Prosimetron

Prosimetron

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Boa noite!

Que é certamente de festa em casa do John Cougar Mellencamp que faz hoje 59 anos. Esta Hurts So Good é de 1982, ano em que ele começava a ser uma estrela na cena musical norte-americana e internacional, tinha muito cabelo e ainda nem tinha acrescentado o apelido Mellencamp. E eu sabia a letra toda...

Dia Nacional dos Castelos

Neste Dia Nacional dos Castelos lembrei-me deste ( o de Alvito ) por uma razão muito simples: nunca o visitei, e ando a pensar nisso há algum tempo e por várias razões. Mais uma resolução para 2011...- mas esta é fácil de concretizar.

Frutas - 29


Irving Penn (1917-2009) - Still life with watermelons
Fotografia, 1947

Irving Penn faleceu faz hoje um ano.

Finalmente!



Mário Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura!

«Mario Vargas Llosa nasceu em 1936, em Arequipa, no Peru. Professor universitário, académico e político, é uma personalidade intelectual de grande vulto e um dos mais importantes escritores da América Latina e do mundo. Da sua vasta obra, destacamos A Cidade os Cães (Prémio Biblioteca Breve, 1962; Prémio da Crítica Espanhola, 1963), A Casa Verde (Prémio Nacional do Romance do Peru, Prémio da Crítica Espanhola, Prémio Rómulo Gallegos, 1963), Conversa n' A Catedral (1969), Pantaleão e as Visitadoras (1973), A Tia Júlia e o Escrevedor (1977), A Guerra do Fim do Mundo (1981; Prémio Ritz-Hemingway - 1985), História de Mayta (1984), Quem Matou Palomino Molero? (1986), O Falador (1987), Elogio da Madrasta (1988), Lituma nos Andes (Prémio Planeta, 1993), Como Peixe na Água (1993), Os Cadernos de Dom Rigoberto (1997), Carta a uma Jovem Romancista (1997), A Festa do Chibo (2000), O Paraíso na Outra Esquina (2003) e Travessuras da Menina Má (2007).» (Da nota distribuída pela D. Quixote.)
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Sou fã de Vargas Llosa desde que li Conversa na catedral.
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«Escreve-se para preencher vazios, para fazer separações contra a realidade, contra as circunstâncias. » (M. V. L.)
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«A literatura não é algo que nos faça felizes, mas ajuda-nos a defendermo-nos da infelicidade.» (M. V. L.)

No centenário de Mark Twain


Irmãos Unidos


Foto Eduardo Portugal, s.d.
Arq. Fot. CML, PT/AMLSB/AF/POR/060322

Os Irmãos Unidos, no Rossio (Lisboa), era um restaurante que pertencia ao pai de Alfredo Guisado. Aqui se reunia a geração do Orpheu, e para ele, Almada Negreiros pintou o retrato de Fernando Pessoa, em 1954, que presentemente se encontra na Casa Fernando Pessoa. Dez anos mais tarde, pintou uma réplica para a Fundação Gulbenkian.
O restaurante encerrou em 1970, tendo a sua área sido anexada pela Camisaria Moderna. Ainda existe um resquício do restaurante com o nome de Adega Irmãos Unidos, na Praça da Figueira, 2.

Pensamento


http://creartis.c.r.pic.centerblog.net/z9v4vz9v.jpg

Fico pensando, às vezes, por momentos,
Que a alma dentro em nós, é uma fonte
Onde bebem os nossos pensamentos!
[...]

Alfredo Guisado
In: Distância. Lisboa: Livr. Ferreira, 1914

Para Jad, porque há dois dias se falou de Alfredo Guisado.

No Centenário - 2

- O Infante D.Manuel, futuro D. Manuel II. (Adenda- Solucionado o desafio infra, aqui fica a informação em falta: o retrato é da autoria de Amadeo de Souza-Cardoso, o maior, e o mais monárquico, pintor português das primeiras décadas do séc.XX, e está exposto no Museu Amadeo Souza-Cardoso em Amarante. )

Foi com surpresa que vi ontem, e graças ao aviso de um prosimetronista, o documentário de Eduarda Maio que passou depois do noticiário das 20h na RTP1, em horário nobre (!), sobre o último Rei de Portugal.
Um gesto bonito para com o principal vencido do 5 de Outubro de 1910, e onde foi focado sobretudo o seu exílio inglês, salientando a imensa generosidade de D.Manuel II até ao fim dos seus dias para com os seus conterrâneos mas também para o povo que o acolheu. E não posso deixar de mencionar a participação de Clara Macedo Cabral, amiga de vários prosimetronistas e radicada em Londres, que falou pela Maggs, os conhecidos livreiros que forneceram ao soberano exilado os preciosos volumes do séc.XVI que estão hoje em Vila Viçosa.
Parabéns à RTP, e espero que não tenha havido indigestões por parte dos mais fundamentalistas, de um lado e doutro das barricadas...


