Prosimetron

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domingo, 13 de julho de 2008

Elegias em Mitilene - 2

À NAU

Belo navio que aqui me conduziste, bordejando a
Jónia, às ondas brilhantes eu te abandono e de pé ligeiro
para a praia salto.

Tu vais voltar a esse país onde a virgem é a amiga
das ninfas. Que não te esqueça agradeceres as invisíveis
conselheiras, e como oferenda leva-lhes estes ramos que
minhas mãos colheram.

Pinheiro foste, e sobre as montanhas o vasto Notos
inflamado teus ramos espinhosos agitava, teus esquilos
e pássaros sacudia.

Guie-te agora o Bóreas, brandamente te impelindo
para o porto, negra nave que delfins ao sabor do mar
benevolente escoltam.

- Pierre Louys, AS CANÇÕES DE BILITIS , trad.port. Júlio Henriques, Fora do Texto, 1990

La Divina in cucina


Infelizmente ainda não me foi possivel ver a exposição dedicada a Callas, no Museu da Electricidade/Central Tejo, em Belém (Lisboa).
Diz quem viu que vale a pena!
[Já agora, a entrada é livre e está aberta todos os dias das 10h às 18h (aos Sábados só fecha às 20h)].
Mas hoje vou jantar com a Divina. O presente de Natal (que chegou algum tempo depois) de M. foi o livro La Divina in cucina : Il ricettario segreto di Maria Callas, Trenta Editora. Sei que hoje ela vai fazer uma das receitas....



Ainda Edward Hopper

Quando postei há tempos sobre Hopper, estranhamente esqueci-me deste quadro, um dos mais conhecidos aliás, e um dos primeiros que tinha escolhido para ilustrar a melancolia urbana, a solidão das grandes cidades que é um dos temas da pintura de Hopper.
Chama-se Nighthawks, e pode ser traduzido muito livremente, perdoem-me os puristas, por "pássaros nocturnos"- neste caso os frequentadores de uma instituição muito norte-americana, os diners abertos toda a noite em qualquer grande cidade.

Crónicas de Clarice - 4

OS PERFUMES DA TERRA ( 7 de Setembro de 1968 )

Já falei do perfume do jasmim ? Já falei do cheiro do mar. A terra é perfumada. E eu me perfumo para intensificar o que sou. Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. E como toda arte, exige algum conhecimento de si própria. Uso um perfume cujo nome não digo : é meu, sou eu. Duas amigas já me perguntaram o nome, eu disse, elas compraram. E deram-me de volta: simplesmente não eram elas. Não digo o nome também por segredo : é bom perfumar-se em segredo.

- Clarice Lispector, A DESCOBERTA DO MUNDO , Nova Fronteira, 1984

Audeguy - 1

- Retrato de Jean de La Bruyère

Aphorismes

Chez les plus grands maîtres ( La Bruyère, Nietzsche) , l'aphorisme procède d' une politesse, d' une bienveillance : il suppose que le lecteur soit capable de penser ( et se réjouit, du même coup, qu'il puisse penser autrement que l'auteur) . Non par modestie : le recueil d'aphorismes requiert une capacité de composition inouie, qui fait du genre une forme à la fois brève et infinie.

- Stéphane Audeguy, Petit éloge de la douceur , Gallimard, 2007, 17.

SWING KIDS


O grupo de oficiais à volta de Claus Schenk Conde de Stauffenberg, os irmãos Scholl com o seu movimento Weisse Rose ou o sacerdote Maximilian Kolbe ficaram na memória da História: a coragem e a determinação de se opor ao regime de Hitler custaram a vida a estes heróis que provaram às gerações seguintes que existia resistência contra a ditadura do Terceiro Reich.
Muitos foram também os alemães que, de forma não organizada e anónima, combateram a maquinaria totalitária. Quase desconhecido continua o fenómeno dos Swing Kids.

