Prosimetron

Prosimetron

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Agamben - 3


Ideia da linguagem I


I. Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio. Enquanto que o carácter deixa no rosto as marcas de palavras não ditas, de intenções não realizadas, enquanto que a face do animal parece sempre estar a ponto de proferir palavras, a beleza humana abre o rosto ao silêncio.
Mas o silêncio- aquele que advém daqui- não é uma simples suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, a palavra a tornar-se visível: a ideia da linguagem. Assim, o silêncio do rosto é a verdadeira morada do homem.


II. Só a palavra nos põe em contacto com as coisas mudas. A natureza e os animais são desde logo prisioneiros de uma língua, falam e respondem a signos, mesmo quando se calam; só o homem consegue interromper, na palavra, a língua infinita da natureza e colocar-se por um instante diante das coisas mudas. A rosa informulada, a ideia da rosa, só existe para o homem.


- Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, tradução, prefácio e notas de João Barrento, Cotovia, 1999, p. 112.

A divisa prosimetrónica

E o incipit voltou. Agora acompanhado desta imagem de um dos maiores dramaturgos romanos, e o primeiro nascido em África ( Cartago? Líbia? ), Terêncio, cujas 6 comédias escritas durante o período republicano foram representadas durante séculos e sobreviveram até aos nossos dias.
A frase escolhida é da segunda comédia terenciana, Heautontiromeunos ( O homem que se puniu a si mesmo ), e pode ser traduzida como: Sou homem, nada do que é humano me é alheio.
Esta frase, já aparecida por mais do que uma vez nestas páginas, parece-nos uma boa divisa para complementar o título grego do próprio blogue. A cultura greco-latina, sem olvidar os contributos provindos de Jerusalém, é realmente a base da nossa civilização e nunca é demais lembrá-lo nestes dias em que tantas vezes se louva apenas o contemporâneo.

«Da árvore à estátua», com Regina Guimarães - A Paleta e o Mundo - 27 de Fevereiro, 15h

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A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa nos séculos XVII-XVIII (2)

Natureza e Artifícios
Samuel van Hooggstraten, Tromp l'oeil Natureza-morta, 1664

Óleo sobre tela, 46 x 58 cm, Dordrechts Museum, Dordrecht
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Natureza e jogos de Luz
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Sébastien Stoskopff, Natureza-morta com copos num cesto!

Óleo sobre tela, 52 x 63 cm, Strasbourg Musée de l'Ouevre Notre-Dame, França

FIGO MADURO

Como ontem Luís Figo dizia aos jornalistas, assiste ao ex-futebolista o direito de "vender a sua imagem", não deixando no entanto de ser extraordinário que tanto o presidente do Conselho de Administração da Taguspark, Carlos Matos Ferreira, como o presidente do respectivo Conselho Fiscal, Rui Machete, desconhecessem tal contrato que ainda por cima envolve somas consideráveis na ordem das centenas de milhares de euros.
É muito estranho na vida de qualquer empresa, e o mistério adensa-se naturalmente com a participação de Figo na campanha eleitoral ao lado de Sócrates.
Será uma cabala pedir que tudo isto seja bem explicado? Não são tanto os dinheiros da Taguspark que me preocupam mas sim se foram dadas contrapartidas a "apoiantes de luxo" em campanhas eleitorais.

1964 : The Beach Boys

A 20 de Fevereiro de 1964 foi gravada esta Don't worry baby pelos californianos The Beach Boys.



Novidades - 116 : Da silhueta

A história da moda é também a história da transformação da silhueta- é esta a tese de Catherine Ormen.

Comment regarder la mode. Histoire de la silhouette, Catherine Ormen, Hazan, 2010.

Evocação de um Escritor



"O espectáculo da injustiça acabrunha-me, mas isso deve-se provavelmente ao facto de ela despertar em mim a consciência dos actos de injustiça de que sou capaz".