P.S.- Um doce, ou melhor uma caixa para não me chamarem sovina, a quem adivinhar quem pintou o retrato que está acima. Uma pista- é um grande nome da pintura portuguesa.

1945 : Perry Como

A 7 de Outubro de 1945 era Perry Como o campeão de vendas com esta fabulosa Till The End Of Time.

Um quadro por dia - 95

Gari Melchers (1860-1932), Mother and child, 1904, óleo sobre tela, Museum of Fine Arts, Boston.

Embora menos conhecido que os seus contemporâneos John Singer Sargent ou Mary Cassatt, Melchers é um pintor norte-americano que merece atenção. Apesar de ter começado a minha procura de uma tela maternal para hoje na Velha Europa, desde logo uma das várias mães pintadas por Renoir, foi Melchers quem captou a minha atenção.

As primeiras chuvas II

As primeiras chuvas no Jardim Botânico quando procurava os tons de Outono!


Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal



Laura Fygi - Les Feuilles Mortes

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Boa noite!


Gustave Moreau (1826-1898) - Salomé (pormenor), 1874-1876

SALOMÉ

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...

Lisboa 1913 - novembro 3.

Mário de Sá-Carneiro
In: Poemas completos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001


Gustave Moreau (1826-1898) - Salomé (pormenor), 1876

BALADA DE SALOMÉ

Meus bailados endoidecem,
Adormecem,
São riscos, que os meus sentidos
Com tules de ânsia vestidos,
Traçam no ar...
Endoidecem...
Plumas que caem no mar...

Anda ao redor do meu Corpo,
Triste, exangue...
Sou uma bruma de mim...
Sou uma gota de sangue
Numa espada de marfim...
Dedos de silêncios velhos...
Breves sombras do meu Corpo
A dançarem nos espelhos...

Meus olhos, portas abertas
E desertas,
Portas para jardins pagãos...
Leves repuxos de cores...
São conventos profanados
Onde morreu uma freira...
E são palcos, minhas mãos,
Onde meus dedos-actores
Andam cantando bailados
Duma outra bailadeira...

Minha sombra, voz que escuto
Numa sala dum castelo.
Sonho de Mim. Meu cabelo,
Caudas de faisões de luto
Em parques de outros Orientes...
O meu Corpo, um girassol
Virando a todo o momento
Para o Sol
Dos meus sentidos doentes.

Sou o talismã dum mago.
E são meus olhos inquietos,
Muito pretos,
Cabeças dentro de pratos...
Sou silêncios debruçados,
Gritos de mim, ecos, tudo...
Os meus bailados são patos
Ao longe, junto dum lago,
Laços de sangue, pintados
Num pescoço de veludo...

Alfredo Guisado
In: Tempo de Orfeu. Coimbra: Angelus Novus, 2003


Poemas - 14


GEOLOGIA


Dentro da pedra, o fóssil de uma rosa levanta

a margem negativa dos ramos, abre os seus pistilos

mais longos, onde se interrompe uma geração de instantes

que nos recorda o voo antigo das abelhas.


Caídas, as folhas descrevem-nos o estremecimento

dos enxames, sob a brisa que chega com os dedos,

margem levíssima abandonada pelos músculos, ar

que sustentou a sua haste invisível.


Podemos unir, devagar, a nossa fronte aos espinhos

para que nela apenas continue um círculo de sangue

legado por ninguém, a clara seiva que percorre

a mesma flor: gesto frágil da terra.


Fernando Guimarães, Algumas das palavras- Poesia Reunida 1956-2008, Edições Quasi, 1ªed, Dezembro de 2008.

A arte do retrato - 5

Brassaï (1899-1984), Anais Nin, 1923.

Estava na altura de aparecer um retrato fotográfico nesta série. Escolhi o maior fotógrafo húngaro, embora grande parte da sua vida tenha decorrido em França, do século passado e um dos seus retratos que julgo mais impressivos: o da escritora Anais Nin, cuja vida sob o signo da liberdade sempre me fascinou.