Dançar ao ritmo de Benny Goodman, Count Basie, Lionel Hampton ou das Andrew Sisters na Alemanha da década de 30 era naturalmente proíbido. A cultura e a música americanas eram classificadas como “entartet”, ou seja, como géneros artísticos “degenerados”.
No entanto, o fascínio pelo jazz e swing americanos até na Alemanha marcou presença: a partir de 1935, jovens alemães, provenientes de camadas sociais privilegiadas, começaram a encontrar-se às escondidas para ouvir e dançar ao gosto da sua música preferida. Hamburgo terá sido a cidade com maior concentração dos Swing Kids. Os jovens detestavam o movimento da mocidade hitleriana (Hitlerjugend), destacavam-se por um guarda-roupa e corte de cabelo fora do habitual e conviviam em pontos de encontro secretos, longe da multidão e da propaganda do regime. Swing Heil! era a saudação utilizada. Sem motivação política, inconscientemente passaram a constituir um movimento de resistência.

Tal como outros movimentos, os Swing Kids foram denunciados à Gestapo que rapidamente se encarregou de dissolver os encontros. Muitos dos jovens foram deportados para campos de concentração.

Os Swing Kids merecem, sem dúvida alguma, a mesma projecção e notoriedade de outras vítimas do regime. À excepção de alguma literatura existente e de um filme de 1993, realizado por Thomas Carter (ver imagem), que evocou este movimento, os jovens permanecem em esquecimento. Infelizmente.

Lisboa, "Western Europe’s fastest-rising cultural center"


O New York Times de hoje, 13 de Julho, e a Monocle de Julho/Agosto fazem manchetes similares: Lisboa está a ganhar um protagonismo ímpar na dimensão cultural.

Referenciando ou descrevendo exemplos no campo das artes, da música electrónica, do teatro, da dança, de conferências de filosofia, de documentários, do colecção Berardo, da moda, do jazz, o artigo do NYT celebra "Western Europe’s fastest-rising cultural center". A análise prospectiva também é promissora: a abertura futura do MuDe, os projectos arquitectónicos de Norman Foster e Jean Nouvel (será desta que Lisboa ganha um skyline?), as edições da Moda Lisboa, o ExperimentaDesign. Fiquei curioso com algumas das referências (Storytailors?), hei-de investigar. Outras referências foram mais "tiro na água", o que nos deixa algumas pérolas para locais.

Em simultâneo, a indefinível e incontornável Monocle apresenta este mês a sua selecção 2008 das 20 melhores cidades para viver; este ano (o segundo), apresenta as cinco seguintes: Lisboa ocupa a 24ª posição, sendo destacada como "Iberian cultural hub", o que é muito impressionante se tivermos em conta os Paseo de Recoletos e del Prado... Merecem destaque a chegada a Lisboa pela velha ponte sobre o Tejo, a calçada portuguesa, a cultura do café e a modéstia dos habitantes, a par dos projectos arquitectónicos de Santos e dos museus dedicados às artes asiáticas. Razões para não estar no top 20 das cidades mais "vivíveis"? A educação, o sistema de saúde e as limitações da rede de metro. O artigo online está reservado a assinantes em http://www.monocle.com/, mas até em Sydney e Melbourne que são geograficamente longe de tudo se consegue encontrar o latest issue - airfreight.
Excelente!

Junqueiro: Quantos...

Quantos astros tem o céu?

Quantas ondas tem o mar?

Quantos mares no meu peito!...

Quantos céus no teu olhar!


Guerra Junqueiro

(In: Guerra Junqueiro,Obras, Porto: Lello & Irmão, 1974, p. 810)

Mascagni: Intermezzo (cavalleria rusticana)

Quando eu morrer quero que escutem este Intermezzo, composto por Pietro Mascagni, para a ópera Cavalleria rusticana

From: © Cltn55, YouTube

Festival Música Portuguesa, Hoje

Vádios: Camané+Sasseti+Laginha

Está a decorrer no CCB (Lisboa, Belém), desde o dia 11, acabando hoje, o Festival denominado Música Portuguesa, Hoje. Felizmente cheguei a Lisboa a tempo de me deliciar, em conjunto com M., com três "Vádios" e um convidado, que dispensam de apresentação: Camané (voz); Bernardo Sasseti e Mário Laginha (piano); Carlos Bica (contrabaixo). O espectáculo foi criado especificamente para este festival. Bernardo Sasseti e Mário Laginha vibravam ao conseguir tirar o som específico apropriado a cada um dos fados. Na verdade por vezes pareciam que malhavam uma guitarra nas teclas dos pianos. O fado renasce com novos sons.

