitualmente vivia em casa dos sogros a quem devia servir e respeitar. Aqui a a jovem esposa começa a experimentar o frio que essa obrigação implica.

O Japão no Feminino, Haiku séculos XVII a XX (org. Luisa Freire), Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.23

sábado, 24 de abril de 2010

Bona nit!*



*Obrigada, Miss Tolstoi, pela deixa.

A cidade dos prodígios

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«No ano em que Onofre Bouvila chegou a Barcelona, a cidade encontrava-se em plena febre de renovação. Esta cidade fica situada no vale que as montanhas da cadeia costeira deixam ao retirar-se um pouco para o interior, entre Malgrat e Garraf, que deste modo formam uma espécie de anfiteatro. Ali o clima é temperado e sem altos e baixos: o céu costuma ser claro e luminoso; as nuvens, poucas, e mesmo estas brancas; a pressão atmosférica e estável; a chuva, escassa, mas por vezes traiçoeira e torrencial.» Eduardo Mendoza
In: A cidade dos prodígios. Lisboa: Dom Quixote, 1988

A cidade dos prodígios é um romance apaixonante que se desenrola na Barcelona de final do século XIX e inícios do século XX.

"Délicatesse", um afecto que aprecio.

Esta crónica foi escrita por João Bénard da Costa a lembrar um amigo, Fernando Azevedo. A palavra délicatesse para recordar o amigo tornou este pedaço de prosa um pensamento a reter.

Fernando Azevedo, Fotografia retirada do livro que está referenciado.

"Ninguém deu mais e melhor a ver (o que eu aprendi com ele, quando orientava as visitas guiadas às exposições da Gulbenkian), ninguém escreveu melhor sobre os melhores e mais novos, ninguém organizou ou promoveu mais exposições individuais de artistas, mais monografias de pintores. Morreu sem que se tenha feito uma grande retrospectiva sobre a sua obra, sem que exista um só volume consagrado a ele. Ninguém fez mais pelos outros. Sobre ninguém, com o tamanho dele, se fez tão pouco. nunca o ouvi queixar-se.
Mas não era modéstia não. Pensando mais, pensando melhor, a única palavra que me ocorre é délicatesse, no sentido de Rimbaud no verso célebre. «Par délicatesse/j'ai perdu ma vie»."

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 53

Chanson de la plus haute tour

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent.

Je me suis dit : laisse,
Et qu'on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête,
Auguste retraite.

J'ai tant fait patience
Qu'à jamais j'oublie ;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.

Ainsi la prairie
A l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D'encens et d'ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Ah ! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame !
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie ?

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent !

Arthur Rimbaud

Nota - Alterei o post às 19;10h porque dei voltas e voltas e não consegui descobrir, com a certeza absoluta, um quadro de Fernando de Azevedo. Vou ter que arranjar um livro sobre ele.

Barcelona: Tibidabo




«Começava a anoitecer quando emergi das escadas do Metro. Deserta, a Avenida Tibidabo desenhava uma fuga infinita de ciprestes e palácios sepultados numa claridade sepulcral. Vislumbrei a silhueta do eléctrico azul na paragem, a campainha do revisor ceifando o vento.»
Carlos Ruiz ZafónA sombra do vento


Lisboa: Dom Quixote, 2004

Pensamento!

M.C.Escher, Magic Mirror,1946
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"O mundo é uma miragem e os homens sombras levadas
pelos ventos sábios do Destino".

Oliveira Martins, História de Portugal

Barcelona

Em memória de Francese Ferrer.

Ao menos um passeio pelo Bairro Gótico


http://www.icypole.net/barca/Barri-Gotic-detail.jpg

«Quando penetrou no Bairro Gótico, fui atrás. Em breve o seu vulto se perdeu sob pontes estendidas entre palácio. Arcos impossíveis projectavam sombras dançantes sobre as paredes. Tínhamos chegado à Barcelona encantada, o labirinto dos espíritos, onde as ruas tinham nome de lenda e os duendes do tempo andavam atrás de nós.»
Carlos Ruiz ZafónMarina


Papa em Lisboa a 11 de Maio

Para muitos o destino está traçado desde a hora do nascimento. Está explicado porque é que Sua Santidade vem este ano de 2010 a Lisboa, e não veio antes, o Ano-passado, para a consagração da nova Basílica de Fátima. É que este ano vem a Lisboa festejar a consagração de Jesus.