Georges Bernanos

(20.2.1888 -5.7.1948)

A.S.: Escolhas Pessoais XVIII

Florilégio Japonês


Retrato de M. Bashô

Em meados dos anos 60, e devido à minha curiosidade em conhecer poesia de outros países, para lá da Europa, fui, um dia, à Embaixada do Japão, em Lisboa, para saber se tinham biblioteca, para consulta. Fui gentilmente recebido. E, num prédio de esquina, próximo do Parque Eduardo VII, levaram-me até uma saleta onde, num armário envidraçado, se alinhavam, em boa ordem, cerca de uma centena de volumes. Consultados, por alto, dei-me conta que cerca de 20 eram de poesia japonesa traduzida para inglês e, destes, a maior parte eram de “hai-ku” (plural de “hai-kai”). Os pequenos tercetos de 17 sílabas (5-7-5) estavam quase sempre agrupados pelas estações do ano (Primavera, Verão…). Fui-os requisitando, gradualmente, e lendo com gosto. E até traduzi alguns “hai-ku” de que gostei mais.
Aprendi, entretanto, duas coisas importantes: que Matsuo Bashô (1644-1694) era o poeta japonês mais considerado; e que o “hai-kai” teria nascido de uma “dissidência” literária, em relação à poesia tradicional, por volta do séc. XV, por parte de dois poetas também importantes – Arakida Moritaka (1473-1549) e Yamazaki Sokán (1465-1553). O “hai-kai” é um poema minimalista muito insinuante e de fácil contágio (A. Machado, J. R. Jimenez, Borges, E. de Andrade…), embora de difícil execução. É como que um “flash” de uma máquina fotográfica. Um momento visual da Natureza (normalmente) que se cruza com o pensamento ou sentimento do poeta, numa síntese mimética e perfeita. Depois, desaparece, ficando transformado e condensado em 17 sílabas de um terceto.

Comecemos, então, por Bashô.

1. Outono – até as aves
e as nuvens parecem
envelhecidas.

2. Amigos separam-se
para sempre – gansos bravos
pelo céu, perdidos.

3. Do coração doce
da peónia sai voando
uma abelha ébria.

4. Narciso e biombo:
um ao outro se iluminam,
branco no branco.


Onda gigante de Hokusai

Seguidamente de Matsunaga Teitoku (1571-1653):

5. Hora do tigre:
névoa de primavera
também raiada.

6. Intenso flui
o mar bravo contra a ilha:
rio de estrelas.

Finalmente de Kobayashi Issa (1763-1827):

7. Para o mosquito
também a noite é longa,
longa e solitária.

8. A minha aldeia:
regresso, encontro, toco
- tudo se muda em sarça ardente.

As versões acima transcritas, previno, são feitas em terceira mão. Grande parte delas cotejadas, duplamente, via Octávio Paz (“Sendas de Oku”) e Nobayuku Yuasa (“The Narrow Road to the deep North…”). E, nalguns casos, também comparadas com as versões de Lucien Stryk. Tentei sempre, ao traduzir, seguir a ideia geminada do poema. Evitei os “hai-ku” em que havia divergências acentuadas. Porque, muitas vezes, na tradução de poesia cada um também se lê a si mesmo. Não tenho a certeza se o consegui evitar…

P.S.: Uma pequena curiosidade. «Bashô» é uma palavra acrescentada, na idade, ao seu próprio nome, pelo Poeta. Acontece que um discípulo lhe ofereceu um tipo de bananeira que Matsuo plantou junto de sua casa. Como gostava muito dessa árvore, acrescentou a palavra ao seu nome, em jeito de apelido.

Post de Alberto Soares

Parabéns, Mike Leigh!


Faz hoje anos.

para C.A. (no interior de uma casa improvável)

Bronzino [Agnolo di Cosimo] (1503-1572)
Retrato de Jovem / "Portrait of a Young Man" (1550-1555)
Óleo sobre Madeira (75 x 57.5 cm)
Londres, The National Gallery (Inv: L40)

Sabendo que um dos seus pintores é Caravaggio não lhe queria dedicar um dos quadros desse autor. Entre três possiveis (daqueles que conheci nos últimos dias) acabei por escolher este, para si.

Louis Kahn

O arquitecto americano Louis I. Kahn nasceu na Estónia, em 20 Fev. 1901, tendo falecido em Nova Iorque em 1984. Nunca vi nenhum edifício deste arquitecto ao vivo, mas gosto imenso da sua arquitectura.