sábado, 12 de julho de 2008

MUITO BARULHO POR NADA


Sigh no more, ladies, sigh no more,
men were deceivers ever,
one foot in sea and one on shore,
to one thing constant never,
then sigh not so, but let them go,
and be you blithe and bonny,
converting all your sounds of woe
into Hey nonny, nonny.

William Shakespeare, Much ado about nothing


Foto do belíssimo filme Much ado about nothing de 1993, realizado por Kenneth Branagh; com Kenneth Branagh, Emma Thompson, Denzel Washington, Keanu Reeves, Robert Sean Leonard, Kate Beckinsale, Richard Briers e Michael Keaton, entre outros;
Um dos mais belos filmes de toda a história do cinema (a meu ver); teve pouca projecção em Portugal - muito lamentavelmente!

DECAPITAR HITLER


A inauguração da dependência do Madame Tussaud londrino em Berlim, no passado dia 5 de Julho, foi noticiada em todo o mundo com a devida atenção. A capital alemã que já dispunha de uma rica e diversificada oferta de museus, passa a ter mais uma atracção na belíssima avenida Unter den Linden, a pouca distância do Reichstag e da Porta de Brandenburgo.
Do conhecimento geral será também o incidente registado no dia de abertura. A decapitação da figura de Hitler por um ex-polícia de 41 anos que, segundo as últimas notícias, terá cometido este crime por vários motivos, entre eles a perda de uma aposta. A réplica do Führer que representa um investimento de 200.000 € foi destruída "com muita satisfacção", assim afirma Frank L., já que a figura do ex-chanceler Willy Brandt, exilado durante o regime nazi, se encontrava vis-à-vis da de Hitler e "assistiu", assim, em pleno à execução do seu inimigo.
Não se trata, portanto, de nenhuma novidade.

Interessante é a abordagem da imprensa alemã. A título de exemplo, refira-se um comentário do jornalista Peter Kümmel na edição do Die Zeit de 10 de Julho. Título do artigo: "Decapitar Hitler - o longo caminho da resistência alemã ainda não acabou". Aqui uma breve síntese:

A resistência contra Hitler está no bom caminho. Muitos alemães aderiram já na década de 50. Ainda no ano passado, o realizador Florian Henckel von Donnersmarck, premiado em 2007 com o óscar para melhor filme estrangeiro com a película "As vidas dos outros", anunciara ao povo alemão que Tom Cruise representará o Conde von Stauffenberg e, com a aura do seu estrelato, contribuirá muito mais para a imagem da Alemanha do que a organização de dez campeonatos mundiais de futebol!

O ex-polícia Frank L. escreveu mais um capítulo na história da resistência o que equivale, no mínimo, aos oitavos-de-final de um campeonato. Escolheu o caminho certo de resisitir. Aliás, esta oportunidade deveria estar ao alcance de todos os alemães: a sós com o tirano, saudá-lo com Nie wieder Krieg (guerra nunca mais) e decapitá-lo de seguida.
Pois a essência da arte das figuras de cera, bem como de toda a investigação na história da humanidade, consiste na vitória simbólica dos pequenos sobre os grandes maus da fita: a própria Madame Tussaud iniciou a sua carreira com máscaras das vítimas da Revolução Francesa (Luís XVI, Marie Antoinette ou Danton), proporcionando aos franceses a sensação de ter sobrevivido àqueles que os tinham dominado.
Frank L. sentiu a mesma superioridade.

No entanto, o sentimento foi de pouca dura. O doente Hitler foi, por via aérea, enviado para a Inglaterra (!) com máxima urgência, como se de um importante paciente se tratasse. Está a ser recuperado nos estúdios do Madame Tussaud em Londres para rapidamente poder voltar a Berlim.

Os estrangeiros não suportam os alemães, pelo menos, sem Hitler, assim conclui Peter Kümmel.