Reitoria da Nova


1959 : Bobby Darin

A 6 de Outubro de 1959 era Bobby Darin quem dominava os tops com esta Mack The Knife.

A Coisa Pública em exposição


Esta exposição funciona em dois pólos: um na Assembleia da República, o outro na Biblioteca Nacional de Portugal.

Elegâncias - 49


Ontem e hoje tomei banho com este sabonete - oferta de um cidadão a esta cidadã.
Cópia de um sabonete feito há 100 anos pela Ach. Brito.

O Início

UPPHAF
(O Início)

1
De antanho a era
em que o vazio existia,
nem areia ou mar
nem ondas revoltas;
por forjar a Terra,
Por cobrir o Céu:
um abismo aberto,
sem folha de relva.

2
Os Grandes Deuses então
deram início à labuta,
o maravilhoso mundo
mui bem construíram.
Vindo do Sul, o Sol
dos mares saído
reluzia sobre a relva
verdejando nas manhãs.

(...)

Começa assim, com estas estrofes, a Lenda de Sigurad e Gudrún, de J. R. R. Tolkien. Do autor li O Senhor dos Anéis e o Hobbit.

J. R. R.Tolkien, A Lenda de Sigurd e Gudrún, Lisboa: Edições Europa-América, 2009, p. 59 (tradução de Rita Guerra)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Efemérides

Medalhão evocativo do nascimento de Luísa Todi (Setúbal, Rua da Brasileira)


Quando vimos o nosso nome ser invocado para ilustrar, como efeméride, um dia do calendário, sentimos que estamos mais perto da morte do que da vida. Para mais que, tendo tido o cuidado de percorrer o blogue, foi o único vivo avocado para lembrar a passagem de uma data. E foi evocado, pela pena de um desconhecido, num blogue de um aparente "autor anónimo" ou, pelo menos, a coberto de um pseudónimo, que não consigo identificar.
Aconteceu para lembrar a passagem do dia 1 de Outubro.... o outro nome recordado, para esse dia, foi o de Luísa Todi, que morreu a 1 de Outubro de 1833.

Entretanto, no Brasil houve eleições.


Apurados os votos, terá de haver segunda volta para a Presidência do Brasil. Uma injustiça para Dilma Roussef, que trocou os óculos por lentes de contacto, aplicou Botox, fez um lifting e até foi à televisão mostrar que sabe cozinhar, pelo menos omeletes...

Citações - 123


Tomem nota da data: 29 de Setembro de 2010. O dia em que foi declarada a falência oficiosa do Estado Português, tal como nos habituámos a vê-lo.


Miguel Sousa Tavares
, a propósito do Plano de Austeridade anunciado por Sócrates no passado dia 29, in Certidão de óbito, no Expresso.

O meu 5 de Outubro

É o 5 de Outubro de 1143, dia em que em Zamora decorreu a assinatura do tratado homónimo celebrado entre Afonso Henriques de Portugal e o seu primo Afonso VII de Castela e Leão, e que consagrou a independência portuguesa. Foi há 867 anos.

1910 : Harry McDonough

Nos Estados Unidos, a 5 de Outubro de 1910, era Harry McDonough o cantor campeão de vendas. Fiquemos com esta Will You Love Me In December As You Do In May, escrita curiosamente pelo mais divertido Mayor que a cidade de Nova Iorque já teve: John J.Walker.

Dia Mundial da Arquitectura

- Rotonda.
- Villa Cornaro.

Foi ontem. Mas ficou esquecido entre a euforia centenária de uns e as mágoas de outros... :)
Lembro hoje o dia reservado à nobre e antiga arte, com recurso a um dos meus preferidos mestres-arquitectos de todos os tempos: Palladio, o grande mestre do século XVI.
As casas que desenhou são milagres de pedra: na resistência ao tempo e ao gosto, na inserção na paisagem, na harmonia das formas. Inveja é sentimento que não me costuma habitar, mas relativamente a uma casa palladiana, abro uma excepção...

