LETRA PARA UM FADO
Não há flor de verde pino que responda
a quem, como eu, dorme singela.
O meu amigo anda no mar e eu já fui onda,
espraiada a seu gosto, alteada em procela!
Jardim da Sereia, Coimbra
++++++++++++Soubera eu do meu amigo
++++++++++++E não estivera só comigo!
Pesa-me todo este corpo, que é o meu
represado como água sem destino.
Anda no mar o meu amigo, ó verde pino,
ó verde mastro da terra até ao céu!
++++++++++++Soubera eu do meu amigo
++++++++++++E não estivera só comigo!
++
Que onda redonda eu era para ele,
quando, fagueiro, desejo nos levava,
ao lume de água e à flor da pele,
pelo tempo que mais tempo desdobrava!
++++++++++++Soubera eu do meu amigo
++++++++++++E não estivera só comigo!
E como, da perdida donzelia,
arranquei para aquela tempestade
onde se diz, duma vez, toda a verdade,
que é, a um tempo, verdade e fantasia!
++++++++++++Soubera eu do meu amigo
++++++++++++E não estivera só comigo!
Quem sou agora, ó verde pino, ó verde mastro
aqui prantado e sem poderes largar?
Na mágoa destes olhos, só um rastro
Da água verdadeira de outro mar...
*************Soubera eu do meu amigo
*************E não estivera só comigo!
Alexandre O' Neill,
Anos 70, poemas dispersos. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009, p. 47-48