A música em comunhão

http://br.youtube.com/watch?v=LX1fiE0U1qA

- Dedicado ao Tozé Simplício que ontem fez anos

Sugestão para hoje

Orquestra Metropolitana de Lisboa no Grande Auditório do C.C.B., pelas 19h, com o seguinte programa:

- Abertura A Rainha Louca, de Alexandre Delgado
- Variações em Oiro e Azul, de Fernando Lapa
- Música Praxitélica, de Eurico Carrapatoso
- Sinfonietta, de Fernando Lopes-Graça

Um grande pintor do século XX







Amedeo Modigliani, nasceu em Livorno, Itália, em 12 de Julho de 1884, de uma família da burguesia judaica. Pintor, dos mais importantes do século XX, e também escultor nos primeiros anos da sua vida, foi em Paris que se impôs, com o apoio de vários patronos e admiradores. Uma da suas primeiras exposições esteve aberta apenas um dia, pelo escândalo causado pelos seus nus femininos.Foi, sobretudo, um retratista. Como escultor a sua obra parece ter-se inspirado na escultura africana.

Morreu em 24 de Janeiro de 1920, pobre, de tuberculose, que contraíra na juventude. A sua amante, Jeanne Hébuterne, mãe da sua única filha, suicidou-se no dia seguinte, sendo o enterro de ambos acompanhado por uma multidão emocionada. Jaz no Pére Lachaise, em Paris.

Signo Caranguejo: Phil Jiménez - artista de BD


Phil Jiménez é uma das estrelas actuais da BD norte-americana; nascido a 12 de Julho de 1970, é provavelmente mais conhecido pelo seu trabalho em "Wonder Woman / Mulher Maravilha" (2000-2003), "Infinite Crisis" (2005-2006) e "New X-Men", com Grant Morrison. Está actualmente encarregue de "The Amazing Spider-Man", um dos títulos emblemáticos da Marvel.


Wonder Woman, DC Comics, arte de Phil Jiménez

Tempest, DC Comics, arte de Phil Jiménez

Grandes filmes (esquecidos?): 12 - Julius Caesar


Primeiro, uma nota não cinematográfica. Júlio César, líder militar, político e ditador vitalício de Roma, nasceu (possivelmente) a 12 de Julho de 100 A.C. e encontrou o seu destino final nos idos de Março (dia 15 de Março de 44 A.C.). Conquistou a Gália (menos uma pequena aldeia que resistiu ainda e sempre ao invasor) e atravessou o Rubicão; foi provavelmente o maior obreiro do Império Romano.

Em 1953, Joseph L. Mankiewicz adaptou a obra de Shakespeare, "Julius Caesar", peça que descreve os últimos dias de César. A MGM não se poupou a esforços: O elenco era um "who's who" de Hollywood: Marlon Brando interpretava Marco António; James Mason fazia o papel do "et tu, Brutus...?"; John Gielgud era Cássio; César era interpretado por Louis Calhern; Greer Garson era Calpúrnia; Deborah Kerr era Pontia; e Edmond O'Brien era Casca.

O filme, fiel à peça, narra o desenvolvimento da conspiração contra César, o seu assassinato no Senado e os dias subsequentes. O personagem central é Brutus, que debate furiosamente os ditames (e contradições) da lealdade e do dever para com a Pátria (que por sua vez são matizados em tons de cinzento). Os movimentos de manipulação evocam outras emoções, nomeadamente a ambição e a inveja, que são empregues para envenenar (ou acinzentar) o espírito dos próximos de César. No entanto, é Marco António que conquista o filme no seu discurso aos romanos, da escadaria do Senado. É um momento arrepiante.

"Julius Caesar" foi nomeado para cinco Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme, Melhor Actor (Brando) e Melhor Música (de Miklós Rózsa, o compositor de "Spellbound"), tendo ganho Direcção Artística. Ganhou o BAFTA de Melhor Actor Britânico para Gielgud e de Melhor Actor Estrangeiro para Brando; James Mason ganhou o prémio para Melhor Actor do National Board of Review (que também concedeu o título de Melhor Filme).