Institute of Public Administration, Ahmedabad, Índia, 1963


Jonas Salk Institute for Biological Studies, 1959-1967
Plaza La Jolla, Califórnia


Exeter Library, 1972
Exeter, New Hampshire, EUA

A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa nos séculos XVII-XVIII

Da Vida e da Morte
x
Pieter Claesz, A vaidade na Natureza-morta e o espinho, 1628

O espinho e o crânio, símbolos da vida e da morte preocupações que gravitam no meio da vaidade protagonizada pelos objectos. O copo símbolo da fragilidade da vida
e a música o prazer de viver (?)
xx
Óleo sobre tábua, 70,5 x 80,5 cm, Rijksmuseum, Amsterdam

Detalhe: a armadura símbolo da vida terrena, a pena o desenho, a arte e a beleza como símbolos da vida intelectual.
x
A paleta com as cores, símbolo da beleza(?) ...



Um dos quadros sobre Natureza- morta em exposição na Gulbenkian.

http://www.museu.gulbenkian.pt/exposicoes.asp?lang=pt

Peixes - 1


Prato com peixes. Campânia, 350-300 a.C.
Londres, Museu Britânico


Prato com peixes, Apúlia, 340-320 a.C.
Londres, Museu Britânico

O signo Peixes, representado neste blogue, começa hoje, ou começou ontem?

Manifesto Futurista!

"Bisogna che il poeta si prodighi, con ardore, sfarzo e munificenza, per aumentare l'entusiastico fervore degli elementi primordiali".
Filippo Tommaso Marinetti

Manifesto del Futurismo, 20 febbraio 1909


MANIFESTO FUTURISTA

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.
3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.
4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com o seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.
(...)

in Lucrécia Ferrara, Arte e Linguagem – Editora perspectiva, 1981 – pag 23.





sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Boa noite!


«George's waltz», composto por Shigeru Umebayashi para o filme Um Homem Singular.
Prometo ficar por aqui.

Vou jantar no Libanês.
Amanhã digo se valeu a pena.

Citações - 66 : O não-dito

(...) a recusa em esclarecer, o aumento da confusão, as contradições não desfeitas, as viravoltas do discurso oficial sobre tal e tal pormenor dos «escândalos», a insistência no silêncio sobre questões decisivas, gerando um mal-estar permanente que vem de um não-dito que, passando a ser o elemento essencial do debate político, levanta mais e mais suspeições sobre a credibilidade das instituições e do primeiro-ministro.
O não-dito alimenta a confusão e envenena a ética política. Produz uma opacidade que recobre e enterra mais profundamente esse não-dito, tornando-o aparentemente cada vez menos dizível. Círculo que nos enreda num clima deletério insustentável. E corrói, como um cancro, a nossa democracia.

- José Gil, O não-dito da suspeita, na Visão.

1910 - 11


Emil Nolde (1867-1956) - Dancing Around the Golden Calf
Óleo sobre tela, 1910
Munique, Bayerische Staatsgemaldesammlungen

Música de Abel Korzeniowski para o filme Um Homem Singular que fui ver ontem. Gostei!

Em Março na Casa da Achada

CASA DA ACHADA-CENTRO MÁRIO DIONÍSIO

Horário de abertura

Segunda-feira, quinta e sexta – das 15h às 20h

Sábado e Domingo – das 11h às 18h

A Zona Pública da Casa da Achada estará encerrada entre 19 e 22 de Março.

MARÇO 2010

CONTINUA A EXPOSIÇÃO

50 anos de pintura e desenho (1943-1993): pinturas e desenhos de Mário Dionísio e de artistas seus amigos que lhe foram oferecidas.

Além de 37 obras de Mário Dionísio, de várias fases, a exposição inclui obras de vários artistas que por eles lhe foram oferecidas e que constam, assim, do seu espólio: Abel Salazar, Álvaro Cunhal, António Cunhal, Avelino Cunhal, Cândido Portinari, Carlos de Oliveira, Carlos Scliar, Germano Santo, José Júlio, Júlio, Júlio Pomar, Júlio Resende, Manuel Filipe, Manuel Ribeiro de Pavia, Maria Helena Vieira da Silva, Raul Perez.

Horário:

Segunda-feira, quinta e sexta – das 15h às 20h

Sábado e Domingo – das 11h às 18h

(encerrada de 19 a 22 de Março)

OFICINA PARA TODAS AS IDADES: 1000 canções em 5 minutos

Oficina orientada por Diana Dionísio e Pedro Rodrigues

Para todos, dos 3 aos 99.

