Gosto de romances históricos ou, mesmo, de biografias romanceadas. E caio imensas vezes na tentação de comprar "obras" desse género, porque conheço mal a época em que se desenrolam e a "petite histoire" que lhe está associada ou muito pouco sobre uma determinada personagem. Acredito sempre - santa ingenuidade a minha - que quem se abalança a escrever sobre uma época ou uma personagem, fará investigação, conhecerá a época em que situa a acção e, por isso, não dirá enormidades com a desfaçatez de quem acha que basta publicar e por isso passar pelo crivo do editor, para ter produzido um best seller.
Durante muitos anos o romance ou biografia históricos caíram em desuso em Portugal. De há uns dez, vinte anos para cá, têm-se multiplicado exponencialmente. E diria que não há candidato a escritor que não tenha pensado em escrever livros desse género literário e que, muitos, se têm abalançado nessa empresa. Têm tido algum mérito, convenhamos, ao trazerem para os escaparates das livrarias factos, tempos e pessoas portugueses.
O meu pouco conhecimento sobre a mais importante amante de D. João V, e o facto de há um ano ter visitado o Convento de Odivelas onde viveu, levou-me a comprar " Madre Paula, mulher de Deus, amante do rei" de Patrícia Müller, licenciada em Ciências da Comunicação, autora de "novelas, filmes, séries e telefilmes" como se pode ler na breve biografia na badana do livro, publicado pela Asa.
A escrita, em si, nem é boa nem má, o conhecimento da época em que decorre a vida da célebre freira é menos mau atendendo a alguns factos históricos que refere ou às falas atribuídas ao Rei, sobre política interna e externa, mas parece haver um total desconhecimento sobre o ambiente da Corte, nomeadamente o tratamento dado ao soberano: Majestade para duas linhas abaixo o tratar por Alteza Real. Tratamento antecedido de Sua, quando se lhe dirige, o que em Portugal e pelo menos Espanha e França, nunca se usou Ou o tratamento dado ao Papa , Excelência e mais abaixo Santidade. Ou o anacronismo de se referir ao soberano, na voz de Madre Paula que é a narradora, como D. João V ou, pior ainda, o Magnânimo.
Palacete de Madre Paula em Odivelas, arrasado em 1949
Já não falo do auto-retrato que Madre Paula faz de si própria: mesquinha, perversa, de mau carácter, vingativa e todos os mais defeitos que se possam imaginar. E dos relatos crus dos actos sexuais variados, mais próprios de uma romance erótico - e alguns são mais recatados -ou de uma versão nacional do Kama Sutra.
Há outra amante de D. João V sobre a qual, para além da biografia essencial, pouco sei: a menos célebre Flor da Murta - D. Luísa Clara de Portugal - de que conheço, por fora o Palácio, na Rua do Poço dos Negros. Li que saiu recentemente uma biografia romanceada. Mas confesso que estou a hesitar em comprá-la. Gato escaldado de água fria tem medo.