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O que estou a ler

"(...) O século XVIII viu assim nascer, por volta de 1750, o papel descartável para o asseio, os penicos começarem a ser esvaziados diariamente e, desde 1730, novos hábitos de vestir, especialmente como prática urbana e da classe média. Alivia-se o peso das roupas, usando tecidos como musseline e algodão, simplificam-se os modelos masculino e feminino, de modo que o corpo, livre para respirar, ficava saudável pela capacidade de dispersar os vapores nocivos.
Os banhos, após terem sido abandonados na Idade Média, voltaram à moda e depois deles, as novas fragrâncias, os perfumes, responsáveis por disfarçar o cheiro dos vapores nocivos.
Também os centros urbanos, uma vez que a cidade tem por modelo o corpo, começam a promover novas práticas de limpeza, drenando buracos e depressões alagadas, cheias de urina e fezes, para esgotos subterrâneos. (...) "

Breve história do corpo e de seus monstros , Ieda Tucherman, 2ªed, Vega, 2004, p.81
Muito interessante ver que o tomamos por garantido, básico, primário, no nosso quotidiano, é relativamente recente , tanto no que respeita à higiene pessoal como à higiene urbana...

Sobre os escritores e as academias

Como é sabido, a maior glória para um autor francófono é a eleição para a Academia Francesa, ser um dos 40 Imortais , pois é assim que são conhecidos os eleitos que ocupam tais famosos fauteuils .
Deparei-me recentemente com a carta de candidatura, formalidade obrigatória, escrita por Balzac quando este se propôs ocupar o fauteuil de Joseph Michaud :

Paris, le 5 novembre 1839

Monsieur le Secrétaire perpétuel,

J'ai l'honneur de vous prier de m'inscrire sur la liste de candidats à la place vacante actuellement à l' Académie française. Les titres que je me crois à briguer les suffrages de l'Académie sont : Le Médecin de campagne, Le Lys dans la vallée, Eugénie Grandet, La recherche de l'absolu, Le livre mystique et La peau de chagrin. Ces ouvrages ne sont que des fragments de l' histoire en action des moeurs françaises au XIX siécle, entreprise à laquelle je me suis voué depuis quinze années et qui veut encore bien du travail pour être achevée.
Dites à L'Académie, monsieur le Secrétaire, qu'à mes yeux mon principal titre est la patiente et le courage d' une vie entièrement consacrée aux lettres, et veuillez me faire l' honneur d' agréer les sentiments d' estime élevée avec lesquels je suis
votre très humble et très obéissant serviteur

Honoré de Balzac


A 20 de Fevereiro de 1840, a Academia elegeu Pierre Flourens para o dito lugar vago. Entretanto, Balzac tinha retirado a sua candidatura porque não queria concorrer contra Victor Hugo, que era também ele candidato.
Alguém conhece ou leu Pierre Flourens ? Eu não. Bem sei que hoje provavelmente também pouco já se lê Victor Hugo ou Balzac, mas a verdade é que foram gigantes durante o século XIX e parte do XX.
Infelizmente, não estamos perante um único grosseiro erro nos anais das academias, francesas ou outras, mas sim perante um dos muitos episódios do género.

Grandes filmes (esquecidos?): 11 - The Women


"The Women" é um filme de 1939, o Annus Mirabilis de Hollywood.

Realizado por George Cukor, é interpretado por mais de 100 actrizes com falas... e nenhum actor! O mote, apropriadamente, é "it's all about men!". Na genética da cultura pop, estará porventura como antepassado de "Sex and the City", sendo que aborda as rivalidades (mais) e amizades (menos) entre várias mulheres e as suas aventuras e desventuras, desde os arranha-céus de uma New York Art Deco repleta de glamour à la Cedric Gibbons até às viagens para Reno para os divórcios. As personagens centrais são duas rivais: a cabeça de cartaz é a #1 da MGM da altura, Norma Shearer (a mulher casada), seguida de nomes sonantes como Joan Crawford (a amante do marido), Joan Fontaine, Rosalind Russell, Paulette Goddard, Lucile Watson, Marjorie Main, Butterfly McQueen, Hedda Hopper...