Máximo de participantes: 20

É necessária inscrição.

Entrada livre.

Aos domingos, das 15h30 às 17h30

7, 14 e 28 Março

Música da palavra. As palavras já têm música e pode fazer-se música a partir das palavras. Chegam instrumentos e nascem as primeiras mil canções.

Domingo 7 de Março

A letra na música. A partir de uma música dada, inventamos letras e ficam canções. Fácil?

Domingo 14 de Março

Um poema de Mário Dionísio torna-se uma canção. Difícil?

Domingo 28 de Março


CLUBE DE LEITURA DA ACHADA

Coordenado pela escritora Filomena Marona Beja.

Sábado, 13 de Março às 16h

Aberto a toda a gente, o Clube de Leitura destina-se principalmente à população que mora perto, a crianças não muito pequenas, a estrangeiros com algum conhecimento da língua portuguesa.

CINEMA ÀS SEGUNDAS

Fim do Ciclo FILMES DE QUE MÁRIO DIONÍSIO FALOU

Cada filme, legendado em português, é apresentado e comentado

HIROSHIMA MEU AMOR de Alain Resnais, 1959, 90 min.

La rose et le réséda de André Michel, 1947, 9 min. (a partir de um poema de Aragon)

1 de Março, 21h 30

AS FÉRIAS DO SR. HULOT de Jacques Tati, 1953, 114 min.

Professor Small and Mister Tall de John Hubley e Paul Sommer, 1943, 8 min (desenho animado)

8 de Março, 21h30

LUZES DA RIBALTA de Charles Chaplin, 1952, 137 min.

15 de Março, 21h30

LOS OLVIDADOS de Luís Buñuel, 1950, 85 min.

O cão andaluz de Luís Buñuel, 1928, 16 min

29 de Março, 21h30

O COURAÇO POTEMKIN de Sergei Eisenstein, 1925, 75 min.

JAIME de António Reis, 1974, 35 min.

4 de Abril, 21h30

CICLO A PALETA E O MUNDO

Continuação da leitura integral de A Paleta e o Mundo com projecção dos quadros referidos e comentários: capítulos sobre a pintura no Século XIX («Não vejo o que sejam anjos», «Da bola de bilhar ao baralho de cartas»)

Todas as segundas-feiras às 18h30, excepto 22 de Março

Sessão coordenada por Rui Canário sobre o 6º capítulo da introdução de A Paleta e o Mundo, «Mãos que constroem sonhos» - Arte e Materiais - questões de ontem, questões de hoje.

Sábado, 27 de Março às 15h

SEMINÁRIO «A ECONOMIA ORGANIZADA» com João Bernardo

organizado pela UNIPOP

Entrada livre, mediante inscrição, limitada ao número de lugares disponíveis. Inscrição para: unipopeconomia@gmail.com

Sexta, 5 de Março das 18h30 às 21h e Sábado 6 de Março das 15h às 18h

Em complemento:

Lançamento do livro com textos de Karl Marx, Crítica do Nacionalismo Económico (Edições Antígona).

Sábado, 6 de Março às 18h30

(datas a confirmar pela UNIPOP)


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Leituras no Metro - 1



«R.[ené] Z.[ahnd]: Que pensez-vous de la mondialisation?
«M.[aurice] B.[éjart]: Sur le principe, pourquoi pas? Les habitants de la Terre sont tous pareils... Mais au lieu de favoriser les ressemblances, la mondialisation accentue les différences. S'il faut passer par la mondialisation, je souhaiterais au moins qu'elle rende tout le monde heureux sur le globe! Or, c'est le contraire qui se produit. L'écart se creuse entre les riches et les pauvres. La mondialisation, aujourd'hui, n'est rien d'autre que l'exploitation des pays défavorisés.»
Maurice Béjart - L'esprit danse / entretiens avec René Zahnd. Lausanne: La Bibliothèque des Arts, 2001, p. 179

Domingo Musical

Música ao domingo no Clube Literário do Porto. Uma recomendação para os leitores "tripeiros".