Lembrando Alfredo Keil

MR já colocou a Portuguesa. Este apontamento é só para lembrar o homem que compôs a Portuguesa, Alfredo Keil (1850-1907).
De descendência alemã, Alfredo Keil estudou música e desenho em Nuremberga. Pintou, ilustrou, escreveu poesia, da qual apenas conheço o livro "Tojos e Rosmaninhos", e foi músico. Desta última faceta destaco também uma das suas óperas, D. Branca, já se focou no Prosimetron aquando da sua representação no S. Carlos, no passado dia 29 de Setembro. Aqui fica um traço da sua sensibilidade.
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Alfredo Keil, O Aterro em 1881; no cais do Tejo,
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Óleo sobre madeira, 92 x 154 cm, Museu do Chiado, Lisboa, Portugal


Alfredo Keil - L'Abime Op. 14 No. 1

No Centenário - 1


A revolução republicana significou uma mudança de gerações na elite.Não significou uma maior participação da população. Sob o domínio do Partido Republicano, houve menos eleitores e menos votantes do que antes de 1910. Nos cadernos eleitorais da república, em relação à monarquia, diminuíram os trabalhadores manuais. De resto, pouco mudou. Para quem queria contactar a administração, continuaram a ser precisos empenhos e favores junto de uma elite de homens instruídos e da classe média. A polícia tratou sempre a população mais pobre com brutalidade. Às mulheres, o regime negou sempre qualquer estatuto político.
A I República, sem sufrágio universal, sem eleições justas e sem rotação pacífica no poder, não faz parte da linhagem da atual democracia. Também não foi equivalente ao Estado Novo, por lhe faltar uma ideologia de rutura com o liberalismo e uma máquina de repressão legal ao mesmo nível. Na década de 1920, afastado Afonso Costa, os novos líderes do Partido Republicano, como António Maria da Silva, permitiram-se uma maior tolerância, embora sem abrirem mão do poder. Mas na conjuntura do pós-guerra, com a emergência do comunismo e do fascismo e uma grande contenção financeira, que liquidou o investimento público, essa nova política não deu origem a uma "Regeneração" como a de 1851, mas à cisão final do Partido Republicano, abrindo a porta à Ditadura Militar (1926-1933).
Para essa transição, contou o ambiente de guerra civil gerado pelo domínio exclusivista e arbitrário do Partido Republicano, que tornou aceitável a repressão e o uso da violência contra adversários políticos. Contou também o modo como o domínio radical pôs em causa, pelas reações que provocou, a hegemonia política e cultural da esquerda que vinha do século XIX. Foi sob a república que emergiu uma nova cultura de nacionalismo tradicionalista, que não existia com significado antes de 1910, e que constituiria o oxigénio intelectual do salazarismo. A República não " justifica " o Estado Novo, mas explica-o.


Estes são os 3 últimos parágrafos do notável ( não exagero no adjectivo) ensaio de quase 3 páginas que Rui Ramos, que nem sequer é monárquico, escreveu no Expresso intitulado A Iª República como objeto histórico
.
Para mim, mesmo deixando de parte as minhas simpatias políticas, é muito bom ver alguém que contraria a "cartilha" ensinada durante décadas, e ainda foi o meu caso no ensino secundário em meados dos anos 80, de que a Iª República teria sido praticamente uma era de "vinho e rosas" infelizmente sufocada pelos militares reaccionários que entregaram o poder posteriormente a Salazar. A verdade histórica, como Rui Ramos bem demonstra, é muito mais complexa do que isso. Mas fico à espera que alguém faça a contradita: que venha dizer e demonstrar que Rui Ramos mente, omite ou exagera.
Se bem que, como viram e ouviram nos últimos tempos, até o Prof.Rosas já tem um discurso mais matizado...

1910 - 23


Capa de Alberto Sousa.

Para quem ficar em casa

Da minha biblioteca - 11

Ainda bem que as profusas celebrações de um certo Centenário serviram para chamar à colação esta obra magistral, que é um verdadeiro guia filatélico nacional. Eu, aprendiz de filatelista, muito beneficiei dela.



P.S. - Aproveito para agradecer os "mimos", e tomei boa nota do belo ensaio para um selo de D.Manuel II. Pode ser que ainda um dia venha a ser emitido...

Animação...