Nostalgia...2

John Williams plays Sueno en la Floresta

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dia Mundial do Livro - 5


Mestre holandês desconhecido - Natureza morta com livros
Óleo sobre madeira, ca 1628

OS MEUS LIVROS
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

Jorge Luis Borges
In: Obras completas. Lisboa: Teorema, 1998, vol. 3, p. 113

Não pude deixar de pensar em duas pessoas que me são muito queridas.

Sem Comentários...

Ermida Nossa Senhora da Conceição, Belém, Lisboa .

Dia Mundial do Livro - 4


François Bonvin (1817-1887) - Still life with book, papers and inkwell, 1878
Londres, The National Gallery

«Livros cerrados, não fazem letrados.»


O LIVRO FECHADO

Quebrada a vara, fechei o livro
e não será por incúria ou descuido
que algumas páginas se reabram
e os mesmos fantasmas me visitem.
Fechei o livro, Senhor, fechei-o,

mas os mortos e a sua memória,
os vivos e sua presença podem mais
que o álcool de todos os esquecimentos.
Abjurado, recusei-o e cumpro,
na gangrena do corpo que me coube,

em lugar que lhe não compete,
o dia a dia de um destino tolerado.
Na raça de estranhos em que mudei,
é entre estranhos da mesma raça
que, dissimulado e obediente, o sofro.

Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio

onde não cai, nem vinga, desmobilizada,
a sombra elíptica do guerreiro.
Fechei o livro, calei todas as vozes,
contas de longe cobradas em nada.
Fale, somente, o silêncio que lhes sucede.

Rui Knopfli (1932-1997)
In: O corpo de Atena. Lisboa: IN-CM, 1984, p. 67

Um livro, um filme.


A Melodia do Adeus (The Last Song) é o filme que hoje anda na minha cabeça, porque foi o filme da última noite. Por vezes o amor tem formas estranhas de comunicar. Mas é um filme que também está relacionado com o tema que mundialmente se evoca hoje, o livro. Não só porque é a transformação em imagem de um livro (escrito por Nicholas Sparks), mas antes pelo prazer de ver dois jovens, de 17 anos, a lerem livros, bons livros... e um deles citar uma passagem do livro do outro, não como o tradutor a escrever, mas sim com o som (língua original) com que o autor imaginou aquela frase. E para mais, trata-se de um autor russo a ser citado por um americano. Autor que tem levado muitos cidadãos do mundo a aprender russo apenas para poderem ter o prazer de ler os seus escritos na língua original. Estou a falar de Leo Tolstói.... o livro era Anna Karenina, mas também poderia ser Guerra e Paz.
E este post é dedicado a quem hoje me mandou uma rosa, inspirando-se no costume que JMS relatou de Barcelona.

Borges e os livros


Nestes dias que celebram o livro e, consequentemente, a leitura, lembro-me sempre de Jorge Luís Borges. O homem dos livros, das bibliotecas, da leitura até quando já não se pode ler e têm de ler para nós. E neste seu livro, O Fazedor, um dos meus preferidos do grande argentino, há um poema, Limites, que tem estes versos:
Há um espelho que me viu pela última vez.
Há uma porta que fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca ( estou a vê-los )
Há alguns que nunca abrirei.
São versos que me marcaram e me marcam profundamente. Sobre a brevidade da vida humana e a derivada impossibilidade de lermos tudo o que temos, já para não falar de tudo o que queremos (ler).

Citações - 83 : Dos livros e da leitura

O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque sabe que é mortal.Vive em sociedade porque é gregário, mas lê porque se sente só. A leitura constitui para ele uma companhia que não ocupa o lugar de nenhuma outra, mas que nenhuma outra poderia substituir. Não lhe oferece nenhuma explicação definitiva acerca do seu destino, mas tece uma apertada rede de conivências entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal alegria de viver, mesmo quando referem o trágico absurdo da vida. Por isso as razões que temos para ler são tão estranhas como as que temos para viver.

- Daniel Pennac, Como Um Romance (trad. de Francisco Paiva Boléo ), Asa.