Lá fora - 70 : Gilbert&George em Málaga

Estes Gilbert&George são a dupla artística britânica mais persistente e mais iconoclasta, apesar do ar sério e composto com que são fotografados e se representam a si próprios. A sua nova exposição JACK FREAK PICTURES, 62 obras que põem em questão muito do que é a "ordem social", vai percorrer seis países, Portugal não está incluído para variar, começando o circuito por Espanha, mais propriamente na aprazível cidade de Málaga que não fica assim tão longe...

- JACK FREAK PICTURES, Gilbert&George, Centro de Arte Contemporânea de Málaga, até 9 de Maio.

Ainda a defesa da família


Considero que a família é uma instituição fundamental da sociedade, sendo a sua célula básica. É assim que estamos organizados há milénios e não surgiu até à data modelo melhor do que este fundado numa realidade biológica mas que se não esgota na biologia como todos sabemos.
Tenho o maior, e igual, respeito por todas as famílias: as que nascem do sacramento do matrimónio ou acto equivalente sancionado por uma religião, as que derivam de um contrato civil de casamento ou ainda as que surgem de uma união de facto, hetero ou homo. Têm todas, para mim, a mesma dignidade- férteis ou inferteis, reduzidas ou numerosas, adoptivas ou biológicas.
Feita esta profissão de fé, tenho que dizer o seguinte: nunca a família esteve tão protegida como na época em que vivemos. Basta que comparemos, e todos temos memória que até aí alcança, os mecanismos concedidos directamente pelo Estado e os impostos às entidades empregadoras que existiam há umas décadas atrás com os que actualmente existem para concluirmos que efectivamente não se pode dizer que as famílias estejam ameaçadas.
É certo que os estados ajem no seu próprio interesse- a soberana preocupação é a demografia. É esta a ameaça que paira sobre a Velha Europa, velha também literalmente, e tentando contrariar as terríveis tendências demográficas as famílias são apoiadas. Tanto na escala macro- ao nível da fiscalidade, das prestações sociais, das licenças de maternidade e paternidade etc- como na escala micro- veja-se o exemplo entre nós da crescente quantidade de municípios que oferecem quantias em dinheiro por cada criança nascida.
É certo que há desafios novos que ocupam e preocupam as famílias, desde logo os perigos potenciais derivados deste meio de comunicação em que estamos, mas não me parece sinceramente que as famílias ou a instituição família esteja em perigo.
Questão diferente, entrando aí no domínio da ideologia, é se há modelos de família que estejam ou se sintam, uma coisa é a percepção outra a realidade, ameaçados.
Cada um de nós tem todo o direito de defender o modelo de família que lhe parece mais "certo" e de agir em conformidade - mas então que se diga tal abertamente: defendemos a família cristã, ou a família católica, ou a família tradicional. E que os inimigos, reais ou imaginários, de tal modelo de família sejam claramente identificados.
Não me incomodam as manifestações, são o sal da democracia, mas incomoda-me que a "defesa da família", objectivo muito nobre, sirva de enorme guarda-chuva para outras agendas.

Novidades - 115 : Ser mulher é...

(...) Comme Beauvoir, je considère que ce qui nous unit aux hommes est plus important que ce qui nous sépare. Je suis dans ce féminisme très culturaliste qui est aujourd'hui en guerre avec le féminisme maternaliste, qui me semble marquer un véritable retour en arrière.

Este novo livro da reputada historiadora e filósofa Elizabeth Badinter, que estava por todo o lado em Paris ( o livro, não a senhora ), debruça-se sobre a velha questão que dá parte do título a este post: Ser mulher é o quê? É ser mãe acima de tudo? Não há dúvidas, parece-me, que as últimas décadas viram o "regresso em força" da maternidade como o destino feminino por excelência, e é essa revalorização da maternidade, que vemos nas suas mais variadas facetas- autoficção, publicidade, literatura de ajuda etc- que é interrogado por Badinter. A maternidade esgota o feminino? É a suprema realização da mulher?

- Le conflit, la femme et la mère, Elizabeth Badinter, Flammarion, 256p, €18, Jan.2010

Pregões de Londres - 7


Vendeira de morangos, ca 1790.
Gravura de G. Vendramini, a partir de um desenho de Francis Wheatley. Faz parte da série Cries of London.