As comemorações na Praça do Município vão ser mais animadas do que muitos estariam à espera. Estejam atentos e Viva a Carbonara! ( não, não falta nenhuma letrinha )

O centenário de Fifi Antunes

Moisés deitou-se no chão julgando que o seu último momento chegava; ao fim de poucos minutos apalpou-se todo e como encontrasse o esqueleto intacto e devidamente coberto, encetou a mãos e pés, o regresso a casa... Para completar o disfarce, ia de vez enquando lançando ao ar um miau plangente... E cerca da uma hora da madrugada voltava a esquina da rua, erguia-se e corria a bom correr para a porta de casa... Nem acreditava que chegasse são e salvo de tão arrojada aventura.
Mas realmente não chegava a tempo.
A senhora Júlia com o mesmo sorriso com que lhe apresentava todos os meses o recibo do senhorio, logo à entrada depunha-lhe nos braços uma espécie de cabritinho esfolado que esperneava e vagia numa encantadora promessa de noites em branco.
- É rapaz ou rapariga?
- Menina... e há-de ter coragem como o pai - disse a senhora Júlia na mira de outros dez tostões.
- E então a senhora? Como está ela? - e referia-se ao génio da Ludovina, antevendo a descompostura que ia levar pela demora.
- Esta a descansar... Não se apoquente. Estava eu cá... Porteira ou parteira é quase a mesma coisa.


[....]

-Vencemos! A República proclamou-se! Raiou finalmente a Aurora da Democracia... Sua filha, se o senhor é patriota, deve chamar-se Aurora, em homenagem a esta memorável data...
- É verdade - reflectia o Moisés. - A minha família parece destinada a grandes coisas. Eu nasci a 24 de Julho, e tenho uma filha a 5 de Outubro! Já é ser histórico!

Desenho de Alberto Sousa, A Capital, 7-Outubro-1910

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As postagens sobre o quotidiano de 1910, que venho publicando desde o dia 3 de Outubro, destinavam-se a celebrar este centenário. Para quem pensou que era o da Revolução... as minhas desculpas. É que muitas outras coisas aconteceram há cem anos... E uma delas foi o nascimento da Fifi, alcunha de Francisca, em honra de Francesca de Rimini, que ocorreu na Aurora do dia 5 de Outubro de 1910 e por isso esteve quase a chamar-se Aurora.


A família Antunes é uma criação de Gervásio Lobato, na sua comédia Lisboa em camisa (1880).
Foi recriada por Armando Ferreira, em 1934, na sua comédia Lisboa sem camisa.
Moisés Antunes, ou melhor, Moisés Martim Antunes (porque o Moisés ainda é um Martim) foi obrigado a casar com a criada lá de casa (que nem sabia ler nem escrever...) de nome Ludovina.
O casamento foi chorado mas, como disse o Tristão, bem informado da civilização e do progresso: «Os tempos hoje são outros... todos os dias no jornal tenho lido exemplos de fidalgos que casam com plebeias».

A comédia de Armando Ferreira é editada pela «Livraria Editora Guimarães» que ainda hoje tem a sua sede na R. da Misericórdia, n.os 68-70, em Lisboa. Todos os extractos saíram do vol. I: O casamento da Fifi Antunes.

Natureza morta com busto da república


Helena Justino (Porto, 1944 - )
Natureza morta com busto da República, 2010
Óleo sobre tela, 50x50cm

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Boa noite!

Aconteceu há 100 anos (VII)

Pelas 11 horas da noite o tiroteio abrandou, e Ludovina piorou. A rua estava deserta, os candeeiros apagados, e Moisés perscrutava através dos vidros o mistério das trevas, quando os gritos recomeçaram no quarto...
A senhora Júlia lembrou que talvez ele pudesse, agora que tudo estava sossegado, ir à farmácia do bairro e trazer pacotes de algodão e sublimado.
- Se o senhor tem receio, eu chego lá num instante...
-Eu, receio? Vou já... Pode ser até que o farmacêutico saiba dalgum médico ou parteira aqui perto...
Na escada, Moisés pensou no acto de coragem que ia empreender, avançando para o negrume da noite. Começava o seu calvário pelo «Filho», sentia-o bem.
Puxou a gola do casaco para cima, a aba do chapéu para os olhos e, rente às paredes, caminhou apressado... Ao longe, recomeçava a troar o canhão, e Moisés acelerou o passo. Vultos passavam a fugir... A farmácia estava fechada. Bateu, mas ninguém respondeu de dentro... E ia a reflectir: «as revoluções deviam ser todas no campo, e deixarem as famílias sossegadas» quando perto dele o estrondo duma bomba estremeceu o ar.



(Em breve acaba a saga preparada para festejar o centenário, está quase...)