Um alegado sucesso de bilheteira e de crítica, está a ser refeito com Meg Ryan, Bette Midler, Carrie Fisher, Annette Bening, Eva Mendes, Debra Messing, Jada Pinkett Smith e Candice Bergen, com data prevista de estreia nos EUA para 12 de Setembro de 2008.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

CHARADE de STANLEY DONEN

A Cinemateca parte para férias em Agosto. Merecidamente.
Como oferta de despedida, está a proporcionar ao seu público o belíssimo ciclo “Divas às Matinés” durante este mês. Entre as actrizes escolhidas, encontram-se Greta Garbo, Ingrid Bergman, Elizabeth Taylor e Audrey Hepburn. Amanhã, dia 11 de Julho, às 15.30h, Mrs Audrey Hepburn e Mr Cary Grant entram em cena no comedy-thriller "Charade” de 1963, realizado por Stanley Donen.

Regina Lampert (Audrey Hepburn), ou simplesmente Reggie, é uma senhora americana elegante e financeiramente bem situada. Regressa de férias de ski nos Alpes suíços, e as surpresas não se fazem esperar: Reggie encontra a sua casa em Paris em estado de sítio e encontra o seu ex-marido Charles na morgue. Perturbada (mas não muito, pois trata-se de um ex-marido misterioso e pouco acessível enquanto vivo), aceita de bom grado a ajuda de Peter Joshua (Cary Grant) com quem se cruzara poucos dias antes na Suíça. Citada para apresentar-se na Embaixada dos Estados Unidos no dia seguinte, conhece Hamilton Bartholomew (Walter Matthau) e vem a saber que Charles terá retido ouro no valor de 250.000 dólares a três amigos cúmplices com quem terá roubado esta fortuna durante a Segunda Guerra Mundial. Mas com o desaparecimento súbito de Charles, desaparece também o paradeiro do dinheiro.
Pouco tempo depois, Reggie tem o prazer de conhecer pessoalmente os três indivíduos: o pseudo-cowboy Tex (James Coburn), o maneta Scobie (George Kennedy) e o tímido Gideon (Ned Glass). Os três, unidos pela mesma causa, suspeitam que Reggie tenha a quantia algures escondida. A protagonista escapa às tentativas de homicídio, graças a Peter Joshua. Contudo, à medida que Tex, Scobie e Gideon são misteriosa e mortalmente afastados do circuito, Reggie começa a duvidar da identidade e idoneidade de Peter. Descobre então que Charles trocou o ouro por um selo muito valioso. A quem entregar o selo? A Peter ou a Hamilton?
Reggie é perseguida por Peter numa corrida verdadeiramente impressionante pelas estações do metro de Paris até chegar ao Palais Royal, onde a perseguição continua, com Hamilton à espera dos dois. A Comédie Française serve de cenário final para desvendar o mau da fita que acaba por morrer de forma literalmente teatral…

Charade foi naturalmente um sucesso de bilheteira. Naturalmente, por vários motivos.
Stanley Donen recorreu à técnica de Hitchcock, inspirando-se concretamente em North by Northwest (1959). Os admiradores incondicionais de Hitchcock dirão que Charade não chega aos calcanhares do velho mestre… Talvez.
No entanto, a película prima pela alternância das situações: passagens pouco estéticas, próprias de um crime (?), são imediatamente seguidas de cenas encantadoras e repletas de humor, para dar novamente lugar a ocorrências da categoria anterior. Momentos alegres convertem-se em suspense e vice-versa. A montagem, a dramaturgia e a banda sonora submetem-se a este princípio.

O êxito de Charade deve-se ainda a outro aspecto: o filme é resultado de um excelente trabalho em equipa.
Grant e Hepburn, símbolos de uma elegância e de um género de cinema lamentavelmente já muito longínquos, tiveram finalmente a oportunidade de contracenar juntos, após as tentativas frustradas de Sabrina e Love in the afternoon, em que o leading man, inicialmente destinado a Grant, acabara por ser atribuído a Bogart/Holden e Gary Cooper respectivamente. A colaboração entre Grant e Hepburn em Charade foi de óptima disposição e de amizade. “All I want for Christmas was immediately to shoot another movie with Audrey Hepburn”, palavras de Grant que dizem tudo.