Para APS e HMJ

São Paulo pregando em Éfesus (1649)
Eustache le Sueur (1616-1655)
Óleo sobre tela, 100.8 x 84.8 cm
Londres, The National Gallery (Inv.: NG6299)

A destruição de uma verdade por outra verdade... quanto se perdeu!

Para Miss Tolstoi (uma viajante)

Philippe de Champaigne (1602-1674)
Triplo retrato de Richelieu
Óleo sobre tela, 58.4 x 72.4 cm
Londres, The National Gallery

Aqui fica uma lembrança virtual de Londres. Perante este quadro pensei em si!
Ao voltar recebi o que me deixou. Obrigado.

Para Margarida Elias (uma leitora atenta)

"An Allegory of Prudence" / "Allegoria della Prudenza" /
Alegoria da Prudência (c. 1565–1570)
Ticiano(1490?-1576)
Óleo sobre tela, 76.2 x 68.6 cm
Londres, The National Gallery (Inv.: NG6376)

Um auto-retrato de Ticiano (a imagem de velho), do filho (Orazio) e de um jovem primo (Marco Vecelio).

As três idades do ser humano e a cabeça de animal que as simbolizam: o cão, o leão e o lobo.

O quadro tem inscrito o motto: EX PRAETERITO / PRAESENS PRVDENTER AGIT / NI FVTVRA(M) ACTIONE(M) DETVRPET ...

quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando?

Uso este verso de Quintiliano apenas para lembrar que a frase que o Luís escolheu para incipit do Prosimetron é de Terêncio.

Fausto - Goethe! 2

Mefistófoles nos céus é uma das ilustrações que mais gosto. Com pena minha, não sei se pertence à primeira versão ou à segunda. Alguém sabe?


Ilustração de 1828
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Delacroix, Fausto e Margarida, 1828.


L'altra notto in fondo al mare, III Acto Mefistófoles de Enrico Giuseppe Giovanni Boito

O espelho 12!

Sir Edward Burne-Jone, O Espelho de Vénus, 1875
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Óleo sobre tela 120 x 200 cm, Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
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Nota-se neste quadro pré-rafaelita a influência de Botticelli. Marcadamente simbolista o pintor inglês quis mostrar a importância da beleza ideal.
x
Maria Helena Soares Costa e Maria Luísa Sampaio – Pintura, Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian, 1998, pp. 226-231.

Sonnet 22

My glass shall not persuade me I an old,
So long as youth and thou are of one date,
But when in thee time's furrows I behold,
Then look I death my days should expiate.

For all that beauty that doth cover thee,
Is but the seemly raiment of my heart,
Which in thy breast doth live, as thine in me,
How can I then be elder than thou art?

O therefore love be of thyself so wary,
As I not for myself, but for the will,
Bearing thy heart which I will keep so chary
As tender nurse her babe from faring ill,

Presume not on thy heart when mine is slain,
Thou gav'st me thine not to give back again


William Shakespeare ; edición de Ramón García González http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/12048731998085961865624/p0000002.htm#I_26_

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Estudo para o Retrato de Blake - Francis Bacon

Francis Bacon, Study for a Portrait After the life mask of William Blake, 1955

Aquisições recentes - 12

Comprei esta tarde o mais recente romance do David Soares, O Evangelho do Enforcado, que, como resulta desde logo da capa, tem como intriga central os Painéis de São Vicente.
Passo a transcrever um excerto do texto da contracapa:
(...) Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado, é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. (...)
É uma edição da Saída de Emergência.

PENSAMENTO DO DIA

Il y a beaucoup de gens
dont la facilité de parler
ne vient que de
l' impuissance de se taire

- Cyrano de Bergerac

As minhas escolhas: The National Gallery


Hans Holbein (1497/8-1543) - Erasmus, 1523
(Escolhido por razões sentimentais)


Lucas Cranach (1472-1553) - Saints Genevieve and Apollonia, 1506

Cinenovidades - 110 : O outro Dumas

Este L' Autre Dumas estreou-se nas salas francesas no passado dia 10, e aborda as relações entre Alexandre Dumas e o seu principal colaborador, Auguste Maquet, relações marcadas por alguma tensão. Gérard Depardieu é Dumas, e Benoît Poelvoorde é Maquet. Espero que não demore muito a chegar até nós...

