Prosimetron

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

1.ª Feira do Pastel de Chaves

«Nesta edição, pretende-se dar especial relevo ao Pastel de Chaves, cuja história remonta a 1862, quando uma vendedora, cuja origem se desconhece, percorria a cidade com uma cesta contendo uns pastéis de forma estranha e cuja quantidade não era suficiente para saciar os flavienses. Com tal escassez, e para satisfação da gula transmontana, a fundadora da Casa do Antigo Pasteleiro terá oferecido uma libra pela receita de tão gostosa iguaria. Perdurando na memória e no paladar, os pastéis acabaram por conquistar um lugar de destaque na gastronomia Nacional. Uma aposta que valeu o epíteto de “melhores pastéis folhados de Portugal”.»

O Pastel de Chaves é feito de uma finíssima massa folhada, recheada com picado de carne e chouriça transmontanas.

«Chaves tem porém uma celebridade mais modesta, mas que conta, a quem tem apetite: os pastéis de Chaves... Há uma geografia da Europa, e em França, e agora em Portugal, sou-lhe muito sensível... Não sei porque se há-de ter vergonha de falar em coisas de gosto, de bom gosto, que não sejam de olhos, ouvido, olfato, quando muito... Porque não, do paladar? O 'gosto' deu todas as artes. O 'sabor' deu todas as ciências... porque, pois, a hipocrisia de não falar do que bem sabe, do que tem bom gosto? O presunto de Chaves é tão famoso como o de Lamego. Os pastéis de carne não têm aqui rivais. Um gaspacho ou um cozido, ou os dois, em Trás-os-Montes, vencem a serra. Um folar ou uma tabafeia, de Bragança, nutrem por uma semana. Um leitão ou cabrito daqui, assados ao espeto, são gloriosos. Uma açorda, comida em tarro de cortiça, por manhã fria, num campo do Alentejo, não se esquece mais... Ainda a canja aristocrática, com as grandes moedas de oiro, de enxúndia, a sobrenadarem, comeria a vida inteira, para contradizer a anedota picaresca de el-rei ao confessor: 'nem sempre galinha, nem sempre rainha'... Tenho o estômago fiel e grato. Sarapatel ou cabidela têm cabimento. Na geografia gastronómica de Portugal sou eclético e gosto de tudo. (Aliás estou preparado, por nascimento na Baía,– a mais portuguesa das terras do Brasil- filha mais velha e mais amorosa... – onde se come mais, e melhor, que em todo o resto do país – come-se intelectualmente, come-se pecadoramente...)» 
Afrânio Peixoto
In: Viagens na minha terra: Portugal. Lisboa; Porto: Livr. Lello & Irmão, 1938, vol. 1, p. 163, 165

Havemos de voltar a este livro de Afrânio Peixoto.

2 comentários:

Miss Tolstoi disse...

Nunca comi, mas vinha a calhar para o jantar.

MR disse...

:-)