A ajudar ao team work, estiveram Hubert de Givenchy, amigo e couturier predilecto de Hepburn, e Henri Mancini, responsável pela banda sonora desta película, bem como de filmes anteriores (e posteriores) com Hepburn: Moon River de Breakfast at Tiffany’s de 1961 foi, sem dúvida alguma, composto especialmente para Audrey. Audrey e mais ninguém seria capaz de expressar o sentimento à volta do nosso amigo Huckleberry …

Última nota: Stanley Donen teve o privilégio de testemunhar uma das últimas aparições em público de Hepburn, durante o festival de cinema de Munique em 1992. Interrogada por uma jornalista sobre se havia algo na sua vida que lamentava não ter feito, a actriz respondeu: "Nothing. Absolutely nothing. Except maybe the fact that, instead of having done only three films with Donen, I would like to have done six.”
Donen, por sua vez, retorquiu: “It’s not too late…”.

Infelizmente, seria demasiado tarde. Audrey Hepburn viria a falecer poucos meses depois.

Muito obrigado!

Muito, muito obrigado: por toda a atenção, pelos belos textos e pelas lindíssimas árias escolhidas!

Cabe-me ainda agradecer ao meu fantástico amigo Luís Barata a oportunidade de poder contribuir para este blogue. É uma grande honra e satisfacção poder integrar esta magnífica equipa!


Filipe

Para o Filipe, mais música com o Philippe

Philippe Jaroussky - Haendel

São só mais um

Dia de Anos

Com que então, caiu na asneira
De fazer, na quinta-feira,
****** e **** annos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas…fazê-los…não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o anno passado…
Agora, o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo! Coitado!
Não faça tal…porque os annos…
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa, que, em summa,
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho,
Mas…annos…! Não caia nessa!
Olhe…que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois, se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los…queira ou não queira!

João de Deus
[Campo de flores]

Vieira da Silva , Arpad e Cesariny no Museu da Electricidade


Uma bebida para o Filipe Nicolau

Já que ficamos a saber que o nosso amigo e colaborador Filipe Nicolau festeja o seu aniversário aqui fica a saudação mais famosa de todo o mundo (para mim...)
from: © ErinVouts, YouTube

Callas & Di Stefano: Traviata, Un di felice... (1955)


from: © DaveDeCathay, YouTube

Puccini para um dia especial


http://www.youtube.com/watch?v=n6kTmWYIAcw

- Dedicado ao Filipe Vieira Nicolau neste dia do seu aniversário

Callas: uma traviata (1953)

from: ©zurrius, Youtube

1871 - Marcel Proust

- Marcel Proust em 1900

Marcel Proust nasceu no dia 10 de Julho de 1871 e faleceu no dia 18 de Novembro de 1922.
Aqui fica um pequeno excerto do seu primeiro livro Les plaisirs et les jours (1896) , mais propriamente da comovente dedicatória a Willie Heath, amigo de Proust falecido em 1893 :

"(...) Je vous donne ce livre. Vous êtes, hélas! le seul des mes amis dont il n'ait pas à redouter les critiques. J'ai au moins la confiance que nulle part la liberté du ton ne vous y eût choqué. Je n'ai jamais peint l'immoralité que chez des êtres d'une conscience délicate. Aussi , trop faibles pour vouloir le bien, trop nobles pour jouir pleinement dans le mal, ne connaissant que la souffrance, je n'ai pu parler d'eux qu' avec une pitié trop sincère pour qu'elle ne purifiât pas ces petits essais. (...) "

Callas - Sonhar com o que não volta

No cinquentenário da Traviata no São Carlos e quando ainda passam trinta anos sobre o adormecimento da sua voz (16 de Setembro de 1977)... Uma oportunidade para viver ou re-viver momentos de glória da Ópera em Portugal.
Inauguração dia 11 de Julho, Museu da Electricidade, 21.30. Infelizmente não estou em Lisboa, vou só sonhar.