Vendedores de Lisboa


Vendedor de cestos, em Lisboa, ca 1850
Litografia João Palhares (ca 1810-ca 1875)

A Minha Religião é o Novo

A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol,
estas invenções habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante único.
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.

Gonçalo M. Tavares, Investigações. Novalis, Lisboa DIFEL, 2002

O que estou a ouvir... 4

Debussy : Clair de Lune, Mária Kovalszki na Academy of Music Ferenc Liszt, Budapeste

Paul Celan - dois poemas e não só!

Depois do Luís lembrar Paul Celan (1920-1970), deixo a minha escolha.
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O poema, sendo como é uma forma de aparição da linguagem, é por isso de essência dialógica, o poema pode ser uma garrafa lançada ao mar, abandonada à esperança - decerto muitas vezes ténue - de poder um dia ser recolhida numa qualquer praia, talvez na praia do coração. Também neste sentido os poemas são um caminho: encaminham-se para um destino (…) para um lugar aberto, para um tu intocável…”
x
Paul Celan, “texto de agradecimento do primeiro prémio recebido, em Bremen”, 1958, in Arte Poética - Meridiano e outros textos, Lisboa: Cotovia, 1996.
x
“Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema”.
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Paul Celan, “Carta a Hans Benderm”, in Arte Poética - Meridiano e outros textos, Lisboa: Cotovia, 1996.
x
Monumento ao Holocausto, Berlim

Aspen Tree

Aspen Tree, your leaves glance white into the dark.
My mother's hair was never white.
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Dandelion, so green is the Ukraine.
My yellow-haired mother did not come home.
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Rain cloud, above the well do you hover?
My quiet mother weeps for everyone.
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Round star, you wind the golden loop.
My mother's heart was ripped by lead.
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Oaken door, who lifted you off your hinges?
My gentle mother cannot return.
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Paul Celain
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A Noite das Palavras
x
Noite das palavras - vedor no silêncio!
Um passo e outro, ainda,
um terceiro, cujo vestígio
a tua sombra não apaga:

a cicatriz do tempo
abre-se
e afoga a terra em sangue-
os dogues da noite das palavras, os dogues
atacam agora
bem dentro de ti:
celebram a mais selvagem sede,
a mais selvagem fome…
xx
Paul Celan, “Noite das Palavras”, in De Limiar em Limiar (Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tanta loja de perfume, tanta pomba assassinada, tanta manifestação... ou Um sábado de manifs

E vão duas: Uma manifestação "em defesa da família" cuja verdadeira agenda é insistir no referendo ao casamento gay e já confirmada para o Marquês de Pombal, e outra que está a ser organizada para a Fonte Luminosa "de desagravo ao Primeiro-Ministro". Dia 20 será um sábado em cheio.
Não será caso para dizer venha o Diabo e escolha?

Biografias, autobiografias e afins - 64

Alexis Nouss assina esta biografia do grande poeta e grande tradutor que foi Paul Celan, traçando o percurso biográfico e autoral deste sobrevivente do Holocausto.

- Paul Celan. Les lieux d' un déplacement, Alexis Nouss, éd.Le Bord de l' eau, 380p, €22.

1910 - 10


Interpretação de 1911 de uma canção de um musical inglês de 1910, com o mesmo título.


Em 1965, os Hermans Hermits popularizam a canção.

Bye...


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Para me despedir de Londres, uma canção de um dos discos que mais ouvi, e que ainda hoje escuto.

Lá fora - 69 : Vanitas


Não se pense que tenho alguma comissão da Mairie de Paris, antes tivesse, mas os crânios de Canato lembraram-me mais uma exposição patente na Cidade-Luz. Trata-se de uma exposição acerca de um género pictórico que aprecio, as vanitas, e não podia ser mais oportuno falar do tema neste primeiro dia da Quaresma...
As 160 obras reunidas no Museu Maillol mostram como a temática chegou até aos nossos dias, pela mão de Jean-Michel Basquiat, Cindy Sherman ou ainda mais recentemente Damien Hirst ( o do crânio incrustado de diamantes ), depois de ter sido abordada por Caravaggio, Zurbáran ou Picasso.
- C' est la vie!- Vanités de Caravage à Damien Hirst, Museu Maillol, Paris, até 28 de Junho.