O poder e o povo

A República foi feita pela chamada “geração de 90″ (1890), a chamada “geração doUltimatum“, educada pelo “caso Dreyfus” e, depois, pela radicalização da República Francesa de Waldeck-Rousseau, de Combes e do “Bloc des Gauches” (que, de resto, só acabou em 1909). Estes beneméritos (Afonso Costa, António José d”Almeida, França Borges e outros companheiros de caminho) escolheram deliberadamente a violência para liquidar a Monarquia. O Mundo, órgão oficioso do jacobinismo indígena, explicava: “Partidos como o republicano precisam de violência”, porque sem violência e “uma perseguição acintosa e clamorosa” não se cria “o ambiente indispensável à conquista do poder”. Na fase final (1903-1910), o republicanismo, no seu princípio e na sua natureza, não passou da violência, que a vitória do “5 de Outubro” generalizou a todo o país.

Não admira que a República nunca se tenha conseguido consolidar. De facto, nunca chegou a ser um regime. Era um “estado de coisas”, regularmente interrompido por golpes militares, insurreições de massa e uma verdadeira guerra civil. Em pouco mais de 15 anos morreu muita gente: em combate, executada na praça pública pelo “povo” em fúria ou assassinada por quadrilhas partidárias, como em 1921 o primeiro-ministro António Granjo, pela quadrilha do “Dente de Ouro”. O número de presos políticos, que raramente ficou por menos de um milhar, subiu em alguns momentos a mais de 3000. Como dizia Salazar, “simultânea ou sucessivamente” meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.

E , em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam “carbonários”, vigilantes de vário género e pêlo e a “formiga branca” do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura política assente nos “direitos do homem e do cidadão” que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de “suspeitos” (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do “outro” mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês, que o “5 de Outubro” trouxe a Portugal?
Vasco Pulido Valente
(adaptação do prefácio da 6ª edição do meu livro O Poder e o Povo)
in Público de 2 de Outubro de 2010

Ensaio para um selo de D. Manuel II

D. Manuel II

Busto (de frente, olhando à direita) desenhado e gravado por
José Sérgio de Carvalho e Silva
Catálogo OM. n.º 1272

"Podemos definir ensaio como a impressão de um desenho não aprovado oficialmente, quer no todo, quer em qualquer parte, ou que, embora aprovado, não chegou a ser emitido".

A. H. de Oliveira Marques, Provas e Ensaios de Portugal e Colónias : I Parte - Continente, LIsboa, Publifil, 1980, p. [VII]

4 de Outubro de 1910 : Os selos de Correio

Lisboa, colecção A. H. de Oliveira Marques
Por um decreto de 19-8-1909 foi ordenada a nova emissão [de selos de correio], que deveria ser posta à venda em 1 de Janeiro de 1910. Desenho de Domingos Alves do Rego.

Lisboa, colecção A. H. de Oliveira Marques


"Os selos surgiram na data marcada, constituindo uma das mais belas séries da colecção portuguesa. Desenho, gravura, cores, são primorosos. Só há a lamentar o papel em que foraam impressos, o esmalte, que torna os selos muito quebradiços, embora contribua para lhes dar, quando novos, uma superfície acetinada e brilhante.
As cores estavam muito bem escolhidas e houve o cuidado de imprimir os baixos valores (2 1/2 a 80) numa única cor sobre papel branco, os médios valores (100 a 300) numa só cor mas sobre papel colorido e os altos valores (500 e 1000) em duas cores.
Os desenhos eram dois: um para as taxas de 2 1/2 a 300 e o último para as de 500 e 1000 réis.
O denteado foi 14x15 em folhas de 100 (10x10) e o papel esmalte, exceptuando os valores de 100 a 300, impressos sobre papel porcelana colorido."

A. H. de Oliveira Marques, História do Selo Postal Português, 2.ª ed., Lisboa, Planeta Editora, 1996, p.261-264 .

Cartas de jogar na BNP


Esta exposição pode ser visitada até final do ano.

Um quotidiano centenário (VI)


Às 4 da tarde houve nova invasão da casa do Moisés. O amigo Lopes, com o doutor e mais dois sujeitos tinham descoberto um binóculo de grande alcance , e vinham observar as manobras do Castelo.
- O amigo Moisés, desculpe, mas hoje é um dia único, histórico. E sua esposa melhorzinha?
- Assim, assim...
- Isto está demorado, hein? Cheira-me que ainda há-de correr muito sangue esta noite...
-Credo, senhor Lopes, longe vá o agoiro! - Replicou Moisés a pensar na revolução que tinha lá por casa.
- Diziam os revolucionários que era coisa para duas ou três horas e já lá vai um dia...
[...]


(Logo mais, ou amanhã, esclareço quem escreveu este relato, de 4 de Outubro de 1910).