O Chrysler Building passa a pertencer a Abu Dhabi


O Chrysler Building passou a ser detido em 75% pelo braço de investimento do Governo de Abu Dhabi. Um dos edifícios Art Deco mais emblemáticos de Nova Iorque, foi acabado de construir em 1930, sendo na altura o edifício mais alto do mundo (no ano seguinte o Empire State Building destronou-o).

O ano do urso?

O índice Standard & Poor's 500 entrou ontem em "bear market" pela primeira vez desde 2002, o que significa uma queda de 20% ou mais relativamente ao pico mais recente. Considerado um dos três principais índices da bolsa norte-americana, é o último a entrar em território de "bear": o Dow-Jones e o Nasdaq já tinham passado a fronteira este ano. Em média, um mercado "bear" tem durado pouco mais de um ano, tendo o pior sido durante a Grande Depressão, que durou mais de dois anos e em que o DJ perdeu 86% do seu valor (em média, a perda tem sido de 30%).

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Jorge de Sena: Um regresso

Convite



A Fundação José Saramago tem o gosto de a (o) convidar para a sessão de homenagem a Jorge de Sena, que decorrerá no Teatro Nacional de São Carlos, no dia 10 de Julho de 2008, pelas 21.30 Horas.

Entrada condicionada pela lotação da sala

Programa

· Leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho

· Recital de piano por António Rosado

· Leitura de depoimento de Mécia de Sena

· Intervenções de Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Jorge Fazenda Lourenço,

António Mega Ferreira e José Saramago

· Encerrará a sessão o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro



Com a colaboração do:



Apoio:





tempo de sol

o peixe-espada
desembaínhado,
na areia, brilha.


Luís Pignatelli

(In: Galáxias, Lisboa, Moraes, 1973, p. 40)

frases sem nome

As quatro coisas que não voltam para trás:

A pedra atirada, a palavra dita,

a ocasião perdida e o tempo passado
.

Olhos azuis

Para quem gostar de olhos azuis!

Tão longe

Desta memória eu quereria dizer...
Tão apagada agora... quase nada resta -
porque ficou tão longe, nos meus anos primeiros de ser humano.

Uma pele como de jasmim... Na noite
de Agosto... Era Agosto?... Mal relembro
os seus olhos... Eram, suponho, azuis...
Ah sim, azuis. Azuis como safira.

[1914]
Constantino Cavafy [Konstantinos Kavafis]

(90 e mais quatro poemas. Trad. de Jorge de Sena. 3.ª ed. Porto: Asa, 2003)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Elegias em Mitilene - 1

O PASSADO RETIDO


O leito deixarei como o deixou, desfeito e alterado,
revoltos os lençóis, para que a forma do seu corpo fique
ainda gravada junto ao meu.

Até amanhã não irei banhar-me, não me hei-de
vestir nem no cabelo hei-de tocar com medo que se
sumam as carícias.

Hoje de manhã não comerei, nem esta noite, e
sobre meus lábios não porei carmim nem pó, para que
seu beijo em mim possa perdurar.

Deixarei fechados os postigos e não abrirei a porta
a ninguém, com medo que a lembrança que ficou se não
desvaneça com a brisa.


- Pierre Louys, AS CANÇÕES DE BILITIS , trad.port. Júlio Henriques, Fora do Texto, 1990,76

Debate - O estado da nação

Vítor Bento, Maria Filomena Mónica e Paulo Teixeira Pinto debatem o estado da nação, numa organização conjunta da SEDES e da Livraria Byblos.

O debate será moderado por Luís Campos e Cunha, actual presidente da SEDES.

Livraria Byblos, R. Carlos Alberto da Mota Pinto, às 21.30

Não tentar

"I hear from people who want to do something with their lives. They want to be an artist. And then they chicken out. They listen to the tyranny of reasonable voices, and those want only to help to protect them from failure, and therefore do not try, which is the worst possible kind of failure."

J. Michael Straczynski, entrevista a Comic Book Resources, 1 de Julho de 2008